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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Conto: O Rouxinol e a Rosa

Um conto de Oscar Wilde traduzido por Júnior Gonçalves


Imagem retirada do blogue "Gothic World" (http://migre.me/n6Kaw)

            — Ela me prometeu uma dança... Mas só se eu presenteá-la com uma rosa vermelha — choramingou um jovenzinho com o coração partido. — Como? Não tem nenhuma em todo o meu jardim!
            Do seu ninho, no alto de um carvalho, o Rouxinol ouviu o menino. O pássaro olhou através das folhas e ficou surpreso.
            — Nem mesmo uma rosa vermelha! — resmungou o menino com os olhos cheios de lágrimas. — É incrível como a felicidade depende das pequenas coisas. Li tudo o que os mais sábios escreveram, descobri todos os mistérios da Filosofia, mas a minha vida está arruinada... E tudo por causa de uma rosa vermelha.
            — Olha, só! Um romântico nato — disse o Rouxinol. — Dia após dia, emiti um canto sobre ele, embora eu nem tenha percebido isso. Noite após noite, contei sua história para as estrelas... E agora eu posso vê-lo aqui. O cabelo dele é escuro como as flores de jacinto. Seus lábios, vermelhos como a rosa que deseja.
            — O Príncipe dará um baile amanhã à noite — o menino soltou um breve suspiro —, e o meu amor estará lá. Se eu presenteá-la com uma rosa vermelha, ela dançará comigo até o sol raiar. Se eu presenteá-la com uma rosa vermelha, poderei tê-la em meus braços, e ela encostará sua cabeça em meu ombro, e suas mãos estarão segurando as minhas. Mas não tem nenhuma rosa vermelha no jardim e, em vez disso tudo, eu ficarei observando-a sentando, enquanto ela passar por mim. Ela nem vai dar-me atenção, e o meu coração vai ficar partido.
            — De fato, um romântico nato! — percebeu o Rouxinol. — Aquilo que eu canto é sobre o seu sofrimento: o que é dor para ele, é alegria para mim. O amor é algo maravilhoso, certamente. É mais precioso que as esmeraldas, que os diamantes... Nada pode comprá-lo. O amor nem mesmo está à venda no mercado; ele não pode ser comprado.
            — Os músicos tocarão seus instrumentos — prosseguiu o menino. — E o meu amor dançará ao som da harpa e dos violinos. Ela dançará tão suavemente que os seus pés nem tocarão o chão, e a multidão, em suas roupas alegres, aglomerará em volta dela. Mas ela não vai dançar comigo porque eu não tenho uma rosa vermelha para lhe dar.
            O coitadinho se jogou na grama, levou as duas mãos ao rosto e se afundou num choro.
            — Por que tanto choro? — perguntou um Lagarto, enquanto corria com o seu rabo balançando no ar.
            — É... Por quê? — perguntou uma Borboleta, que está voando logo atrás de um raio de sol.
            — É... Por quê? — sussurrou uma Margarida, em uma voz leve e baixa.
            — Ele está chorando por causa de uma rosa vermelha — respondeu o Rouxinol.
            — Por uma rosa vermelha? — questionaram todos, num tom mais alto. — Que ridículo! — O Lagarto, meio cínico, gargalhou.
            Mas o Rouxinol compreendia o segredo da tristeza do jovenzinho, e ele pousou em silêncio sobre o carvalho, pensando sobre quão misterioso é o amor. De repente, ele abriu suas asas marrons e pairou pelo ar. Ele sobrevoou o bosque como uma sombra, e cruzou o jardim. No centro da grama havia uma linda Roseira, e quando o Rouxinol a viu, voou e pousou em um ramo.
            — Dê-me uma rosa vermelha! — o pássaro implorou. — Se me der, cantarei a mais linda canção para você.
            Contudo, a planta chacoalhou sua cabeça.
            — Minhas rosas são brancas — disse a roseira. — Tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve que cai sobre a montanha. Vá até a minha irmã. Ela cresce próximo à fonte e, talvez, ela possa dar o que você quer.
            Assim, o Rouxinol sobrevoou pela Roseira até chegar à fonte.
            — Dê-me uma rosa vermelha! — ele implorou. — Se me der, cantarei a mais linda canção para você.
            Contudo, a planta balançou sua cabeça.
            — Minhas rosas são amarelas — respondeu. — Tão amarelas quanto o cabelo das sereias que se sentam sobre um trono de âmbar, e mais amarelas que os narcisos que floreiam na campina antes do cortador de grama chegar. Vá até minha irmã. Ela cresce debaixo da janela do menino e, talvez, ela possa dar o que você quer.
            Assim, o Rouxinol sobrevoou, mais uma vez, até a Roseira que crescia sob a janela do menino e repetiu o seu pedido por uma rosa. Mas a planta balançou sua cabeça, igualmente às outras.
            — Minhas rosas são vermelhas — respondeu. — Tão vermelhas quanto os pés das pombinhas, e mais vermelhas que os recifes de coral que as ondas banham nas cavernas marítimas. Mas o inverno resfriou minhas veias e a geada mordiscou meus botões. A tempestade quebrou os meus ramos, e não terei rosas por todo este ano.
            — Uma rosa vermelha... É tudo o que eu quero! — suplicou o Rouxinol. — Não há forma alguma de conseguir?
            — Há um modo... — respondeu a planta. — Mas é tão horrível que não me atrevo a dizer a você.
            — Diga! — pediu o Rouxinol. — Não tenho medo.
            — Se você quer uma rosa vermelha — respondeu a Roseira —, você deve criá-la a partir da música ao luar, e torná-la vermelha com o sangue do seu próprio coração. Você precisa cantar para mim com o seu peito contra um espinho. Pela noite inteira, você precisa cantar para mim, e o espinho deve furar o seu coração, e o seu sangue precisa fluir por minhas veias, até tornar-se meu.
            — A Morte é um grande preço a se pagar por uma rosa vermelha — comentou o Rouxinol —, e a Vida é muito queria por todos. É bom poder pousar no bosque verde, assistir o sol em sua carruagem de ouro, a lua em sua carruagem de prata. Ainda assim, amar é bem melhor que viver, e o que é o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?
            Então, a avezinha abriu suas asas marrons e voou. O Rouxinol sobrevoou o jardim como uma sombra e, da mesma forma, voou sobre o bosque. O jovem menino estava deitado na grama, no mesmo lugar em que o pássaro o havia deixado, e as lágrimas ainda corriam por seu rosto.
            — Sorria! — cantarolou o Rouxinol. — Você terá sua rosa vermelha. Eu vou criá-la a partir da música ao luar, e vou pintá-la com o sangue do meu próprio coração. Tudo que peço a você em troca é que você seja este romântico nato, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia. Embora a Filosofia seja sábia, e mais poderosa que o Poder, o amor é poderoso. As asas dele são coloridas como as chamas, assim como o seu corpo. Os lábios do Amor são doces como o mel, e sua respiração tem o aroma de um incenso.
            Da grama, o menino olhou para cima e ouviu, mas não conseguiu entender o que o Rouxinol dizia, porque ele sabia apenas das coisas que estavam escritas nos livros. Mas o carvalho compreendeu, e se entristeceu porque ele gostava muito do passarinho, que construíra o seu ninho em seus galhos.
            — Cante uma última canção para mim — sussurrou o carvalho. — Ficarei tão sozinho quando você for...
            O Rouxinol, então, cantou para o carvalho, e sua voz era como a água borbulhando ao cair de uma jarra prateada.
            Quando o canto do pássaro acabou, o menino se levantou e pegou um caderno e um lápis de sua mochila.
            — Ela tem uma forma — ele falou consigo enquanto caminhava pelo bosque — que não pode ser negada a ela. Mas ela tem sentimentos? E se não tiver? Ela não se sacrificaria pelos outros. Ela pensa apenas em música, e todo mundo sabe que a arte é egoísta. Ainda assim, admito que ela possua algumas belas notas em sua voz. Pena que isso não significa nada e nem faz nada de bom. Ele foi até o seu quarto, onde começou a pensar em sua amada. Um tempo depois, ele caiu no sono.
            E, quando a lua brilhou no céu, o Rouxinol voou até a roseira e posicionou o seu peito contra um espinho. Por toda a noite, o pássaro cantou enquanto o espinho penetrava mais e mais em seu peito, e a gélida lua de cristal se inclinou enquanto ouvia.
            A avezinha cantava sobre o nascimento do amor no coração de um menino e uma menina. E, no topo dos ramos da Roseira, uma flor encantadora brotou, pétala por pétala, enquanto a canção seguia o seu ritmo. No início, era sem cor – como a névoa que paira sobre o rio, como os pés da manhã, e como as asas da alvorada. Mas escurecia à medida que o pássaro cantava mais alto – como a sombra de uma rosa em um espelho prateado.
            A Roseira gritou ao Rouxinol para que ele pressionasse o seu corpo contra o espinho:
            — Pressione mais, passarinho! — insistia a Roseira. — Ou o dia chegará antes que a rosa esteja pronta.
            O Rouxinol pressionou seu peito ainda mais contra o espinho, e sua canção ficava mais alta, porque ele cantava sobre o nascimento da paixão na alma de duas pessoas.
            Um delicado tom de rosa começou a ruborizar-se pelas folhas, como o rosto enrubescido de duas pessoas ao se beijarem. Mas o espinho ainda não havia alcançado o seu coração, e, por isso, o coração da rosa continuava branco. Apenas o sangue de um Rouxinol pode tornar vermelho o coração de uma rosa.
            O Rouxinol pressionou ainda mais o seu peito, e o espinho tocou, enfim, o seu coração. Uma pontada feroz de dor foi sentida ao toque do espinho. Sua dor era tão amarga, tão amarga, que sua canção se tornou mais violenta – ele cantava sobre o Amor que é aperfeiçoado pela Morte, sobre o amor que não morre no túmulo.
            A flor encantadora se carminou, tal qual o céu ao anoitecer; carmim era o cinturão de pétalas, e carmim era o coração, tal qual um rubi.
            Contudo, a voz do Rouxinol ficava mais fraca, e suas asinhas começaram a bater mais rápido enquanto um filme passava na frente de seus olhos. Cada vez mais fraca era sua canção, até que o pássaro sentiu algo sufocar a sua garganta.
            Então, ele irrompeu um último som. A lua branca pôde ouvi-lo, e ela se esqueceu do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa vermelha pôde ouvir, e, extasiada, ela se tremeu toda, e abriu suas pétalas para o gélido ar do dia.
            O eco se expandiu até sua caverna escura nas colinas, acordando os pastores que ali sonhavam; ele flutuou entre as gramas dos rios, até que sua mensagem chegasse ao mar.
            — Veja! — gritou a Roseira. — A rosa está pronta.
            Mas o Rouxinol não respondeu, porque ele estava morto, caído sobre a relva, com o espinho fincado em seu coração.
            Ao meio-dia, o jovenzinho abriu sua janela e olhou para fora:
            — Ora! Mas que sorte a minha — ele berrou. — Tem uma rosa vermelha aqui! Eu nunca vi uma rosa como esta em toda a minha vida. É tão bela que tenho certeza de que ela possui um daqueles nomes longos em latim.
            Ele, então, inclinou-se e pegou-a para si.
            Em seguida, ele pegou o seu chapéu e correu até a casa do seu professor com a rosa em sua mão. A filha do professor estava sentada na entrada da casa com o seu cachorrinho deitado aos seus pés.
            — Você disse que dançaria comigo se eu presenteasse você com uma rosa vermelha — comentou o menino, afoito. — Tome. Esta é a rosa mais vermelha do mundo inteiro. Use-a próxima do seu coração nesta noite e, enquanto dançamos, vou dizer a você o quanto eu te amo.
            A menina fez uma careta.
            — Desculpe, mas acho que não combinará com o meu vestido — ela respondeu. — E o sobrinho do mordomo me deu algumas joias de presente, e elas valem muito mais do que flores.
            — Na minha opinião, você é muito ingrata! — resmungou o menino, muito bravo, jogando a rosa na rua, que acabou caindo na sarjeta. Após isso, as rodas de um carrinho passaram sobre ela.
            — Ingrato! — gritou a menina. — Vou dizer uma coisa, você é muito grosso! E, além do mais, quem é você? Apenas um menino qualquer. Não acredito que você tenha fivelas de prata para os seus sapatos como o sobrinho do mordomo tem.
            Ela se levantou de sua cadeira e entrou na casa.
            — O amor é uma coisa idiota! — ele pensava, enquanto ia embora. — Não chega nem à metade de ser tão útil quanto a razão. Por isso que ele não prova a existência de nada, e está sempre falando sobre algo que não vai acontecer, e faz você acreditar em coisas que não são de verdade. E, de fato, ele é impossível. Vou voltar a estudar Filosofia e Metafísica, pois ser prático e tornar as coisas possíveis, atualmente, é tudo.
            Assim, ele voltou para o seu quarto, pegou um livro cheio de pó e começou a ler.

- Original retirado do site About Education, da seção Classic Literature: <http://classiclit.about.com/library/bl-etexts/owilde/bl-owilde-nigh.htm>.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Áudio-conto - "O Gigante Egoísta"




Adaptado por Júnior Gonçalves para um áudio-conto, "The Selfish Giant" é um conto infantil de Oscar Wilde, publicado na coletânea de contos "The Happy Prince and Other Tales" em 1888.

Em uma de minhas aulas de Prática de Tradução de Textos Literários, da faculdade de Tradução e Interpretação, traduzi o conto para "O Gigante Egoísta".

O Gigante Egoísta tem o seu próprio jardim. Um belo jardim com árvores que brotam lindas flores, no qual as crianças adoram brincar depois das aulas. Após retornar da Cornualha, em uma visita ao seu amigo ogro, o gigante não gosta nem um pouco da ideia das crianças brincando em seu jardim.
Com tal atitude egoísta, um inverno sem fim se instala no jardim do gigante.
Será que o gigante está fadado a viver sozinho, em seu "reino" congelado?

A adaptação para um áudio-conto foi idealizada por Júnior Gonçalves, pseudônimo de Izaias Gonçalves Avelino Júnior, durante suas aulas do curso de Tradução e Interpretação. Nascido em 9 de setembro de 1991, em São Paulo, Capital. Esta é sua primeira obra publicada e divulgada, ainda que seja uma produção independente e sem fins lucrativos.


DADOS TÉCNICOS:

- Júnior Gonçalves › Tradução, adaptação e roteirização do conto; Ilustrações; Narrador.
- Anderson do Nascimento › Produção, gravação e mixagem da trilha sonora; Dublagem do Gigante.
- Ana Julia Baros Batista › Dublagem da criança.
- Camilla Batista da Silva › Dublagem da criança.
- Fábio Mendes Castilho › Dublagem do Vento Norte.
- Gabriel Feitoza Avelino › Dublagem do Outono e do adulto.
- Lucas Batista Gomes › Dublagem do Pequenino.
- Manuella Avelino Capela › Dublagem da criança.
- Maria Eduarda Gonçalves Santana › Dublagem da Flor e da criança.
- Priscila Feitoza › Dublagem da Geada.
- Sônia Maria Feitoza Avelino › Dublagem da Árvore.
- Thaís Feitoza Avelino › Dublagem da Neve e do adulto.


AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos que incentivaram a produção deste áudio-conto e contribuíram para a sua conclusão - aos dubladores, que mesmo não tendo remuneração concordaram em participar, às mães Simone Batista, Sheila Batista, Solange Gonçalves e Priscila Feitoza que autorizaram a participação de suas crianças, ao Anderson do Nascimento, sem o qual eu não teria conseguido concluir, à minha família e, especialmente, à Maria Cecília Lopes, docente da disciplina de Prática de Tradução de Textos Literários, que deu asas à minha imaginação para a criação desta adaptação.


- Produção independente, sem fins lucrativos.

terça-feira, 4 de março de 2014

Conto - O Gigante Egoísta

O conto a seguir é uma tradução feita por mim do original "The Selfish Giant", publicado por Oscar Wilde na coletânea de contos "The Happy Prince and Other Tales", em 1888.



      Toda tarde, no caminho de volta da escola, as crianças tinham o hábito de ir ao jardim do Gigante para brincar.
     Era um jardim grande e encantador, com a grama verde e macia. Em um ponto e outro, sobre a grama, lindas flores se erguiam, assim como as estrelas surgem no céu[1]. Havia doze pessegueiros que, na primavera, brotavam delicadas flores de cor rosa perolada, e carregava-se de frutos suculentos no outono. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão graciosos que as crianças costumavam parar suas brincadeiras para ouvi-los.
        — Como somos felizes aqui!  gritavam umas para as outras.
        Um dia, o Gigante retornou. Ele fora visitar seu amigo ogro da Cornuália, e com ele havia ficado por sete anos. Após se passarem sete anos, ele já havia dito tudo o que tinha para dizer, pois sua conversa já não se estendia mais, e decidiu retornar ao seu castelo. Quando chegou, ele viu as crianças brincando no jardim.
       — O que vocês fazem aqui? — vociferava o gigante, com rouquidão na voz, e então as crianças fugiram.
        — O jardim é meu. Só meu![2] — disse o Gigante — Qualquer um entende isso, e não vou permitir que ninguém brinque aqui, exceto por mim. — assim, ele construiu um muro alto ao redor do jardim e pendurou uma placa de aviso[3]:
        OS INVASORES SERÃO PUNIDOS!
        Ele era um gigante muito egoísta.
        As pobres crianças não tinham mais onde brincar. Elas tentaram brincar na estrada, mas lá havia muitas pedras e poeira[4], e elas não gostaram disso. Elas costumavam perambular em volta do muro quando suas aulas acabavam e conversavam sobre o lindo jardim ali de dentro.
        — Como éramos felizes lá! — diziam umas para as outras.
        A Primavera então chegou, havia pequenas flores e passarinhos por todo o país. Apenas no jardim do Gigante Egoísta ainda era inverno. Os pássaros não se preocuparam em cantar lá, já que não havia crianças, e as árvores se esqueceram de florescer. Certa vez, uma linda flor ergueu a cabeça para fora da grama, mas deslizou de volta para a terra quando viu a placa de aviso, sentindo muita pena das crianças, e voltou a adormecer. As únicas que estavam satisfeitas eram a Neve e a Geada.
        — A Primavera se esqueceu deste jardim! — elas berravam. — Então viveremos aqui durante o ano todo.
        A Neve cobriu a grama com o seu manto branco e a Geada coloriu todas as árvores de prata. Então, elas convidaram o Vento Norte para juntar-se a elas, e ele veio. Ele vestia peles, e rugia o dia todo pelo jardim, soprando abaixo as chaminés.
        — Que lugar incrível! — dizia ele. — Precisamos convidar o Granizo para uma visita.
       Assim, o Granizo veio. Todo dia, durante três horas, ele sapateava[5] sobre os telhados do castelo até quebrar a maioria das telhas, e em seguida ele corria pelo jardim o mais rápido que podia. Ele se vestia de cinza, e sua respiração era como o gelo.
        — Não consigo entender porque a Primavera está tão atrasada para chegar. — dizia o Gigante Egoísta, enquanto estava sentado na janela olhando para o seu jardim frio e sem cor ao lado de fora. — Espero que o tempo mude.
        Mas a Primavera nunca veio, e nem o Verão. O Outono presenteou todos os jardins com frutos dourados, mas não deu nenhum para o jardim do Gigante.
        — Ele é tão egoísta. — disse o Outono. Por isso, foi sempre Inverno ali. O Vento Norte, o Granizo, a Geada e a Neve dançavam no meio das árvores.
        Um dia, já acordado, o Gigante estava deitado em sua cama quando ouviu uma melodia graciosa. Soava tão harmoniosa para suas orelhas que ele achou que os músicos do Rei poderiam estar passando por ali. Era, na verdade, um pequeno pintarroxo[6] cantando ao lado de fora de sua janela, mas fazia tanto tempo que ouvira um pássaro cantar que lhe pareceu a música mais bela do mundo. O Granizo, então, parou de dançar sobre o telhado. O Vento Norte cessou seu rugido. E um delicioso a entrou pela janela aberta.
        — Eu acho que a Primavera chegou, finalmente. — disse o Gigante, saltando da cama e olhando para fora.
        O que ele via?
        Ele teve a visão mais extraordinária. As crianças haviam entrado por um pequeno buraco no muro e estavam sentadas nos galhos das árvores. Havia uma criança em cada árvore que o Gigante podia enxergar. E as árvores estavam tão contentes pela volta das crianças que elas cobriram a si mesmas com flores, e balançavam gentilmente seus braços acima das cabeças das crianças. Os pássaros voavam e cantavam com prazer, e as flores olhavam para cima através da grama verde e riam. Era uma cena adorável, mas ainda era inverno em apenas um canto. Era o canto mais distante do jardim e nele havia um menininho de pé. Ele era tão pequenino que não podia alcançar os galhos da árvore, e estava andando em volta dela, chorando com muito sofrimento. A pobre árvore ainda estava toda coberta por gelo e neve, e o Vento Norte soprava e rugia sobre ela.
        — Suba, menininho! — dizia a Árvore, abaixando os seus galhos o mais baixo que podia. Mas o menino era pequeno demais.
        Ao ver aquilo, o coração do Gigante se comovia.
            — Como tenho sido egoísta! — disse ele — Agora eu sei porque a Primavera não veio aqui. Vou colocar aquele pobre menininho no topo da árvore e depois vou derrubar o muro, e o meu jardim poderá ser a diversão das crianças para todo o sempre.
        Ele realmente estava muito arrependido pelo que tinha feito.
        Assim, ele desceu para o térreo e abriu a porta da frente com cuidado[7], saindo para o jardim. Mas quando as crianças o viram, ficaram tão assustadas que todas fugiram, e o inverno voltou para o jardim. Apenas o menininho não fugiu, porque não pôde ver o Gigante chegando, já que seus olhos estavam cheios de lágrimas. O Gigante se moveu de modo rápido para trás do menino e o pegou gentilmente em sua mão, colocando-o na árvore. A árvore derrubou uma flor e os pássaros vieram e cantaram sobre ela, e o menininho estendeu seus braços e os direcionou em volta do pescoço do Gigante, beijando-o. Ao ver que o Gigante não era nem um pouco malvado, as outras crianças voltaram correndo, trazendo consigo a Primavera.
        — O jardim agora é de vocês, pequeninos. — disse o Gigante, pegando um grande machado e derrubando o muro.
     Quando as pessoas iam ao mercado, às doze horas, elas encontravam o Gigante brincando com as crianças no jardim mais bonito que já tinham visto. Elas brincavam durante o dia inteiro, e ao fim da tarde vinham até o Gigante para se despedir.
        — Mas onde está o seu pequeno amigo? — o Gigante perguntou. — O menino que coloquei na árvore. — O gigante gostou especialmente dele porque ele lhe dera um beijo.
         — Não sabemos. — responderam as crianças. — Ele foi embora.
      — Vocês precisam convencê-lo a vir aqui amanhã. — disse o Gigante. Mas as crianças disseram que não sabiam onde ele vivia e que nunca o tinham visto antes, e o Gigante ficou muito triste.
     Toda tarde, quando as aulas acabavam, as crianças vinham e brincavam com o Gigante. Mas o pequeno menino que havia despertado o carinho do Gigante nunca mais foi visto.
        O Gigante era muito amável com todas as crianças, ainda assim ele ansiava por seu primeiro amiguinho, falando dele muitas vezes.
        — Como eu gostaria de vê-lo! — ele costumava dizer.
       Os anos se passaram e o Gigante tornou-se muito velho e fraco. Ele não podia mais brincar, então se sentava em uma enorme poltrona e assistia as brincadeiras das crianças, admirando o seu jardim.
        — Tenho tantas flores bonitas... — ele dizia. — Mas as crianças são as flores mais bonitas de todas!
        Em uma manhã de inverno, enquanto se vestia, ele olhou para fora de sua janela. Ele não odiava mais o Inverno, porque ele sabia que era apenas o adormecer da Primavera e o descanso das flores.
        De repente, ele esfregou os olhos em espanto, olhando e olhando novamente. Com certeza, era uma visão maravilhosa. No canto mais distante do jardim havia uma árvore toda coberta com adoráveis flores brancas. Seus galhos estavam todos dourados e deixavam pender frutos prateados. E, debaixo dela, estava o menininho que ele gostara.
       O gigante correu para baixo, em grande alegria, saindo para o jardim. Ele cruzava a grama com pressa, se aproximando da criança. Quando ele chegou bem próximo, seu rosto ficou vermelho de raiva.
        — Quem ousou ferir você? — ele perguntava. Sobre as palmas das mãos da criança haviam cicatrizes de dois pregos, assim como haviam cicatrizes de dois pregos em seus pezinhos.
        — Quem ousou ferir você? — gritava o Gigante. — Diga-me, que eu vou pegar minha enorme espada e matá-lo.
        — Não! — respondeu a criança. — Estas são apenas as feridas do Amor.
       — Quem é você? — perguntou o Gigante, e um estranho sentimento de respeito tomou conta de si, então se ajoelhou diante da pequena criança.
        A criança sorriu para o Gigante.
       — Uma vez você me deixou brincar no seu jardim, hoje você pode vir comigo para o meu jardim, que é o Paraíso. — disse o menino.
       Quando as crianças correram naquela tarde, elas encontraram o Gigante deitado morto sob a árvore, todo coberto por flores brancas.


[1] O original “stood beautiful flowers like stars” transmitiu-me a ideia de que as flores se erguem pela grama da mesma forma como as estrelas surgem no céu, ora em um ponto, ora em outro.

[2] No original, o Gigante passa exatamente essa ideia de uma criança rebelde, por isso a escolha pela ênfase da expressão.

[3] Ao invés de traduzir “put up” por “colocar”, optei deixar a palavra “pendurar”, pois permite uma melhor elucidação do objeto no muro referido.

[4] Optei por ocultar a tradução de “hard stones” porque, ao meu ver, nós não utilizamos um adjetivo para descrever que “há pedras no caminho”. “Pedras no caminho” já nos permite visualizar que são pedras que atrapalham o caminhar.

[5] O original “rattled” refere-se ao ruído causado pela queda do granizo, um estalar repetido. Sendo um conto infantil com elementos fantásticos, optei pela tradução “sapateava”, para ilustrar um pouco as artimanhas da personagem, além de também trazer à lembrança o mesmo estalar repetido.

[6] Pintarroxo é o nome comum a várias espécies de aves passeriformes da família dos fringilídeos. É uma ave canora.

[7] O “quite softly” do original foi traduzido por “com cuidado”, pois interpreto a ação do Gigante assim. Ele abriu com cuidado para não espantar as crianças do jardim.