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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Falar sobre suicídio: O medo de ganhar responsabilidade sobre aquilo que eu não controlo




Eu estava pensando... Não falar sobre um problema não faz com que esse problema deixe de existir. Na verdade, não falar sobre ele só me cria a noção de que ele não existe mais ou que não é mais uma responsabilidade minha.

Medo. Eu tenho medo de falar sobre aquilo que eu acredito que seja minha responsabilidade porque isso envolve o julgamento dos outros, envolve a culpa que eu posso me dar caso eu não consiga resolvê-lo.

Mas, agora, vamos nomear esse problema: suicídio. Aposto que, só em ler essa palavra, você já experimentou uma sensação esquisita, um incômodo. Então! O suicídio é real. Ele existe. A ideação suicida é real. Ela também existe. É algo que está acontecendo em volta do mundo – queira você falar ou não. Em algum lugar do mundo, a cada 40 segundos, uma pessoa acaba com a própria vida. Aqui, no Brasil, uma média de 32 pessoas acaba com a própria vida diariamente. 56% das pessoas que tentam, morrem na primeira tentativa de suicídio. 40% das pessoas que tentaram uma vez voltam a tentar suicídio ao longo da vida. Mais de 1/3 das pessoas com ideação suicida mantém essa ideação por uma década. A estimativa é de que, no ano de 2020, o número de suicídios chegue a 1,5 milhão.

Um estudo do National Institute of Mental Health (Instituto Nacional de Saúde Mental) dos Estados Unidos, dirigido por Thomas Insel, mostrou que a redução da mortalidade por algumas causas médicas. De 1965 a 2012, as mortes por acidentes de trânsito reduziram em 20 milhões (porque houve investimento em campanhas de conscientização e atenção no trânsito); as mortes por AIDS reduziram em 30 milhões (porque os governos investiram nas campanhas de prevenção e ofereceram métodos preventivos); mas as mortes por suicídio não sofreram uma queda porque não houve investimentos na área. No Brasil, o Ministério da Saúde criou um plano de prevenção ao suicídio em 2006, porém, o plano não saiu do papel.

A morte é um tabu muito grande em nossa sociedade ainda. E é um tabu ainda maior quando a morte é provocada pela própria pessoa. Afinal, uma coisa é ter uma vítima para sentir pena e um algoz a quem culpar... Mas o que eu faço quando a vítima e o algoz são a mesma pessoa? O que eu faço quando a pessoa que mata é a mesma pessoa que morre?

Eu não faço nada. Eu não tenho de fazer nada. Isso não cabe a mim. Eu não fui preparado para lidar com a minha dor, quanto mais para lidar com a dor do outro. Nós não damos conta de tudo – eu não dou conta de tudo. Quando um suicídio acontece, ele acontece por uma série de fatores e não apenas porque alguém “descuidou” e não percebeu o que estava acontecendo com a pessoa.

O medo em torno da discussão sobre o suicídio se prova um medo pela responsabilidade de ter provocado um suicídio quando eu ouço uma fala do tipo “É melhor não falar sobre isso (suicídio) porque pode acabar sugestionando coisas...”. E não é assim, não quando a gente fala com a intenção de prevenir, de desmitificar. Ter informações adequadas sobre o tema é uma forma importante de preveni-lo. E, aí, a gente precisa ter algo em mente: podemos prevenir um suicídio, mas não podemos evitá-lo. Eu não tenho controle sobre as decisões do outro, sobre a vida do outro.

Portanto, a única coisa que posso fazer para ajudar é perceber a dor do outro, tornar-me sensível a isso e oferecer a minha escuta. Apenas isso. Tudo o que vem depois disso, não está em minhas mãos.

E quando eu digo que ouvir o outro e reconhecer a dor do outro faz diferença, é com conhecimento de causa – dos dois lados da causa. Muita gente que estava sofrendo e, depois de poder desabafar e me contar tudo o que estava sentindo, relatou melhora e alívio. Mas eu (sim, eu!) também já senti esse alívio ao desabafar para alguém.

E como é difícil eu confiar em alguém para contar as minhas dores mais profundas. Como é difícil eu acreditar que não vão me julgar se eu contar que já me cortei para tentar sentir algo além daquela angústia. Como é difícil e pesado eu falar sobre o desejo de não acordar todos os dias e passar mais um dia aguentando todo esse sofrimento – e muita gente acaba nem se dando conta. E nem precisa se dar conta, afinal, é o meu sofrimento. Mas é difícil. Eu choro quase todos os dias quando sou tomado por pensamentos confusos, pelas sugestões que a minha própria mente me dá para me livrar de tudo isso que eu sinto.

Todo dia, quando acordo, penso: “Eu espero que eu sinta menos hoje.”. Durante o dia, um turbilhão de emoções – e eu nunca consigo organizá-las.

É assustador pensar na morte como alternativa a essa angústia... Porque eu amo o meu marido, eu amo os meus irmãos, os meus pais, a minha família. Eu amo os meus animais de estimação. Eu amo muitas pessoas que conheci nesses 27 anos – algumas, inclusive, que já nem fazem parte da minha vida diária. Mas eu fico desesperado quando eu penso em como cada uma delas ficaria se soubessem como eu me sinto todos os dias. E essa angústia, essa culpa, acaba me afundando ainda mais.

Na verdade, eu estou com o coração acelerado escrevendo aqui porque isso é algo que pouca gente – quase ninguém – sabe. O medo dos olhares é muito grande. O medo dos conselhos... Eu não quero conselhos, eu quero que a dor pare, eu quero que o sofrimento acabe.

Por isso, eu peço:

“Sejam mais gentis, por favor. Amem mais, ajudem mais, vejam mais, peguem nas mãos das pessoas que estão se afogando. Dê a sua mão. Dê um sorriso. Eu quero pedir que sejam mais tolerantes.”

Deixem que as pessoas chorem porque, talvez, com o choro, elas possam sentir o alívio de que precisam – não vejam o choro como uma fraqueza nem fiquem desesperados ao verem alguém chorando. Deixem as pessoas falarem sobre a sua dor. Ouçam.

O pacto de silêncio nunca é favorável.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Conto - Terror na Rodovia

            A noite estava abafada. Não havia uma nuvem no céu; em contrapartida, as estrelas revestiam toda aquela imensidão de cor azul escuro. A rodovia, por sorte, estava livre – quase não se via carros passando pela pista contrária, nem atrás, nem à frente. Eram apenas Rodolfo e Luís, dentro daquele carro.
            — Caramba! — reclamou Luís. — Que calor horrível! Já é quase meia noite e o tempo ainda está assim...
            — Esta região aqui de Araçatuba é assim mesmo — comentou Rodolfo. — Mas estamos quase lá; só mais umas duas horas e chegaremos em Ilha Solteira.
            O casal estava dirigindo rumo à cidade de Ilha Solteira, última cidade do estado de São Paulo antes da divisa com Mato Grosso do Sul. A família de Rodolfo era do interior, e o jovem estava levando o namorado para apresentá-lo aos seus pais.
            — Se à noite é assim, imagine durante o dia! — pensou Luís, incomodado com o clima. — Mais duas horas e estaremos carbonizados...
            — Pare de ser exagerado, Luís! — pediu Rodolfo. — Lá tem um rio enorme pra você se refrescar durante o dia. Relaxa!
            — “Nhandeara” — comentou Luís. — Que nome esquisito, o dessa cidade!
            — É um nome de origem tupi — explicou Rodolfo.
            O carro estava com as janelas da frente abertas, para refrescar um pouco a viagem do casal. Alguns insetos acabavam entrando no carro e perturbando Luís, mas aquilo não era nada comparado àquele calor insuportável que o rapaz sentia.
            De repente, o carro começou a perder a velocidade. As luzes do painel frontal piscaram três vezes e se apagaram; depois, foi a vez dos faróis do carro. Estava um breu.
            — O que aconteceu? — questionou Luís, olhando ao redor. Estava tudo muito escuro, não havia sinal algum de uma cidade próxima. Nenhum carro passava na rodovia.
            — Caramba... Não sei! — respondeu Rodolfo. — A bateria deve ter arriado, ou algo do tipo. Não sei!
            — Como assim? — Luís ficou espantado. — Você não checou o carro antes da gente sair? Não podemos ficar parados aqui no meio do nada!
            — Espera um pouco... — Rodolfo tentou ligar o carro, mas não conseguiu. — Não sei o que houve. Vou precisar sair e procurar ajuda.
            — O quê? — Luís não acreditou no que ouvira. — Ficou louco, Rodolfo? Olha a escuridão que está lá fora! Por que não usa o celular?
            — Celular, neste meio do nada? — interrogou o jovem. — Não tem sinal aqui, Luís. Se eu não sair e procurar ajuda, ficaremos aqui, sabe-se lá até quando!
            — Rodolfo, não tem onde buscar ajuda! — insistiu Luís.
            Rodolfo saiu do carro e caminhou em volta do veículo. O rapaz esticava o pescoço para o lado direito da pista, tentando ver se encontrava alguma moradia no meio daquele campo sem fim.
            — Acho que tem uma casa ali — Rodolfo apontou no meio do nada.
            — Onde? — estranhou Luís. — Não vejo nada!
            — Olhe bem ali... — pediu Rodolfo. — Está vendo um pontinho iluminado? É uma janela! Tem uma casa ali!
            — Então vamos lá! — disse Luís.
            — Não! — respondeu o motorista, prontamente. — Se o carro ficar sozinho, pode ser roubado ou algo do tipo. Você fica; eu volto rápido!
            — Sozinho? — perguntou Luís, soltando um leve gemido de medo.
            — Eu volto logo! Prometo — Rodolfo deu um selinho no namorado, pegou duas lanternas no porta-luvas, uma para ele e outra para Luís. — Espere no carro.
            Assim, Rodolfo se embrenhou no meio do mato e desapareceu na escuridão.
            Enquanto isso, Luís ficou sentado no banco do passageiro, mexendo no celular. A lanterna iluminava o interior do carro, proporcionando um pouco mais de segurança ao rapaz.
            Pouco tempo depois, Luís ouviu um barulho; pelo retrovisor, o rapaz pôde ver os faróis de um carro se aproximando. Ele apagou a lanterna imediatamente e ficou em silêncio, tentando não chamar atenção.


            O carro passou ao lado, na pista, e estacionou no acostamento logo à frente.
            Luís começou a suar frio; achou que seria roubado, sequestrado ou, até mesmo, morto. O jovem começou a rezar em voz baixa e tremia.
            — Oi! — uma voz masculina ecoou dentro do carro. — ‘Tá tudo bem aí?
            — Oi — Luís abriu os olhos e encarou o homem na janela do carro. — Acho que a bateria do carro arriou. Meu nam... Meu amigo foi procurar ajuda.
            Ele preferiu não comentar que tinha um namorado. Se o homem desconhecido fosse homofóbico, mataria ele ali mesmo.
            — Ajuda? — estranhou o homem misterioso. Ele usava uma barba rala e seus olhos carregavam um ar sombrio. — A cidade mais próxima daqui está a uns trinta quilômetros. E se ele voltou, vai ter que andar, pelo menos, cinquenta quilômetros. Quer uma carona?
            — Não! — respondeu de imediato. — O Rodolfo não voltou... Ele acha que viu uma casa no meio do pasto, e foi até lá tentar pedir ajuda. Obrigado.
            — Tem certeza? Não há ninguém morando num raio de vinte quilômetros — comentou o homem. — Meu nome é Fernando. Moro em Pereira Barreto, é perto daqui. Se quiser, posso te dar uma carona até um posto policial.
            — Obrigado, mesmo... — agradeceu Luís, desconfiado. — Mas prefiro esperar pelo Rodolfo.
            — Esse Rodolfo é seu namorado, né? — questionou Fernando, intrometido.
            — Hein? — Luís começou a ficar mais apreensivo e demonstrou sua tensão.
            — Você tem uma aliança... — Fernando apontou para o dedo do rapaz. — Você não deixaria sua namorada para viajar com um amigo em plenas vésperas do Natal.
            — Cara, desculpe... — Luís estava incomodado. — Será que você pode ir?
            — Tudo bem! — disse Fernando, mostrando um belo sorriso. — Vou deixá-lo em paz. Espero que seu namorado não te deixe aqui plantado a noite inteira, pois você não merece. Boa sorte!
            Assim, Fernando volta para o seu carro e some na escuridão da rodovia.
            Luís reacende a lanterna e tenta ligar para o celular de Rodolfo, mas não consegue. O rapaz sai do carro e anda para o campo à sua direita – havia um pequeno morro, onde, talvez, o sinal do celular tivesse uma maior intensidade.
            Sobre o morro, Luís enxerga melhor a luz vista por Rodolfo; mas também se dá conta de que, com certeza, aquela não era a luz da janela de uma casa. O que Luís via era uma espécie de fogueira, bem longe dali, como uma festa. Havia algumas pessoas em volta do fogo, caminhando em círculo. Também havia quatro tochas, formando um quadrado em volta do círculo.
            Preocupado com o que pudesse ter acontecido ao seu namorado, Luís desceu do morro e caminhou rumo ao local. Já próximo da fogueira, o rapaz pôde distinguir nitidamente todo o evento: oito pessoas faziam uma espécie de ciranda em volta das chamas, cantando em um idioma desconhecido para Luís – pareciam estar num transe, numa hipnose.
            No meio do círculo, Luís conseguiu enxergar Rodolfo. Ele estava deitado sobre uma tábua de pedra, com um punhal ensanguentado ao lado de seu corpo. Então, Luís percebeu uma mancha vermelha na mão do namorado – sangue.
            — Rodolfo! — gritou Luís, saindo do meio do matagal em direção ao corpo do namorado.
            Nesse instante, as oito pessoas se calaram. Dois homens seguiram exatamente na direção de Luís e o agarraram pelos braços.
            — Me soltem! — gritou o jovem. — Socorro!
            Mas Luís desmaio enquanto era carregado para a tábua de pedra e via seu namorado se levantar como se nada tivesse acontecido.
            Cinco minutos depois, Luís foi acordado por Rodolfo, que mostrava um sorriso largo. Rodolfo passou a mão sobre o rosto de Luís e removeu o pano que impedia o jovem de gritar.
            — O que você está fazendo? — perguntou Luís, consternado. — Que droga é essa?
            — Fique calmo, não vai demorar — pediu Rodolfo, com calma total. — Colabore com a gente e tudo ficará bem.
            — Rodolfo, o que é isso? — insistiu Luís. — Me solta! Me deixa ir embora daqui... O que você ‘tá fazendo?
            — Silêncio! — o garoto deu um tapa para calar o namorado.
            Em seguida, os dois homens voltaram, junto com as outras seis pessoas. Todos fitavam Luís seriamente.
            — Quem são vocês? — questionou Luís, choramingando.
            — Minha família — respondeu Rodolfo. — Eu não disse que você os conheceria? Pois, então!
            — O Rodolfo é um garoto e tanto — comentou uma mulher, no círculo. Ela tinha feições semelhantes às de Rodolfo. — Como mãe, tenho orgulho de vivenciar a passagem de meu filho à vida adulta.
            — Do que ela está falando? — perguntou Luís, irritado e, ao mesmo tempo, desesperado, tentando se livrar das cordas que o amarravam.
            — Somos de uma linhagem secreta — revelou Rodolfo. — Sempre que um de nós completa os vinte e um anos, participamos do ritual de passagem à vida adulta. E você é meu convidado especial!
            — Não quero participar desta merda! — reclamou o menino, sem mais lágrimas para chorar. — Me tira daqui! Você me enganou o tempo todo... Como fui imbecil!
            — Não te enganei! — respondeu Rodolfo, ofendido. — Eu amo você, de verdade! Mas o ritual exige isso... Sacrificar o primeiro amor em troca das benções dos deuses por toda a sua vida.
            — Que deuses, seu louco? — vociferou Luís, sem paciência. — Eu quero ir embora!
            — Chega de conversa, Rodolfo — disse um senhor no círculo. — É chegada a hora do ritual!
            — Não! — contestou Luís.
            — Certo, pai — concordou Rodolfo.
            O garoto segurou o punhal que estava ao lado de seu corpo e ergueu o instrumento, alinhando-o com o peito de Luís.
            — Eu vos ofereço o sangue do meu primeiro e verdadeiro amor — proferiu Rodolfo, de olhos fechados. Lágrimas escorriam por seu rosto. — Recebam este sacrifício como prova de minha devoção e lealdade. Espero por suas benções em minha vida e, em troca, serei eternamente fiel a vocês.
            A chama da fogueira se intensificou e ficou mais alta. O ar ficava mais seco e caloroso. Luís fechou os olhos para não ver aquilo. Mas, para sua surpresa, Rodolfo baixou o punhal nos pulsos do garoto, libertando-o das cordas.
            — Fuja daqui — ordenou Rodolfo, com os olhos marejados. — Corra o mais rápido que puder!
            — E você? — mas, assim que concluiu a pergunta, a mãe e o pai de Rodolfo o esfaquearam pelas costas. E o jovem caiu morto numa poça de seu próprio sangue.
            — O ritual chegou ao fim — comentou o pai de Rodolfo. —, mas você não vai embora!
            Luís correu o máximo que conseguiu, mas foi encurralado por um dos homens que o aprisionara no início. O brutamonte fez um movimento rápido com um punhal e cortou o pescoço de Luís.
            Quase se afogando em seu sangue, que gorgolejava na garganta, Luís continuou correndo em direção à rodovia. Sua força se esvaía pouco a pouco. Suas esperanças reviveram quando enxergou, ao longe, um foco de luz vindo da rodovia; alguém mexia no carro do seu namorado. À medida que se aproximava, conseguia enxergar com mais nitidez – era Fernando, o homem que oferecera ajuda e que Luís, por medo e desconfiança, não havia aceitado; mas o garoto estava amargamente arrependido por não ter aceitado a ajuda do desconhecido, pois poderia estar bem melhor que naquele instante.
            Sem pestanejar, Luís continuou caminhando, dando passos falsos, rumo à rodovia. Mas sua visão começou a embaçar, seus lábios ficaram secos, um gosto de ferro se apropriou de sua boca, um zumbido agudo começou a irritar seus ouvidos. Aquele era o fim. Ele precisava correr para que Fernando pudesse vê-lo e correr com ele para um hospital.
            Luís estava a cinco metros de distância de Fernando, mas não podia gritar porque estava com a boca cheia de sangue. Inesperadamente, uma escuridão tomou conta de toda sua visão.

            O garoto, infelizmente, havia caído num buraco escondido no meio do mato. A última coisa que conseguiu ver, ainda de dentro do buraco, foram os dois brutamontes da família de Rodolfo, jogando terra dentro do buraco. Luís foi enterrado vivo, sem esperanças, e sem uma segunda chance.

sábado, 27 de setembro de 2014

Conto: Lúcido


            Aquele era o pior dia da vida de Rebeca. O dia 10 de setembro de 2014 marcaria a sua existência. Sua mãe, o único membro da família com quem convivia e tinha laços, havia morrido naquela madrugada. As preces, as visitas, as suplicas, as quimioterapias, nada disso ajudara a mãe dela vencer o câncer.
            Rebeca estava furiosa com Deus e o mundo. Nem um e nem outro se importava com o fato da morte de sua mãe. Nem um e nem outro se importou com a vida de sua mãe. “Que Deus é este que abandona quem mais tem fé?”, ela se perguntava enquanto vestia a roupa. Estava tudo preparado para o velório e o enterro. O velório seria às vinte horas, e o enterro aconteceria na manhã seguinte. A jovem pegou sua bolsa e a chave do carro, saindo de seu apartamento. Dali a alguns minutos, ela teria de encarar as pessoas, aquelas mesmas pessoas que viraram as costas para sua mãe.
            Já no velório, Rebeca não abandonou o caixão por um segundo. Cada pessoa que se aproximava ficava sem jeito, pois percebia a revolta na expressão da menina. Não demorou muito e a sala do velório estava lotada. Tanta gente ali, para velar o corpo de sua mãe, e nenhuma para visitá-la quando ainda viva. A jovem conhecia todos ali e fez questão de olhar cada um nos olhos.
            Após algumas horas, Rebeca ouviu o som de correntes se arrastando pelo chão. Ela olhou a sua volta, mas não viu nada incomum. Ninguém portava correntes. Mas ela percebeu a presença de um homem desconhecido. Era um homem alto, com a pele muito branca, o cabelo preto, curto e arrepiado. Seus olhos eram quase de um tom lilás, e fitavam-na diretamente. Ele vestia uma espécie de sobretudo de cor creme, sobre uma calça social creme e uma camisa branca. Por um momento, Rebeca pensou ter visto uma corrente pendendo sobre a coxa do homem e arrastando no chão, mas quando olhou novamente não viu nada.
            A menina se sentiu tentada a falar com o homem misterioso, mas não queria deixar a sua mãe sozinha naquele caixão. Como se tivesse lido os seus pensamentos, o homem se levantou e caminhou até o caixão, ficando diante da jovem. Eles ficaram calados e olhando um para o outro, por cerca de vinte minutos, como se estivessem em um transe. Então, sem falar nada, o homem se retirou da sala.
            Como que tomada por um impulso incontrolável, Rebeca seguiu o homem. As pessoas que estavam no velório acharam esquisita a atitude da menina, que estivera ao lado da mãe a cada segundo. Rebeca o encontrou parado em um cruzamento de duas ruas, em frente ao velório, olhando para o céu estrelado. “Preciso saber quem ele é. Sei que ele pode ajudar.”, pensou a menina. E ela foi até o homem.
            — Oi? – disse a menina, preocupada.
            O homem voltou o seu olhar para Rebeca. Ele tinha uma beleza única, era tentador. Mas provocava, ao mesmo tempo, medo e angústia.
            — Quem é você? – questionou Rebeca. As palavras quase não saíam por seus lábios. Ela se aproximou aos poucos.
            — A pergunta correta é: “quem é você?” – devolveu o homem, sorrindo, com um olhar enigmático.
            — Quem sou eu? – estranhou a menina, sem compreender.
            Novamente, o barulho de corrente se arrastando pelo chão voltou a ser ouvido por Rebeca. Dessa vez, a menina viu a corrente amarrada nos pulsos do homem e caindo por suas pernas, até chegar ao chão.
            — Somos prisioneiros da ignorância – respondeu o homem. — Aquele que permitiu que vivêssemos, não permitiu que enxergássemos. Ele nos quis cegos e escravos de Sua própria vontade, de Seus caprichos. Ele criou a luz, mas não permitiu que cada criatura vivente pudesse acender a sua própria chama interior.
            — De onde você é? – perguntou Rebeca, sentindo uma inquietação.
            — Sou de onde eu não via as estrelas, mas via das estrelas – revelou o homem, segurando a corrente. — Fui arremessado no profundo abismo, na escuridão, porque exigi que a lucidez fosse um direito de cada ser. Mas é chegada uma Era de Luz. A Era dos Lúcidos. Os homens querem ver, e os homens poderão ver! A luz sempre esteve com vocês, vocês apenas se esqueceram disso por conta da vontade d’Aquele que anseia ser o único.
            Rebeca sentiu sua visão embaçar e, depois, focalizar novamente. Agora, ela enxergava o que antes não podia. Era uma sensação inédita, como se fosse parcialmente cega por toda a sua vida. O luar permitiu que a menina enxergasse a sombra do indivíduo. Em sua sombra, asas se expandiam ao lado de seu corpo. Rebeca sentiu uma corrente de energia percorrer todo seu corpo, como se uma explosão liberasse muita energia acumulada.
            — Agora você compreende? – perguntou o homem. — Esta é a visão que é sua por direito. Eu, como o Portador da Luz, não descansarei enquanto todas as criaturas deste planeta alcancem o lugar que lhes é de direito.
            O homem estendeu a mão para Rebeca e sorriu, por fim. A menina segurou sua mão, sem hesitar, e seguiu pela rua até desaparecerem da vista das pessoas que estavam no velório.

            Aquele dia marcara a existência de Rebeca. Afinal, não fora o pior dia de sua vida. Havia sido o melhor. Fora o dia em que passou a enxergar com os olhos da razão.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Conto: O Fruto do Conhecimento


A noite era fria. Um vento úmido e gelado corria pelo quarto. Levante-me para fechar as janelas que ainda estavam abertas. Fechando a janela da sala, percebi algo ao lado de fora. Lá em cima, no alto das Colinas Gêmeas, havia uma silhueta perambulando de um lado para o outro, debaixo da Árvore Santa.
            Então, a figura que andava parou. Estava muito escuro para conseguir enxergar, mas parecia que estava olhando em minha direção. Senti um arrepio na nuca. Era como um breve suspiro em minhas costas. Olhei para trás, aturdida, mas não havia ninguém – era só uma má-impressão. Quando voltei a olhar para as Colinas Gêmeas, a silhueta não estava mais lá. Somente a Árvore Santa, com seus galhos e folhas balançando com o forte vento que tomava conta de tudo.
            Fechei as cortinas e voltei para o meu quarto. Enquanto me arrumava debaixo das cobertas, senti um breve aroma. Era cedro. Vinha da Árvore Santa, provavelmente. Bebi um gole do chá de gengibre e apaguei a luminária.
            Estava um silêncio infinito.
            Eu não ouvia nada além daquele zumbido interior, de quando tudo está quieto e seu ouvido fica tentando localizar algum som. Fechei os olhos. Enfim, o meu corpo cede ao cansaço e eu durmo. Ou, ao menos, acredito estar dormindo.
            Comecei a enxergar um foco de luz vindo da cozinha. De imediato, pensei que fosse um sonho. Levantei-me e fui até a claridade, que se apagou quando me aproximei. Foi aí que percebi que eu estava, de fato, acordada, na cozinha. Fiquei meio assustada. Aquilo nunca havia acontecido. Não sou sonâmbula.
            Enquanto voltava ao quarto, senti novamente aquele aroma. Cedro.
            Abri a janela da sala e olhei para as Colinas Gêmeas. A Árvore Santa agora estava estável. Já não ventava mais. Então de onde teria vindo o cheiro de cedro?
            Para meu espanto, enquanto eu pensava naquela hora da noite, alguém bateu à porta de casa. Fiquei tensa. Já passavam das duas horas da manhã e eu não esperava por visitas. Pensei na silhueta que caminhava no alto das colinas. Voltei para o meu quarto e fechei a porta, mas continuavam a bater na porta da sala, insistentemente.
            Destranquei a porta do quarto e peguei a primeira coisa que vi na frente que, por sinal, era um guarda-chuva. Caminhei em passos lentos e silenciosos até a sala. Perguntei quem estava batendo, mas não ouvi resposta. Perguntei mais uma vez, e nada. Então, sentei-me no sofá e ali fiquei.
            O aroma de cedro se intensificou. Junto, um cheiro de queimado se alastrou por minha casa. Corri até a janela da sala e vi o que acontecia. A Árvore Santa estava em chamas. Alguém havia iniciado um incêndio naquela árvore gigantesca. Seus galhos, queimados, caíam enquanto as folhas secavam.
            Quem estava ao lado de fora de casa voltou a bater na porta. Dessa vez, impacientemente. Parecia que minha porta ia cair a qualquer instante. Segurei firme o guarda-chuva. Perguntei mais uma vez quem era. Mas não houve resposta. Decidida, e com muito medo, abri a porta. E não havia ninguém. Ninguém. Coloquei a cabeça para fora, olhando de um lado para o outro e não encontrei vestígio de que havia alguém ali.
            Peguei meu celular e disquei o número da polícia. Assim que atenderam, falei que havia colocado fogo na Árvore Santa, e a atendente ficou surpresa. Fui informada de que deveria ligar para os bombeiros, mas expliquei que não era apenas aquele o motivo de minha ligação. Contei que havia alguém batendo na porta de casa e que estava escondido lá fora. Ela ia dizer algo quando a ligação caiu. Tentei discar novamente, mas o meu celular estava sem sinal. Tentei pelo telefone fixo, mas não havia linha. Tentei ligar o notebook, mas ele não ligava de jeito nenhum.
            Entrei em desespero e comecei a gritar por socorro.
            Eu assistia a árvore morrer a cada segundo. Era desesperador. E eu morreria também, dependendo de quem estivesse lá fora. Chorei como criança. Então, vi que o fogo apagou magicamente. Em seguida, começou a cair um temporal. A fumaça do que havia se queimado subia e se misturava ao vento úmido da chuva. Era uma cena assustadora. E ouvi, novamente, alguém bater na porta.
            Não hesitei. Busquei uma faca na cozinha e fui até a sala. Em frente à porta, abri-a com cuidado. Havia um homem de meia-idade, com cavanhaque e vestido com roupas de frio. Ele mantinha os olhos fixos nos meus, como se desejasse ver o meu interior.
            Perguntei, com a voz trêmula, quem ele era e o que ele queria. Ele sorriu. Foi um sorriso bonito, mas carregava um ar de mistério. Ele fez menção de entrar na sala, quando levantei a faca, ameaçando-lhe. Mais uma vez, ele sorriu. Apontou para a janela que dava vista para a Árvore Santa, olhando o resto da árvore milenar. Finalmente, ele falou. Ele me disse que aquilo não era nada. Aquilo não era nada comparado ao que podia fazer com todo o seu poder. Tencionei os meus ombros, amedrontada. Mas ele disse que nada faria contra mim, pois eu já havia feito. Questionei-lhe sobre o que se referia, e ele riu mais uma vez. Senti um impulso tomar meu braço e lancei a faca que eu segurava contra o seu peito.
            Para a minha surpresa, e pânico, nada aconteceu.
            Ele continuou sorrindo. E ali eu percebi, era um sorriso maléfico, perverso.
            Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia quem ele era e nem o que ele queria. Eu não sabia o que viria depois, nem imaginava o rumo que minha vida tomaria depois daquela madrugada. Perguntei, de novo, quem ele era.
            Dessa vez, ele respondeu. Mas eu preferia nunca ter ouvido aquela resposta.
            “Sou aquele que não mente. Sou aquele que quer apenas estar entre a humanidade. Sou aquele que quer ser humano e, por desejar ser humano, fui arremessado de meu posto ao lado de meu pai.” Foi o que ele me respondeu. Não era brincadeira. Não era uma piada. Aqueles olhos não eram de brincadeiras.
            Quando me dei conta, eu estava me desfazendo em lágrimas. Eu chorava como quem vê a morte à sua frente e não quer morrer. Eu chorava como quem perde o pai, a mãe. Eu chorava como quem chora quando não sabe o seu destino. E ele continuava ali, sorrindo e me observando.
            Perguntei, pela última vez, o que ele queria comigo. E ele disse. Disse que queria me mostrar a verdade. Que ele era a verdade, e não o que toda a humanidade acreditava que fosse. Ele me disse que jamais tirou a vida de alguém por mera demonstração de poder, ou para castigar, ou para satisfazer o seu ego. Não. Ele agia apenas por vingança. E ele agiria vingativamente até o fim, quando pudesse retornar ao seu posto e dizer ao seu pai que tudo o que ele queria era ser amado, como os humanos foram amados.
            Ali, notei o quão tola fui de questioná-lo e desejar saber sobre ele. Minha vida mudou dali em diante. Ele foi embora antes que eu pudesse perguntar ou falar qualquer outra coisa. Ele desapareceu. Nunca mais o vi.
            Mas eu ainda o sinto. Sinto sua presença como jamais senti.
            Agora, tenho um turbilhão de confusões em minha mente. Minha vida se danou desde então. Agora eu sei a verdade. Eu sei as duas verdades. E vou carregá-las até o fim de meus dias, tentando saber qual é a verdade, de fato. E isso me consome. Isso me angustia. Há dias em que desejo morrer, apenas para ter a certeza de que aquele homem estava sendo verdadeiro ou não.
            Fui tomada pelo desejo de saber a verdade. Fui tomada pelo conhecimento.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Conto - Anseios de Pedro


            — Acorde, seu imprestável! – o grito ecoava pelo pequeno quarto. —Acorde!
            Os olhos de Pedro se abriram. O garoto estava assustado.
            — Acorde, seu vagabundo! – a voz masculina continuava a gritar, insistentemente. — Abra essa porta!
            O garoto se levantou de sua cama, apoiando-se com o cotovelo direito e colocando o seus pés no chão carpetado.
            Ele esfregou os olhos, tentando desembaçar a visão. Soltou um bocejo.
            — Abre logo essa porta, Pedro! – gritava o homem do outro lado da porta, quase a derrubando.
            — Já “” indo, calma! – pediu o rapaz, caminhando rumo à porta. — Pra quê essa gritaria?
            — Seu filho de uma puta! – gritou o homem. — Você é um lixo...
            O rapaz, então, lembrou-se do possível motivo da gritaria.
            Na noite anterior, Pedro saíra com os amigos para uma balada e, na volta, conseguiu uma carona com Júlio, um velho amigo. Mas, recentemente, os dois haviam descoberto um sentimento que ia além da amizade. Naquela madrugada, assim que desceu do carro, Pedro foi puxado por Júlio, que lhe beijou ali, em frente à sua casa.
            Foi maravilhoso. Um sentimento intenso.
            Mas por um certo momento, Pedro pensou estar sendo observado por alguém. Percebendo que já se passavam das quatro da manhã, o rapaz se despediu de seu amigo e entrou para a sua casa.
            Entrou sorrateiro, tal qual um ladrão assalta uma casa, caminhando para o seu quarto. No corredor, aproveitou para espiar o quarto do pai, e ficou aliviado ao ver que o homem dormia pesadamente.
            Assim que entrou em seu quarto, Pedro se deitou com a roupa que estava e começou a pensar em Júlio. Conhecera Júlio sete anos antes e sempre tivera um carinho muito grande pelo amigo. Contudo, só recentemente, há pouco mais de três semanas, é que a situação havia começado a mudar.
            O que sentia por Júlio não era, definitivamente, apenas um carinho fraternal. Era muito mais que isso. Pedro queria a felicidade de Júlio, queria ser feliz com Júlio. Ele queria ser a felicidade de Júlio.
            E ele sentia reciprocidade.
            Ali, deitado em sua cama, Pedro decidiu que conversaria com Júlio assim que o dia clareasse, e revelaria o tamanho e a intensidade do seu sentimento.
            Fechou os olhos e dormiu.
            Sonhou com Júlio, com a sua família, com os seus amigos. Sonhou com um futuro pelo qual ansiava.
            — Pedro, abra essa porta! – a voz masculina persistia, gritando ferozmente.
            — Pai, o que aconteceu? – o garoto resistiu antes de abrir a porta. — Por que está gritando desse jeito? Caramba!
            Um barulho muito alto estalou e a porta se quebrou diante de Pedro. A única coisa que conseguiu ver foi o punho cerrado de seu pai vir na direção de seu rosto.
            Caído no chão, após o soco que seu pai havia-lhe dado, o jovem se sentiu tonto, perdido, mas quando abriu a boca para contestar levou outro soco.
            — Filho de uma puta! – gritava o pai de Pedro. — Sua mãe estaria envergonhada se estivesse viva...
            — Para, pai! – Pedro soluçava, enquanto seu sangue escorria por seu rosto.
            — Não sou seu pai, sua bicha! – outro soco atingiu o nariz do garoto, quebrando-o e fazendo mais sangue jorrar. — Filho meu não vira mulherzinha!
            — Por fav... – antes que pudesse concluir, Pedro levou um muro no estômago, que o fez vomitar um líquido verde, misturado com sangue.
            — Cala a sua boca, seu infeliz! – o homem tateou à sua volta, pegando a luminária do criado e acertando-a no queixo do garoto.
            Pedro estava exaurido.
            Com a visão embaçada, o garoto viu sangue por todo o canto. Seu sangue.
            O garoto viu um relance de seu futuro. Ao menos, o futuro pelo qual ansiava.
            Viu Júlio. Viu a sua família. Viu os seus amigos. Viu todos juntos. Viu alegria, esperança.
            Depois, Pedro só viu a escuridão.

domingo, 30 de março de 2014

O Outro Lado


Caí na cela de joelho,
Caí na cela de joelho,
Lágrimas rolam dos meus olhos
E bate “” desespero!

E a saudade vem,
Muitos vêm criticar.
A minha vida é sofrida
E é só Deus quem vai mudar.

Ainda tenho fé
Que vou ser vencedor.
Só peço para Deus
Aliviar a minha dor

Caí na cela de joelho,
Caí na cela de joelho,
Lágrimas rolam dos meus olhos
E bate “” desespero!

Lembro do meu passado,
Também da minha família,
Minha coroa que “fecha
Comigo no dia-a-dia.

Mãe, te peço perdão
Por tudo o que te fiz.
Quando eu sair, vou mudar,
Prometo te fazer feliz!

Caí na cela de joelho,
Caí na cela de joelho,
Lágrimas rolam dos meus olhos

E bate “” desespero!


O Brasil é o quarto país do mundo com a maior população carcerária. São mais de 550.000 pessoas privadas do convívio social. Tantas, injustamente.

Na verdade, se pararmos para pensar nas condições "oferecidas" a essa população, veremos que nada mais estão jogados dentro de grandes depósitos imundos. Há falta de espaço. Há podridão entre o alimento - sujeira, fezes e urina de pequenos animais. Há falta de higiene. Há falta de saúde - tantos morrendo por infecções e falta de atendimento médico adequado. Há violência - física, sexual, mental. Há insegurança. Há morte. Há exclusão.

Somos uma sociedade que acreditamos que quanto maior o número de encarcerados, maior será a nossa segurança. Esquecemos que há pessoas lá dentro, independentemente de seus atos. Esquecemos que podemos oferecer segundas chances. Esquecemos que possa existir reintegração, recuperação em muitos casos. Simplesmente achamos por melhor enclausurar.

Lutamos até para reduzirem a maioridade penal. Alguém já parou pra tentar conhecer o que há no outro lado? Alguém já parou pra descobrir o que há além do que se mostra na mídia?

A letra postada foi escrita por dois adolescentes internos da Fundação CASA. Nos centros de internação da Fundação CASA - a antiga FEBEM, aquela em que os "menores infratores" arquitetavam rebeliões e fugas, causando muita morte -, agora remodelada, são oferecidos cursos das mais diversas áreas do conhecimento aos adolescentes. Isso permite que eles possam ter uma visão além daquela conhecida por eles desde o seu nascimento. Isso permite que eles acreditem na chance de mudança, de recuperação.

Já fui adepto da visão de que os infratores da Lei devem, sim, ser punidos e pagar por o que fizeram. Após conhecer e conversar com os adolescentes internos da Fundação CASA, saber a sua realidade de vida, mudei muito a minha concepção. Ainda acho, sim, que qualquer um deva ser punido por transgredir certos limites - agindo com violência, causando morte e grandes prejuízos públicos. Mas percebi que cada um tem a sua realidade, tem a sua bagagem e tem o seu modelo do que é certo e do que é errado.
Eu sempre tive os meus pais me mostrando que, para eu crescer e ter minhas conquistas, eu teria que estudar bastante, trabalhar, sem tirar o que é do outro, conseguir minhas coisas por mérito próprio. Mas, e se fosse diferente?

E se eu vivesse em um lugar onde meus pais me dissessem que, para eu conseguir minhas coisas, conquistas o meu lugar na sociedade, eu teria que roubar dos outros, revender e, se fosse necessário, até matar para sair ileso? Eu me encontraria na realidade de muitos desses jovens. E muitos dos adultos que já morreram ou ainda estão no sistema carcerário desse país "organizado" já foram jovens com essa realidade.

Comecemos, então, a ver o outro lado.
Tentemos, ao menos, ver o outro lado.




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Onde reina a esperança.




Ele acordou. O relógio marcava 6:45, estava muito cedo. Virou-se para o lado, e percebeu algo inusitado. A parede do seu quarto estava destruída, com um grande buraco em seu centro. O mais estranho não era isso, mas o que se enxergava do outro lado não era a sua vizinhança.
O menino levantou-se de súbito, assustado. Havia um vasto campo florido no outro lado da parede, uma terra desconhecida. Um grande lago, de uma água acobreada. Definitivamente, ali não era o seu lar.
Tenso, o garoto trocou de roupa e colocou a cabeça para fora do buraco, esperando tê-la arrancada por algo. Por sorte, nada aconteceu. Sua casa já não existia, era somente aquele cômodo, o seu quarto, no meio daquela terra desconhecida. Rodeou o cômodo, e nada encontrou, nenhum vestígio de sua casa, de seus pais.
O medo começou a tomar conta, e então o menino decidiu explorar o lugar, procurar por ajuda. Duas horas de caminhada renderam-lhe apenas desgaste, sede e fome. Lembrou-se de que havia guardado uma maçã em seu criado, e voltou para buscar.
Mas, para a sua surpresa, o seu quarto desaparecera. Ele tinha a certeza de que não havia voltado pelo caminho errado, e nem teria como errar... Mas não encontrou nada. O desespero só aumentou. O menino sentou-se no chão e desabou em prantos. Estava perdido, sozinho, com fome e com sede. E não podia satisfazer nenhuma de suas necessidades.
Ele, então, enxugou os olhos com a camiseta listrada e pôs-se de pé. Pensou em tudo aquilo que lhe dava forças, que o deixava feliz. Pensou em seus pais, pensou em sua casa, pensou em seus amigos, pensou em comida, pensou em brincar. Mas a única coisa que acabou dando certo foi pensar em sonhar. O garoto percebeu que poderia estar sonhando, que tudo aquilo estivesse acontecendo em seu inconsciente, e então fez o que há de melhor a se fazer em um sonho. Desejou água potável. E uma garrafa de água começou a brotar, inesperadamente, da terra. Desejou comida. E árvores passaram a crescer, rapidamente, ao seu redor, dando frutos diversos, alguns desconhecidos. Desejou um abrigo. E, assim, uma cabana se montou sozinha, ao seu lado.
O garoto ficou maravilhado com aquilo. Poderia fazer surgir tudo o que desejasse? Desejou, então, que os pais estivessem ali. Estranhamente, duas criaturas se ergueram da terra, limpando os resquícios de sujeira e ficando de pé, ao lado do menino, sorrindo. Eram seus pais. O menino correu e abraçou-os.
Pronto. Tinha tudo o que queria. Água, comida, um novo lar e seus pais. Mas seriam os três, unicamente, naquele lugar? O menino passou a desejar outras coisas. Amigos, pessoas sábias, pessoas boas. Animais. Desejou, também, alegria, humildade.
E aquele mundo foi se transformando. Em poucos minutos estava totalmente habitado, por seres humanos, animais e plantas. Mas não era um mundo como o qual o garoto estava acostumado. Era diferente.
Havia, no ar, algo que ele jamais conseguira sentir em seu "mundo real". Havia esperança.

sábado, 12 de outubro de 2013

Somos aqueles que podem trazer amor ao mundo!


Ação de criar, produzir, erguer. Criação. Indivíduo da espécie humana na infância.
Indivíduo da espécie humana na infância com a exorbitante e incrível capacidade de criar um mundo onde o amor é a linguagem universal.

Uma criança carrega consigo a pureza. Não tem medo, não tem preconceito, não tem ódio, não faz distinção. Mantém tudo isso, até que vem o adulto e insere todas as outras coisas que destroem esta pureza - com a justificativa de que a vida pede sabedoria. Tolos aqueles que pensam que sabedoria está em ser mais que o outro. Uma criança sabe, mais que qualquer um, que sabedoria é saber erguer um mundo inteiro, com seus habitantes, com suas histórias, entrelaçados em um bom enredo.

Vamos olhar mais aos nossos pequenos. Vamos ajudá-los a construir e erguer o mundo que eles idealizam.
Vamos ressuscitar a criança que fomos um dia. Vamos nos juntar e resgatar essa pureza.

Um feliz dia da criança!

domingo, 25 de agosto de 2013

Então deixe brilhar!



Dias claros. Noites densas. Ele preferia os dias, porque as noites lhe davam incerteza sobre o dia seguinte. Aquela silente escuridão lhe causava agonia. Já os dias luzentes lhe proporcionavam esperança, uma vontade de seguir.

Mas de que adiantam dias sem noites? As noites ensinam tanto quanto os dias. A tormenta o preparava para possíveis tormentas que ainda viriam. Era necessário que ele trilhasse por aquele caminho, aquilo o engrandeceria.

E naquele dia ele acordara diferentemente dos dias anteriores. Enxergou o brilho do sol, deveras.
Sentiu a vontade de experimentar o que a vida tinha para ofertar. Sentiu a necessidade disto.
Não é possível ver histórias novas sem antes virar a página do livro. E ele, então, virou.
E viu um mundo de novas possibilidades.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A sombra do futuro, a sobra do passado, assombram a paisagem.


Dor. Angústia. Arrependimento. Incerteza. Tudo começara com uma discussão, que foi elevada a grandes proporções, resultando em surpresas. Machucados. Ambos, ao fim, estavam machucados. Um mais que o outro, talvez. Mas estavam.
A partir de então, uma incerteza avassaladora assombrou o espaço. Decepção, amor... Uma mistura de sentimentos, que mal podia ser controlada. Confusão. Nada se encaixava, muito pelo contrário, tudo estava desordenado, em um frenesi.
O mundo pareceu escurecer. As paredes pareciam se comprimir a cada dia. Era só fechar os olhos, e as coisas ruins apareciam - pesadelos. A angústia crescia dia-a-dia. Ser? Não ser? Gostar? Não gostar? Não havia perdão que acalmasse aquela indagação. Auto-indagação.
Aquela viagem para o interior da alma já durava há semanas. Mas nenhum destino fora alcançado. Nenhum resultado, nenhuma visão, nenhuma conclusão. O que podia, tudo aquilo, significar? Desistência? Desinteresse? Descrença?
Não sabia. Não tinha ideia. E aquilo alimentava sua inquietação, sua angústia. O pranto já durava dias. Estava consternado. Os pesadelos pioravam - já nem queria mais adormecer.
E o que lhe havia sido pedido, fora apenas tempo. Mas o tempo, ali, era o seu inimigo. Seu arqui-inimigo.
Teria de aguentar a eternidade, até que lhe viesse uma resposta, uma decisão. Enquanto isso, só lhe restava ser forte.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Conto - Absorvida


Abriu os olhos. Estava escuro, mas era possível enxergar o LED vermelho do rádio-relógio marcando seis horas. Seis horas da manhã. Quis levantar-se, mas algo fazia sua cabeça pesar. Tentou mover as mãos. Nada. Tentou mover as pernas. Muito menos. Quis gritar. Nem um sou foi emitido. E, então, as lágrimas rolaram.
Inexplicavelmente, seu corpo estava imóvel, não conseguia mover um músculo, nem mesmo piscar os olhos. Os olhos ardiam, mas não conseguia fechar as pálpebras. A mulher não tinha controle algum sobre seu corpo. Quanto mais tentava se mover, mais lágrimas escorriam por seu rosto, o que por sorte deixava os olhos lubrificados.
Olhava para o rádio-relógio na parede, ansiosa, mas os minutos pareciam não passar. Chorou novamente. Por alguns instantes tudo escurecera novamente. Ela havia desmaiado. Sentiu uma dor, uma queimação, em seus olhos com um clarão que surgiu repentinamente. A luz do cômodo fora acesa, mas a jovem não conseguia proteger a visão. Uma mulher, mais velha, se aproximou, com uma feição assustada. Era a sua mãe. Tentou pedir ajuda, mas ainda estava inerte. Sua mãe lhe chamava pelo nome, mexia em seu corpo, mas provavelmente não percebera reação alguma.
A mãe da moça saiu do cômodo, então, por alguns minutos e retornou com um jovem homem. Ela tentou berrar ao ver quem era, o seu esposo. Mas foi outra tentativa inútil. O jovem, ao ver a situação, deitou-se sobre seu corpo e começou a se lastimar. Aquilo a deixou ainda mais tensa. Suas lágrimas já não escorriam mais, haviam secado. Sua mãe e seu esposo a tinham como morta, muito provavelmente, pensava. A sensação de invalidez imperava junto ao desespero.
Seu esposo saiu do quarto, e sua mãe começou a mexer no guarda-roupa. Em seguida, retirou toda a sua roupa. Por que aquilo? Então percebeu que a mãe segurava acessórios de banho, como bacias, buchas, sabonete e toalhas. Sentiu a água morna escorrer por seu corpo, ali na cama, encharcando tudo. Quando o banho foi terminado, foi pega no colo por sua própria mãe, uma mulher robusta, que a colocou no canto seco da cama. Começou a secá-la com uma toalha muito macia. Queria gritar para a mãe, pedir ajuda, mas não conseguia. Alguns minutos depois viu o seu esposo se aproximar com um homem e uma mulher vestidos de branco.
O homem de branco, por sua vez, segurou-lhe o pulso por trinta segundos, e então o largou, lamentando-se. Após isso, a moça de branco pediu aos homens que se retirassem, e junto à mãe abaixavam-lhe as calças. Sentiu que estavam inserindo alguma coisa em suas partes íntimas. Desesperada, não sabia mais o que fazer... Percebeu que estavam preparando-a para seu próprio funeral. Estava viva, porém imóvel, dando a entender que estava realmente morta. Para o seu azar, naquela cidade de interior onde sua mãe vivia, os médicos pouco se preocupavam em tentar diagnosticar doenças ou causas das mortes. Aquela viagem, que era para ser perfeita - já que não via sua mãe há anos - estava se tornando em seu pior pesadelo.
Quando foi novamente revirada, a enfermeira enfiou pedaços de algodão em sua boca, e depois em seu nariz, e orelha. Sentiu-se sufocada. O medo cresceu quando viu que a enfermeira, junto à mãe, vinha lhe fechar os olhos. Ali, percebeu que era o fim. Estava morta para todos, e mal conseguia protestar. Morreria por acharem que já estava morta há muito tempo. Ironia. Sentiu as mãos de sua mãe e da enfermeira e enrolarem numa espécie de cobertor. Então lembrou-se de que o costume, no interior do nordeste, era enterrar os mortos não em caixões, mas em redes de descanso. Sentiu ser transportada para outro lugar, mas desmaiou novamente.
Após algumas horas, acordou. E conseguiu abrir os olhos, finalmente. Mas já era tarde. Ela sentia seu corpo ser esmagado, provavelmente já estava debaixo da terra. Tentou mexer os braços, mas o peso era muito. Arranjou forças de onde não tinha e conseguiu se desembrulhar daquele pano, agora não era mais prisioneira do próprio corpo, mas da terra. Puxava, desesperadamente, a terra para baixo, tentando subir naquela escuridão. Lembrou-se dos pedaços de algodão, e os removeu de suas narinas e de sua boca com selvageria, arranhando o próprio rosto. Tentou puxar a terra. Mas a terra entrava por sua boca e seu nariz, sufocando-a cada vez mais. Aos poucos, perdia a sua força. Percebeu que não conseguiria sair dali, e chorou. A última coisa que sentiu, antes de sucumbir à morte, foi o ar gélido passando pelas pontas de seus dedos, que alcançaram a superfície.

sábado, 4 de maio de 2013

Sou errado. Sou errante.



Mente esgotada. Corpo exausto. Espírito abalado. Suas forças estavam exauridas. Não entendia o pretexto para frequentes discussões, sempre ocasionadas por motivos tão levianos. Suas lágrimas tentavam escorrer, mas seu orgulho, seu medo, as impediam.
Seu coração, apertado, doía. Sua alma ansiava por mudanças. Raiva, indignação, desespero... No meio daquele turbilhão de sentimentos ele mal conseguia distinguir cada um. O mais nítido, aparentemente, era a decepção. Estava profundamente decepcionado consigo e com o mundo. Na mesma proporção em que a vida lhe trouxera bons frutos, estava também lhe mostrando os seus vermes.
Apesar das pessoas à sua volta, estava mergulhado no mais profundo abismo, sozinho e apavorado. Sentia a incerteza tomar conta de si enquanto a dor somente evoluía. Quis gritar, mas algo aprisionava a sua voz. E o choro não veio, ainda não. Olhava ao redor, enxergava a grama, mas não via a esperança. Estava com medo de todos aqueles sentimentos, era como se tudo que conseguira alcançar escoasse por entre seus dedos.
Talvez a solução estivesse nisso. Nunca pensara, verdadeiramente, que um dos motivos de sua existência não era 'ter', e sim completar as pessoas. Sua cabeça doía, parecia que estava a ser comprimida. O medo ainda lhe assombrava. Em sussurros, desejava a mudança, mas não entendia como poderia mudar ainda mais. Se deu conta de que, em toda a sua vida, mudou para os outros deixando de lado a sua própria essência - perdendo-na. Mais uma vez, o medo regressou.
Por um breve segundo pensou em desistir de tudo. Mas, por fim, conseguiu se recordar de seu maior valor: o amor - amava as pessoas de modo ímpar. Afastou, então, aquele pensamento. Sua existência se baseava no propósito de amar as pessoas - mesmo aquelas com seus crimes ou segredos obscuros - e mostrar o quanto elas são importantes umas para as outras. Não mudaria, não novamente. Mas tentaria se adaptar às dificuldades da vida e mostrar a sua verdadeira alma. Iria mostrar quão humano era, e digno de cometer erros, seja os quais fossem, tal como qualquer outro humano. Mostraria que um erro não é maior, ou menor, que o erro do outro, mas que todos são erros - seja por quem for cometido.
Respirou. Refletiu. E agradeceu ao Universo por existir, por ser humano!

Conto - Alvura renunciada



Solitário, o pequeno menino brincava na soleira da porta de sua casa. Na verdade, estava acompanhado por uma boneca, de olhos profundos, um ventríloquo. A feição do ventríloquo era melancólica, sofrida. Já o menino tinha uma aparência amarga, carregava um semblante sério, pesado, mesmo durante a brincadeira.
A casa era afastada de todas as outras da rua. Ninguém sabia, mas o menino vivia sozinho, não tinha irmãos, pais, tampouco amigos. Assim, exteriorizava toda a solidão de sua alma naquele lúgubre olhar. Sua única companhia, sua única amiga verdadeira, que jamais o abandonara, era aquela boneca.
E os vidros da porta refletiam um segredo obscuro. O interior da casa encobria uma desgraça. Aquele solitário menino era prisioneiro de sua própria perversidade. O abandono lhe tornara um facínora, angustiador, uma criança tenebrosa.
Mas não havia salvação, segundo seus demônios interiores. E apenas aquela boneca conseguia compreender a sua alma, seus anseios, ninguém mais. Nenhuma daquelas crianças que foram até ele puderam entendê-lo e, portanto, ele as resgatou.