Um vento frio e sibilante soprava por entre as árvores
da floresta. Alguns animais pequeninos corriam para suas tocas e para os seus
ninhos enquanto fugiam daquele ar congelante. O céu estava num tom cinza chumbo
e as nuvens pareciam formar ondas tridimensionais no alto.
No alto de uma montanha, repousava em seu ninho uma
ave diferente. Com uma crista de penas amarelo-ouro, seus olhos negros fitavam
o horizonte, como se estivessem hipnotizados. Seu pescoço era forrado por
rajados de preto sobrepostos ao laranja. E seu corpo era todo avermelhado como
uma mancha de sangue vívido. O seu rabo se estendia por longas dez penas pretas
e pintadas de branco.
A ave estava ferida. Uma fumaça esverdeada saía
debaixo de uma de suas asas, por um extenso ferimento profundo. O sangue
dourado escorria feito ouro derretido pelas pedras da montanha, mas a ave
continuava fitando o horizonte em chumbo. Há pouco mais de seis anos, aquela
mesma ave havia passado por um intenso processo de transformação e de
renascimento.
Era sempre assim: algo a machucava demais de forma que
ela ficasse impedida de continuar voando. Sempre suas asas eram afetadas e ela
perdia a bela habilidade de voar rasante pela floresta e por todos os campos
que ali cercavam. Mas, desta vez, o ferimento parecia mais profundo; ela sentia
uma dor agonizante sob o seu peito e, por isso, não conseguia alimentar-se nem
reagir... Poupava a sua energia restante, o seu calor restante.
Desta vez, ela achava que não poderia reerguer-se.
Acreditava estar fraca demais para isso, que seria impossível. Então, algo
aconteceu: um pequeno mico-leão escalou a montanha e jogou algo perto dela; era
uma semente de carvalho. A ave olhou para a semente e entendeu: carvalhos são
árvores utilizadas como medidores de catástrofes naturais, são as árvores que
mais absorvem as consequências de temporais – quanto mais tempestades o
carvalho enfrenta, mais forte ele fica, com suas raízes se aprofundando ainda
mais sob a terra e tornando o seu tronco mais robusto, ficando muito firme no
solo. Outros animais fizeram o mesmo: trouxeram gotas de água, outras sementes,
flores e frutos. Tudo na intenção de acolher aquela ave majestosa. A ave moveu
a cabeça em agradecimento.
Raios e trovões começaram a tomar conta do local num
festejo particular. Em seguida, o vento ficou mais forte. A ave soltou um
gorjeio melancólico. Todos os animais ali perto olhavam com lamento. Foi como
um grito de alarme. No instante seguinte, as penas da ave começaram a
desprender-se do seu corpo, deixando-a completamente vulnerável. A sua ferida
ficou visível: um corte irregular que jorrava o sangue dourado e brilhante, o
mesmo sangue que era absorvido pela terra a cada gota caída. Então, numa rajada
de vento, a ave começou a se desintegrar, literalmente, virando pó. Os seus
restos, feito poeira de um diamante, eram levados pelo vento e dançavam em
sintonia pelo ar.
A chuva começou a cair. Todos os animais se recolheram
novamente para as suas tocas enquanto observavam a chuva derrubar cada pedaço
restante do que havia sido aquela linda ave. E os pedaços se amontoaram todos
no chão, numa clareira. Cerca de três horas depois da tempestade, o céu clareou
e exibiu um espetáculo de cores azul e violeta. Aos poucos, os animaizinhos
rodearam o monte de poeira restante da ave e ficaram ali por um momento.
A última nuvem de chuva que restou lançou um raio em
direção aos restos da ave. E o pó começou a pegar fogo. Uma chama muito alta
começou a arder num vermelho vivo e dançante. Os animais, assustados,
afastaram-se para trás. Mas o fogo não parava de crescer: a chama tomou
proporções altas e um formato peculiar. Aos poucos, o fogo tomava a forma de
uma ave no céu, com suas enormes asas se abrindo de uma ponta a outra e a sua
cabeça olhando para cima, num canto harmonizado que ecoava por todo o lugar.
O fogo começou a diminuir e a exibir aquela mesma ave
que estava ferida. Mas, agora, ela estava curada. Ela precisou do caos, da
água, do ar, da terra e do fogo para curar a si e transformar-se na sua melhor
versão. Era uma fênix, uma linda ave colorida que emanava um brilho quente por
suas penas.
A fênix olhou para cada um dos animais que estava ali,
percorreu o olho por cada ser vivo. Então, virou-se e, num súbito mergulho,
voou para a imensidão do céu, sumindo no horizonte em busca de uma nova vida.