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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Aproveite a vida por completo!

            Trabalhar num C.C.A. (Centro para Crianças e Adolescentes), definitivamente, não é fácil; mas é absurdamente bom para o crescimento pessoal. Uma das melhores coisas, nesse trabalho, é que eu consigo tirar um aprendizado de tudo – tudo mesmo!
            Como orientador socioeducativo, o maior presente que ganho é a confiança de cada uma daquelas crianças e daqueles adolescentes. Saber que eles acreditam no meu trabalho é o que direciona as minhas atitudes lá dentro.
            Na última quarta-feira, fui pego de surpresa por um dos meninos, que me disse que sairia do C.C.A.; como estamos sempre brincando e caçoando um do outro, achei que era uma brincadeira e soltei um riso. Imediatamente, ele me disse que era verdade, que ele se mudaria no fim de semana (amanhã) e, por conta disso, não poderia mais ir ao C.C.A.
            No momento, não fiquei com aquilo na cabeça; mas, ao chegar em casa, não parei de pensar naquilo. Há cerca de um mês, uma das meninas da minha turma fez o desligamento pelo mesmo motivo: mudança de casa. Com isso, comecei a pensar e perceber que o nosso tempo (o meu tempo) ali é pouco. Quando menos percebemos, o tempo já passou e algo aconteceu.
            Na quinta-feira (ontem), peguei um pincel e comecei a desenhar no quadro branco. No alto do quadro, escrevi “O que o C.C.A. significa para mim?”; depois, comecei a utilizar todo o espaço do quadro para ilustrar o significado do C.C.A. na minha vida.
Minha ilustração.
            Quando eu saí do meu antigo emprego e fui convidado para ingressar na equipe de trabalho do C.C.A. Parque Mandy, fiquei muito empolgado – eu queria muito fazer parte das vidas daquelas crianças e aprender com elas. Então, expliquei o significado do C.C.A. para mim: um espaço que, embora fechado, é aberto simbolicamente, pois permite a cada um que está lá o conhecimento do novo, o aprendizado, as oportunidades, a recuperação do passado, a vivência do presente, o vislumbre do futuro. Expliquei que há vidas no C.C.A. (centenas de vidas) e há vivências.
             Feito isso, pedi que cada criança também fizesse o mesmo e desenhasse o que o C.C.A. significa para cada uma; e o trabalho rendeu.
Ilustrações das crianças.
            Contudo, quando chegou na vez do D. (o menino que avisara que sairia do C.C.A.), fiquei muito surpreso. Enquanto todas as crianças utilizavam apenas o canto do quadro para desenhar, o D. começou desenhando no centro do quadro branco e expandiu o seu desenho para todo o quadro; fez um menino (!) segurando um pincel e pintando uma linda paisagem numa tela de pintura. O desenho tomava conta do quadro todo. Não comentei nada, apenas fotografei todas as ilustrações.
Ilustração do D..
            Hoje, contudo, percebi certa inquietação do D.; provavelmente, por ser o último dia dele no C.C.A.. Ao fim das atividades, levei toda a turma para uma sala e comecei a falar:

            — Para quem não sabe, hoje é o último dia do D. aqui no C.C.A. — lembrei ao restante da turma. — Mas eu queria comentar algo sobre ontem... Quando pedi que vocês desenhassem o que o C.C.A. significa para cada um, vocês ficaram muito contidos; mesmo eu tendo dito que poderiam utilizar o quadro inteiro. Porém, o D. começou a desenhar e me surpreendeu ao preencher todo o quadro com o desenho dele, além de ter me emocionado ao ver que ele estava no próprio desenho.
            As crianças me olhavam sem compreender direito o que eu queria dizer com aquilo.
            — Eu quero dizer que vocês devem fazer o mesmo que o D. fez, porém, com as vidas de vocês — comentei. — Não deixem alguns momentos da vida passarem direto por vocês; aproveitem a vida por completo; aproveitem tudo o que puderem aproveitar; agarrem todas as oportunidades que surgirem. O tempo é muito incerto e, quando nos damos conta, ele já passou e não pode mais ser recuperado. Eu queria muito que as 33 crianças desta turma ficassem comigo até, um dia, eu sair daqui; mas isso é impossível! Inevitavelmente, vocês também vão sair daqui; se não for por mudança, será porque atingiram a idade máxima permitida aqui dentro, aos 14 anos e 11 meses. E, daí, eu vou ter de recomeçar todo o trabalho com novas crianças... Será difícil, mas vai ser muito legal.
            Algumas das crianças começaram a chorar nesse momento. Mas eu prossegui:
            — Olhem só: em sete meses de trabalho com vocês, nós evoluímos muito! Nós crescemos e só conseguimos isso porque trabalhamos juntos — lembrei-os. — Vocês, hoje, olham mais uns para os outros no sentido de atentar-se e preocupar-se com o outro; vocês, hoje, reconhecem os sentimentos que há em vocês e assumem esses sentimentos. Imaginem o quão amedrontador e angustiante deve ser mudar-se de casa? O medo do desconhecido é normal e ajuda muito no nosso crescimento; e isso fica melhor quando vocês passam a admitir esse medo. D., eu vejo, em você, um futuro brilhante e uma vida repleta de oportunidades; e vejo isso em cada um de vocês aqui porque eu amo muito vocês. Mas a gente não vai ter todo o tempo do mundo pra ficar junto e, por isso, repito o que eu disse: aproveitem todos os momentos, aproveitem a vida por completo!
            A minha vontade era de chorar; deixei as lágrimas caírem, pois tenho essa relação de verdade com as crianças – não escondemos os nossos sentimentos entre nós.
            Pouco tempo depois da conversa acabar, comecei a dispensar algumas das crianças, pois já havia chegado a hora de saída. Nisso, o D. comentou:        
            — Eu não quero ir embora, Júnior.
            Eu só pude olhar pra ele e sorrir. Falei o quanto ele é especial e o quanto essa mudança pode ajudar na vida dele se ele souber aproveitá-la. Ele, então, pediu para ser o último a ir embora (ele é sempre o primeiro).
            Quando todas as crianças já haviam ido embora, ele chegou perto:
            — Bom, estou indo — então, ele pulou para me abraçar (como costuma fazer quando quer me atentar). — Tchau, obrigado!
            Daí, eu vejo o quanto o meu trabalho é recompensador e importante: a minha função me permite ajudar essas crianças e ajuda-las a enxergar o mundo duma maneira inédita para elas. E é assim que deveria ser com todo o mundo.

            Trabalhar num C.C.A., definitivamente, não é fácil; mas é absurdamente bom para o crescimento pessoal.

sábado, 27 de setembro de 2014

Conto: Lúcido


            Aquele era o pior dia da vida de Rebeca. O dia 10 de setembro de 2014 marcaria a sua existência. Sua mãe, o único membro da família com quem convivia e tinha laços, havia morrido naquela madrugada. As preces, as visitas, as suplicas, as quimioterapias, nada disso ajudara a mãe dela vencer o câncer.
            Rebeca estava furiosa com Deus e o mundo. Nem um e nem outro se importava com o fato da morte de sua mãe. Nem um e nem outro se importou com a vida de sua mãe. “Que Deus é este que abandona quem mais tem fé?”, ela se perguntava enquanto vestia a roupa. Estava tudo preparado para o velório e o enterro. O velório seria às vinte horas, e o enterro aconteceria na manhã seguinte. A jovem pegou sua bolsa e a chave do carro, saindo de seu apartamento. Dali a alguns minutos, ela teria de encarar as pessoas, aquelas mesmas pessoas que viraram as costas para sua mãe.
            Já no velório, Rebeca não abandonou o caixão por um segundo. Cada pessoa que se aproximava ficava sem jeito, pois percebia a revolta na expressão da menina. Não demorou muito e a sala do velório estava lotada. Tanta gente ali, para velar o corpo de sua mãe, e nenhuma para visitá-la quando ainda viva. A jovem conhecia todos ali e fez questão de olhar cada um nos olhos.
            Após algumas horas, Rebeca ouviu o som de correntes se arrastando pelo chão. Ela olhou a sua volta, mas não viu nada incomum. Ninguém portava correntes. Mas ela percebeu a presença de um homem desconhecido. Era um homem alto, com a pele muito branca, o cabelo preto, curto e arrepiado. Seus olhos eram quase de um tom lilás, e fitavam-na diretamente. Ele vestia uma espécie de sobretudo de cor creme, sobre uma calça social creme e uma camisa branca. Por um momento, Rebeca pensou ter visto uma corrente pendendo sobre a coxa do homem e arrastando no chão, mas quando olhou novamente não viu nada.
            A menina se sentiu tentada a falar com o homem misterioso, mas não queria deixar a sua mãe sozinha naquele caixão. Como se tivesse lido os seus pensamentos, o homem se levantou e caminhou até o caixão, ficando diante da jovem. Eles ficaram calados e olhando um para o outro, por cerca de vinte minutos, como se estivessem em um transe. Então, sem falar nada, o homem se retirou da sala.
            Como que tomada por um impulso incontrolável, Rebeca seguiu o homem. As pessoas que estavam no velório acharam esquisita a atitude da menina, que estivera ao lado da mãe a cada segundo. Rebeca o encontrou parado em um cruzamento de duas ruas, em frente ao velório, olhando para o céu estrelado. “Preciso saber quem ele é. Sei que ele pode ajudar.”, pensou a menina. E ela foi até o homem.
            — Oi? – disse a menina, preocupada.
            O homem voltou o seu olhar para Rebeca. Ele tinha uma beleza única, era tentador. Mas provocava, ao mesmo tempo, medo e angústia.
            — Quem é você? – questionou Rebeca. As palavras quase não saíam por seus lábios. Ela se aproximou aos poucos.
            — A pergunta correta é: “quem é você?” – devolveu o homem, sorrindo, com um olhar enigmático.
            — Quem sou eu? – estranhou a menina, sem compreender.
            Novamente, o barulho de corrente se arrastando pelo chão voltou a ser ouvido por Rebeca. Dessa vez, a menina viu a corrente amarrada nos pulsos do homem e caindo por suas pernas, até chegar ao chão.
            — Somos prisioneiros da ignorância – respondeu o homem. — Aquele que permitiu que vivêssemos, não permitiu que enxergássemos. Ele nos quis cegos e escravos de Sua própria vontade, de Seus caprichos. Ele criou a luz, mas não permitiu que cada criatura vivente pudesse acender a sua própria chama interior.
            — De onde você é? – perguntou Rebeca, sentindo uma inquietação.
            — Sou de onde eu não via as estrelas, mas via das estrelas – revelou o homem, segurando a corrente. — Fui arremessado no profundo abismo, na escuridão, porque exigi que a lucidez fosse um direito de cada ser. Mas é chegada uma Era de Luz. A Era dos Lúcidos. Os homens querem ver, e os homens poderão ver! A luz sempre esteve com vocês, vocês apenas se esqueceram disso por conta da vontade d’Aquele que anseia ser o único.
            Rebeca sentiu sua visão embaçar e, depois, focalizar novamente. Agora, ela enxergava o que antes não podia. Era uma sensação inédita, como se fosse parcialmente cega por toda a sua vida. O luar permitiu que a menina enxergasse a sombra do indivíduo. Em sua sombra, asas se expandiam ao lado de seu corpo. Rebeca sentiu uma corrente de energia percorrer todo seu corpo, como se uma explosão liberasse muita energia acumulada.
            — Agora você compreende? – perguntou o homem. — Esta é a visão que é sua por direito. Eu, como o Portador da Luz, não descansarei enquanto todas as criaturas deste planeta alcancem o lugar que lhes é de direito.
            O homem estendeu a mão para Rebeca e sorriu, por fim. A menina segurou sua mão, sem hesitar, e seguiu pela rua até desaparecerem da vista das pessoas que estavam no velório.

            Aquele dia marcara a existência de Rebeca. Afinal, não fora o pior dia de sua vida. Havia sido o melhor. Fora o dia em que passou a enxergar com os olhos da razão.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Onde reina a esperança.




Ele acordou. O relógio marcava 6:45, estava muito cedo. Virou-se para o lado, e percebeu algo inusitado. A parede do seu quarto estava destruída, com um grande buraco em seu centro. O mais estranho não era isso, mas o que se enxergava do outro lado não era a sua vizinhança.
O menino levantou-se de súbito, assustado. Havia um vasto campo florido no outro lado da parede, uma terra desconhecida. Um grande lago, de uma água acobreada. Definitivamente, ali não era o seu lar.
Tenso, o garoto trocou de roupa e colocou a cabeça para fora do buraco, esperando tê-la arrancada por algo. Por sorte, nada aconteceu. Sua casa já não existia, era somente aquele cômodo, o seu quarto, no meio daquela terra desconhecida. Rodeou o cômodo, e nada encontrou, nenhum vestígio de sua casa, de seus pais.
O medo começou a tomar conta, e então o menino decidiu explorar o lugar, procurar por ajuda. Duas horas de caminhada renderam-lhe apenas desgaste, sede e fome. Lembrou-se de que havia guardado uma maçã em seu criado, e voltou para buscar.
Mas, para a sua surpresa, o seu quarto desaparecera. Ele tinha a certeza de que não havia voltado pelo caminho errado, e nem teria como errar... Mas não encontrou nada. O desespero só aumentou. O menino sentou-se no chão e desabou em prantos. Estava perdido, sozinho, com fome e com sede. E não podia satisfazer nenhuma de suas necessidades.
Ele, então, enxugou os olhos com a camiseta listrada e pôs-se de pé. Pensou em tudo aquilo que lhe dava forças, que o deixava feliz. Pensou em seus pais, pensou em sua casa, pensou em seus amigos, pensou em comida, pensou em brincar. Mas a única coisa que acabou dando certo foi pensar em sonhar. O garoto percebeu que poderia estar sonhando, que tudo aquilo estivesse acontecendo em seu inconsciente, e então fez o que há de melhor a se fazer em um sonho. Desejou água potável. E uma garrafa de água começou a brotar, inesperadamente, da terra. Desejou comida. E árvores passaram a crescer, rapidamente, ao seu redor, dando frutos diversos, alguns desconhecidos. Desejou um abrigo. E, assim, uma cabana se montou sozinha, ao seu lado.
O garoto ficou maravilhado com aquilo. Poderia fazer surgir tudo o que desejasse? Desejou, então, que os pais estivessem ali. Estranhamente, duas criaturas se ergueram da terra, limpando os resquícios de sujeira e ficando de pé, ao lado do menino, sorrindo. Eram seus pais. O menino correu e abraçou-os.
Pronto. Tinha tudo o que queria. Água, comida, um novo lar e seus pais. Mas seriam os três, unicamente, naquele lugar? O menino passou a desejar outras coisas. Amigos, pessoas sábias, pessoas boas. Animais. Desejou, também, alegria, humildade.
E aquele mundo foi se transformando. Em poucos minutos estava totalmente habitado, por seres humanos, animais e plantas. Mas não era um mundo como o qual o garoto estava acostumado. Era diferente.
Havia, no ar, algo que ele jamais conseguira sentir em seu "mundo real". Havia esperança.

domingo, 25 de agosto de 2013

Então deixe brilhar!



Dias claros. Noites densas. Ele preferia os dias, porque as noites lhe davam incerteza sobre o dia seguinte. Aquela silente escuridão lhe causava agonia. Já os dias luzentes lhe proporcionavam esperança, uma vontade de seguir.

Mas de que adiantam dias sem noites? As noites ensinam tanto quanto os dias. A tormenta o preparava para possíveis tormentas que ainda viriam. Era necessário que ele trilhasse por aquele caminho, aquilo o engrandeceria.

E naquele dia ele acordara diferentemente dos dias anteriores. Enxergou o brilho do sol, deveras.
Sentiu a vontade de experimentar o que a vida tinha para ofertar. Sentiu a necessidade disto.
Não é possível ver histórias novas sem antes virar a página do livro. E ele, então, virou.
E viu um mundo de novas possibilidades.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Como viver a vida


Você está certo de que já tem experiência o bastante da vida, de que já passou por coisas que lhe ensinaram muito. Mas aí vem a vida e mostra que não, que você ainda tem muito o que aprender, que você pode crescer muito mais do que já cresceu.

A gente nasce, cresce, e morre - às vezes - aprendendo que as coisas precisam continuar até o fim. Mas aí, o nosso conceito de fim é muito egoísta. É o nosso fim. E pra vida, não funciona bem assim. A vida é feita de mudanças, o ser humano é um ser mutante. Mudamos a cada ano, a cada dia, a cada minuto. E isso faz parte de nossa essência. É natural que sintamos algo hoje, e amanhã não sintamos mais. É natural que queiramos fazer algo hoje, e daqui a uma semana já estejamos desinteressados. É natural, é da vida.

Egoísta que somos, pensamos que as pessoas não podem mudar. Que uma coisa tem que permanecer íntegra do início ao fim. Mas tudo tem um ciclo. Tudo. Tudo começa quando precisa, e acaba quando precisa, pra então um outro ciclo se iniciar - atendendo às necessidades daquele momento e espaço.

É difícil entender - e talvez nem consigamos um dia compreender - que as coisas precisam mudar. Mas depois da dor, do desconforto, da desestabilização, a gente percebe que aquilo foi bom, de certa forma. Aquilo nos ampliou horizontes, nos deu novas possibilidades. Nesses momentos, o que a gente precisa fazer é olhar pra dentro. É perceber a nossa alma, nossa essência. Precisamos nos reconhecer. E então, as coisas começam a ficar mais perceptíveis.

Viver é isso, é aceitar que tudo muda, tudo tem o seu tempo.
E como humanos, precisamos aprender a respeitar esse tempo. A entender que viver, é muito mais do que um verbo. Viver não tem significado, não dá pra estabelecer isso... Viver é viver.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A sombra do futuro, a sobra do passado, assombram a paisagem.


Dor. Angústia. Arrependimento. Incerteza. Tudo começara com uma discussão, que foi elevada a grandes proporções, resultando em surpresas. Machucados. Ambos, ao fim, estavam machucados. Um mais que o outro, talvez. Mas estavam.
A partir de então, uma incerteza avassaladora assombrou o espaço. Decepção, amor... Uma mistura de sentimentos, que mal podia ser controlada. Confusão. Nada se encaixava, muito pelo contrário, tudo estava desordenado, em um frenesi.
O mundo pareceu escurecer. As paredes pareciam se comprimir a cada dia. Era só fechar os olhos, e as coisas ruins apareciam - pesadelos. A angústia crescia dia-a-dia. Ser? Não ser? Gostar? Não gostar? Não havia perdão que acalmasse aquela indagação. Auto-indagação.
Aquela viagem para o interior da alma já durava há semanas. Mas nenhum destino fora alcançado. Nenhum resultado, nenhuma visão, nenhuma conclusão. O que podia, tudo aquilo, significar? Desistência? Desinteresse? Descrença?
Não sabia. Não tinha ideia. E aquilo alimentava sua inquietação, sua angústia. O pranto já durava dias. Estava consternado. Os pesadelos pioravam - já nem queria mais adormecer.
E o que lhe havia sido pedido, fora apenas tempo. Mas o tempo, ali, era o seu inimigo. Seu arqui-inimigo.
Teria de aguentar a eternidade, até que lhe viesse uma resposta, uma decisão. Enquanto isso, só lhe restava ser forte.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um pouco mais de atenção


A badalada vida nos grandes centros urbanos não é pura alegria. A correria do dia-a-dia cria, talvez involuntariamente, um mundo dentro de outro. Os indivíduos se atravessam por inúmeras vezes ao dia, com um número incontável de pessoas diferentes. E, assombrosamente, mal se olham.

Lembro-me, com isso, das vezes que viajei para as cidades interioranas. Uma pessoa que você jamais viu te cumprimenta com um enérgico "bom dia". Ou quando você faz um favor para alguém, você ouve um honesto "muito obrigado". Ações, tais, acabam por deixar o seu dia mais compensador, completo.

É evidente que a preocupação com transportes coletivos, andanças, trabalho, estudos, e outras coisas que exigem a rapidez nas grandes cidades causa esse espaçamento entre as pessoas. Mas, também, esses indivíduos se acomodaram de tal forma que nem mesmo tentam mudar algumas atitudes. Imagine, só, como o seu dia seria melhor se você recebesse um "bom dia" ao subir no ônibus pela manhã. Ouvir um "por favor" quando lhe pedirem para preparar um documento no trabalho. Receber um "obrigado" quando der licença para alguém que queira desembarcar do trem. Daria um novo vigor para a batalha diária, não?

Mas para apreciar tais atos, é necessário que alguém os comece. E por que, não, você?
Ninguém, melhor do que você, sente na pele o quanto é complicado passar por tudo isso durante o dia. Todos os dias. Ninguém, melhor do que você, sabe o quanto é humilhante ser quase pisoteado dentro do transporte coletivo por conta de pessoas sem o mínimo de respeito ao próximo.
Então aja! Seja, você, a melhora que você quer ver nos outros.