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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Amazônia: Por um mundo melhor


            Há algum tempo, escrevi um conto que explorava um pouco da mitologia tupi-guarani, "O Mistério da Fênix", no qual um garoto paulistano de dezessete anos se descobre como parte do panteão tupi-guarani.
            Depois disso, vieram algumas ideias que compartilhei com algumas pessoas mais próximas. Por sorte, foram boas ideias que provaram dar bons frutos: Anderson do Nascimento, o meu marido, decidiu utilizar, como pano de fundo, o contexto mitológico tupi-guarani para uma de suas produções no seu trabalho nas Fábricas de Cultura.

As Fábricas de Cultura
            As Fábricas de Cultura são um projeto do Governo do Estado de São Paulo em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. O projeto visa a educação e a formação nas diversas formas de expressão artística.
            O Anderson é educador do ateliê de Canto Coral na Fábrica de Cultura de Cidade Tiradentes e, neste semestre, desenvolveu um espetáculo musical com os seus aprendizes na trilha semestral.

A ideia de trabalhar com a mitologia tupi-guarani
            Inicialmente, a ideia do Anderson era trabalhar, com os aprendizes de Canto Coral, as lendas brasileiras: o Saci, a Caipora, o Boi Bumbá, a Iara etc. Contudo, durante o processo de desenvolvimento do espetáculo, o Anderson apresentou o meu conto "O Mistério da Fênix" aos aprendizes, que demonstraram grande interesse pela abordagem com as divindades nativamente brasileiras.

Ilustração de Júnior Gonçalves.
            Assim, a trilha tomou um novo rumo e os aprendizes entraram num ambiente de pesquisa amplo sobre a cultura nativa do país, buscando informações sobre o folclore popular brasileiro e sobre as lendas dos povos tupis-guaranis.

A montagem do espetáculo
            O espetáculo musical começou a ser produzido a partir do momento em que os aprendizes iniciaram as buscas pelas informações, pelas lendas e pelo levantamento musical – as músicas do espetáculo são músicas que, de alguma forma, influenciaram a música brasileira.
            Após longas discussões e trocas de informações, os aprendizes puderam escolher os seus personagens – isso demonstra a liberdade oferecida pelo educador, visando que cada aprendiz se apropriasse do seu personagem sem levar o processo como algo penoso. Em seguida, foi criado um grupo no Facebook, dedicado às discussões e ideias para as caracterizações dos personagens.
            Foi, então, que eu recebi o convite para escrever o enredo e adaptá-lo para o roteiro do musical. A proposta era inserir os personagens na resolução dum conflito – a degradação ambiental e a destruição da Amazônia, o pulmão do mundo. Eu já conhecia alguns dos aprendizes pessoalmente, o que me ajudou muito na construção do enredo, e sempre conversava com o Anderson sobre cada aprendiz para tentar adequar, ao máximo, cada personagem.
            Após a construção do enredo e algumas alterações, segui para a adaptação da história em um roteiro teatral. Juntos, eu e o educador selecionamos algumas trilhas sonoras que serviriam de entradas e interlúdios – isso aconteceu após a edição completa do roteiro e dos cortes de algumas cenas (devido ao tempo disponibilizado para a apresentação). Ainda, tive a chance de adaptar a canção "O que eu quero mais é ser rei", do filme "O Rei Leão", para o personagem Curupira, que contracenou com a personagem Caipora.

A apresentação
            O evento foi parte da formação semestral dos aprendizes da Fábrica de Cultura de Cidade Tiradentes, que aconteceu no dia 6 de dezembro de 2015, às 16h40, no teatro da unidade.
            O enredo foi centralizado na reunião de várias entidades folclóricas, como Caipora, Curupira, Jaci, Guaraci, Rudá, Boitatá, Boto Cor-De-Rosa, Cuca, Jurupari, Anhangá, duendes, fadas e índios, todos preocupados após descobrirem que Tupã perdeu os seus poderes e não consegue mais fazer chover e que Iara está fraca e morrendo. Durante o espetáculo, os personagens descobrem que isso está acontecendo por conta da destruição da natureza pelo homem e tentam buscar soluções para isso.

Primeira parte do espetáculo musical.

            As músicas foram envolventes e fizeram o público interagir com os personagens, conseguindo sentir a angústia e questionar a existência duma possível solução para tudo isso. "Amazônia", "Não vamos parar" e "Planeta Água" foram algumas das músicas do espetáculo.
            Os aprendizes surpreenderam tanto ao educador – que se emocionou ao final do espetáculo – quanto ao público e aos funcionários da Fábrica de Cultura de Cidade Tiradentes. O talento de cada um pôde ser percebido; a veia artística de cada um pulsou intensamente.

Segunda parte do espetáculo musical.

            Sinto orgulho por ter participado desse processo – um grandioso processo. Parabenizo, mais uma vez, a todos os envolvidos mas, principalmente, aos aprendizes que, de fato, fizeram um verdadeiro espetáculo!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Conto: O Grande Espírito do Rio

Rio Amazonas, Isla de los Monos, Peru.

            Era quase dez horas da noite quando Marco, Teresa e Joaquim navegavam próximos da Isla de los Monos – a Ilha dos Macacos. Eles haviam alugado o barco pesqueiro Neruda em Tefé, no Amazonas e, desde então, foram seis dias até chegar naquele ponto do Rio Amazonas.
            Alfredo, o peruano dono do pesqueiro, era contra os propósitos daquela viagem, mas só os descobrira há poucos minutos, ao ouvir uma conversa entre os três expedicionários e a guia turística, Moema:
            — Vocês têm certeza disso? — questionava Moema, insegura. — Não tenho certeza do que vamos achar na Ilha. Pode ser tudo balela.
            — Não! — contestou Joaquim, convicto. — É verdade, eu sei. Todo o mundo aqui da região fala disso... Os aldeões têm essas superstições.
            — Só não me metam nessa encrenca — pediu Moema, preocupada. — Não quero estar envolvida com isso e sujar o meu nome. O que vocês vão fazer é exploração ilegal. Retirar espécimes destas regiões é crime ambiental.
            — ¡Maldito sea! — exclamou Alfredo, saindo detrás da cabine do piloto. O homem entendia a língua portuguesa muito bem, só não conseguia falar o idioma; por isso a necessidade de uma guia e tradutora.
            Um clima tenso se espalhou por todo o convés do Neruda.
            — ¿Estabas escuchando a escondidas? — Moema brigou com o pescador. — Usted há sido contratado sólo para hacerse cargo de la embarcación.
            — ¡Qué vas a hacer no es correcto! — insistiu Alfredo. O peruano suava de tanta tensão ao descobrir os reais motivos daquela viagem. — ¡Hijos de puta! ¡La Boiuna nos va a matar!
            — La Boiuna? — Moema se deu conta do que se tratava aquilo tudo. — ¡Eso es una leyenda, hombre! ¡Sólo eso!
            Com o medo estampado na cara, Alfredo voltou para a cabine do piloto e ficou encarando os quatro brasileiros.
            Marco, Teresa e Joaquim não entenderam nada; ficaram calados aguardando por uma explicação de Moema, que também ficou calada.
            Quase à meia-noite, Alfredo parou o barco alegando que estava muito cansado e que precisaria dormir um pouco para repor as energias. O Neruda estava num meandro, entre as árvores com copas em forma de guarda-chuva. Então, Moema decidiu explicar aos três expedicionários o que estava acontecendo:
            — Bom, vocês presenciaram o show do peruano — comentou Moema, lamentando o ocorrido.
            — Aquilo foi um barato! — disse Marco, entusiasmado. — O cara é uma figura!
            — Mas ele parecia muito bravo com alguma coisa — sugeriu Teresa, uma mulher de sensibilidade extrema.
            — Exatamente — confirmou Moema, com uma feição não muito feliz. — Vejam bem, o povo que vive às margens do Amazonas tem uma crença muito forte em algo muito antigo.
            — Era aquele tal de Boiúna? — questionou Joaquim. — Ouvi o Alfredo comentando algo sobre isso.
            — Isso! Isso mesmo — respondeu Moema, assentindo com a cabeça. — A Boiúna é tida como O Grande Espírito do Rio Amazonas, capaz de encarnar numa gigantesca serpente para engolir as embarcações com os seus navegantes que fazem mal à natureza.
            — Não tenho medo de sucuri — brincou Marco. — Já matei várias!
            — ¡Eres un idiota! — era Alfredo. O homem havia acordado ao ouvir falarem sobre a Boiúna. — ¿No se dan cuenta que nos encontramos en el território de la Boiuna? Ella es la dueña de este río.
            — Amigo, venha cá... — Joaquim, o mais jovem de todos, envolveu o peruano com o braço direito e o levou para a popa do Neruda. — Que história é essa de Boiúna? Fale com calma para que eu entenda.
            — La Boiuna es el ser vivo más cruel y poderoso — alertou Alfredo, espreitando o Rio Amazonas. — Ella puede cambiarse a la gente si quiere engañarnos. Ella podría incluso convertirse en un recipiente para nosostros para atraer y ahogamos.
            — Espera um pouco... Não entendi nada! — Joaquim lamentou com uma expressão preocupada.
            — Ele disse que a Boiúna é tão poderosa que poderia se transformar numa embarcação para nos atrair e nos afogar — traduziu Moema, soltando um leve sorriso. — Mas é claro que isso é uma lenda!
            — ¡Esto no es una leyenda! — berrou Alfredo; o seu grito ecoou pela mata e pelo rio, fazendo-os perceber que estavam realmente sós.
            — Por que não vamos dormir? — propôs Teresa, desejando acalmar os ânimos dos navegantes.
            Assim, todos se encaminharam aos seus colchonetes para tentar descansar.
            No meio da noite, após ouvir um estalido, Marco se levantou e caminhou com uma lanterna até o púlpito de proa para tentar ver se algo havia batido no barco. O homem procurou no foco de luz e forçou a visão, mas não conseguiu enxergar nada. O rio corria calmo; não havia pássaros, não havia peixes; nem mesmo as árvores balançavam.
            Quando desligou a lanterna e virou-se para voltar ao seu colchonete, Marco foi surpreendido por alguém. Era uma figura feminina oculta pela sombra noturna; ela estava com os ombros tensos e os cabelos bagunçados.
            — Oi! Moema? Terê? — perguntou Marco, acendendo a lanterna na direção da moça.
            Então, Marco se assustou com o que viu – aqueles olhos completamente negros o encararam e puderam enxergar a sua alma. Num súbito ataque, a mulher avançou sobre o homem e o jogou contra o Rio Amazonas.
            No rio, Marco teve de lutar contra a correnteza e contra a mulher, que parecia ter uma força anormal. Mas não demorou muito para o expedicionário desistir e acabar-se afogando nas águas do Rio Amazonas.
            Ao amanhecer, Teresa e Joaquim procuraram por Marco no barco todo:
            — É melhor descermos até as margens e procurarmos por ele. Será que ele não quis, de repente, fazer xixi? — sugeriu Teresa, tentando não demonstrar a sua real preocupação.
            — Ele é louco, então, pois temos recipientes adequados para isso aqui no barco — argumentou Moema, aparentando estar incrédula com o sumiço do homem. — Não é seguro sair sozinho do barco e andar pela floresta; há animais à solta!
            — ¡Yo he dicho! Fue la Boiuna! — gritou Alfredo, apontando para o rio.
            No rio, algo despertou o temor dos tripulantes do Neruda – um corpo boiava nas margens do outro lado do Rio Amazonas; era o corpo de Marco.
            — Meu Deus! — gritou Teresa, chorando em desespero. — Quem fez isso?
            — Alfredo, pare de assustar as pessoas! — exigiu Moema, encarando o pescador e dono do barco. — Já não basta o que houve com o Marco? Leve a gente até a outra margem.
            — Si señora — Alfredo obedeceu ao pedido de Moema assim que a olhou nos olhos. — Como quieras.
            Então, o Neruda navegou até a outra margem do rio e, com algum esforço, os tripulantes conseguiram trazer o corpo de Marco de volta para o barco. O corpo estava inchado e cheio de marcas rochas; os olhos estavam revirados, exibindo apenas a esclera branca.
            — Vamos embora! — gritou Teresa, desesperada.
            — Teresa? — Joaquim ficou confuso... — Não terminamos...
            — Não vamos pegar mais nada! — decidiu a mulher, transtornada. — Vamos embora deste lugar... O Marco não tinha que ter morrido!
            — Mas foi um acidente! — insistiu Joaquim. — Você acreditou mesmo nessa historinha pra assustar criança?
            Moema lançou um olhar assustador a Joaquim, mas o jovem nem se deu conta; mas Alfredo capturou aquela ameaça e quase se jogou do Neruda naquele instante, mas preferiu manter a calma.
            — Será mejor que nos vayamos — Alfredo disse, tentando não encarar Moema. — Estamos todos muy nerviosos. Si seguimos com el viaje, no vamos a enfocar.
            — Tudo bem — Joaquim teve de concordar; todos estavam muito abalados.
            Então, o Neruda voltou a descer o Rio Amazonas rumo a Tefé.
            No cair da noite, o céu foi encoberto por densas nuvens cor-de-chumbo; não demorou muito e começou a cair uma tempestade que impedia a visão nítida do rio à frente:
            — ¡Maldita sea! — vociferou Alfredo ao concluir que precisaria esperar a chuva forte passar. — Tendremos que esperar.
            Dentro da cabine, Teresa, Joaquim, Moema e Alfredo assistiam a tempestade cair; o corpo de Marco perecia sobre o convés próximo à popa do Neruda. As árvores se curvavam sobre o rio com o vento forte, que assobiava assustadoramente. Raios e trovões clareavam o céu e estremeciam a terra.
            — Meu Deus! Estamos ferrados — praguejou Teresa. — A gente precisa ir embora daqui.
            — Você enlouqueceu? — Moema encarou, com indignação, a expedicionária. — Não está vendo a tempestade? Se o Alfredo tentar ligar este barco, seremos levados pela correnteza como uma folha de papel!
            — No podremos irnos de aqui hoy — lamentou Alfredo, ainda evitando olhar para Moema. — Tal vez tengamos que dormir aqui esta noche. ¡No quiero perder mi barco durante la tormenta!
            — O Alfredo está certo — concordou Moema, apoiando a sua mão esquerda sobre o ombro direito de Alfredo. — Não vamos fazê-lo perder o seu barco.
            Assim, os quatro permaneceram ali, na cabine, por cerca de três horas até caírem no sono.
            Joaquim acordou assustado ao ouvir um barulho vindo do rio. Levantou-se e caminhou até o púlpito de proa; foi quando viu outra embarcação se aproximando do Neruda – era um posto flutuante de combustível da Petrobrás, colorido em verde.
            O posto flutuante se aproximou o bastante para que fosse possível saltar sem dificuldades do barco pesqueiro Neruda para a embarcação da Petrobrás. E foi exatamente isso o que Joaquim fez:
            — Oi? — dizia Joaquim, enquanto batia nas portas da embarcação. — Tem alguém aí?
            Uma das portas, então, abriu-se e exibiu ao moço um compartimento cheio de computadores e rádios. Sem pensar duas vezes, Joaquim correu para dentro do local a fim de tentar comunicar-se com alguém em busca de ajuda. Contudo, a porta se fechou com toda a força logo que ele pisou no compartimento.
            — Ei! Me deixe sair daqui! — gritou Joaquim, enquanto esmurrava a porta de aço. — Socorro!
            Uma silhueta feminina surgiu atrás de Joaquim e soltou um sussurro:
            — ¡Tú eres mio, no creyente! — a voz feminina lhe pareceu familiar, mas era gélida e assombrosa. — Cierra tus ojos y comience a orar.
            Joaquim começou a tremer dos pés à cabeça e, sem controle algum dos seus impulsos, urinou nas calças. O jovem cerrou os olhos com toda a força e começou a fazer preces:
            — Pelo amor de Deus... — implorava o homem, enquanto tentava, sutilmente, pôr-se de joelhos sobre o chão do compartimento sombrio. — Eu prometo que nunca mais volto aqui!
            — ¡Cállate la boca! — a mulher soltou um berro que parecia o granido duma coruja, o que fez Joaquim silenciar-se.
            Quando se deu conta, Joaquim viu que havia uma infiltração no compartimento onde estava; a água já estava ao nível das suas coxas. O jovem ergue-se de supetão, assustado, e tentou abrir a porta mais uma vez – inutilmente. Foi só aí que ele, então, concluiu que a embarcação estava afundando no Rio Amazonas.
            — Não! — ele gritava e chorava desesperado, sem esperanças. — Me deixe ir embora! Por favor!
            — Olha só... — a voz feminina mudou o seu tom para algo mais melódico enquanto a silhueta se aproximava de Joaquim. — Não são só criancinhas que ficam assustadas!
            O olhar de Joaquim era perturbador – ele estava transtornado com o que viu. O medo e o pavor foram tão intensos que isso lhe causou uma série de sensações incômodas: primeiro, uma forte dor atingiu-lhe o peito e as costas, causando-lhe uma falta de ar; a sua língua começou a enrolar e ele começou a sentir enjoo o braço esquerdo formigava como se milhares de insetos caminhassem por ali; uma vertigem lhe acometeu; e, por fim, Joaquim caiu morto.
            Aos poucos, o porto flutuante da Petrobrás afundou nas frias águas do Rio Amazonas até ancorar na talvegue do rio. A mulher lançou um último olhar ao corpo do jovem e saiu pela porta de aço, que se abriu assim que a silhueta feminina encostou.
            Enquanto isso, Teresa e Alfredo procuravam por Joaquim, mas, como não o encontravam, decidiram acordar Moema, que dormia pesadamente no convés do Neruda:
            — Moema! Acorde — Teresa cutucou o ombro da guia. — O Joaquim... Ele está desaparecido!
            — O quê? — Moema levou as mãos aos olhos, tentando limpar o seu campo de visão. — Como desapareceu?
            — Não sei... — respondeu Teresa, com a voz chorosa. — E se tiver acontecido o mesmo que aconteceu ao Marco?
            Nesse instante, Teresa olhou para a popa da embarcação, esperando achar o corpo de Marco, que não estava mais lá.
            — Marco! — gritou Teresa. — O corpo dele sumiu!
            — Lárguemonos de aqui — decidiu Alfredo, segurando a roda do leme e começando a navegar com o Neruda. — Tengo una familia que cuidar.
            — Largue o timão — Moema proferiu aquelas palavras com um ar de seriedade. — Agora.
            Sem hesitar, Alfredo soltou a roda do leme e sentou-se num banquinho, tremendo-se todo.
            — Mas o que está fazendo, Moema? — questionou Teresa, sem entender a atitude da guia. — Vamos embora logo deste Inferno!
            — Aqui não é o Inferno, mulher — a voz de Moema ficou mais grave e um pouco sibilante. — Aqui é o Paraíso. São vocês, humanos, que fazem disto o Inferno. São vocês, humanos, é quem destroem tudo o que veem pela frente. São vocês, humanos, quem acreditam que são a forma de vida mais inteligente.
            — Por que está falando assim? — Teresa caminhava, de costas e em passos curtos, rumo à proa do barco. — Está querendo assustar a gente?
            — Alfredo já mijou nas calças — zombou Moema. — Mas você... Ah! O seu presente te aguarda!
            — ...Santificado sea tu Nombre; vena a nosotros tu Reino — orava Alfredo, ajoelhado na cabine, de olhos fechados. — Hágase tu voluntad en la tierra como en el cielo.
            — ¡Cállate! — sibilou Moema; os seus olhos estavam inteiramente negros e, da sua pele, começavam a "brotar" escamas. — Yo soy la diosa aquí.
            — Moema, pare com isso! — exigiu Teresa, tentando uma postura mais firme.
            Simples e direta, Moema saltou sobre a mulher e mordeu o seu braço, arrancando um bom pedaço da pele de Teresa:
            — Filha duma puta! — gritou Teresa. — Por que fez isso? Socorro, Alfredo, me ajude!
            — Chega! Cale-se de uma vez por todas! — ordenou Moema, que agarrou a mulher e saltou com ela para dentro das águas do rio.
            No fundo do rio, Teresa lutava com todas as suas forças, o que era inútil já que a adversária era algo sobrenatural. O abraço de Moema foi tão forte que Teresa rapidamente desmaiou e afogou-se, engolindo a água do Rio Amazonas até o seu corpo inflar como um balão.
            Depois disso, Moema escalou de volta o Neruda e posicionou-se diante de Alfredo, que tremia – ele parecia ter Parkinson, de tanto que tremia:
            — Pois bem... — Moema encarou o pescador. — Es tu turno.
            — ¡Por amor de Dios! — Alfredo chorava desesperado. — Nunca hice ningún daño a la naturaliza. Pesco sólo para mi familia a sobrevivir.
            — E quanto a esse bando de exploradores que você trás para o rio? — lembrou Moema, furiosa. — Ya sabes lo que quierem es explorar la naturaleza.
            — ¡Lo juro! — o homem se ajoelhou perante a mulher e suplicou. — Jamás voy a hacer... ¡Sólo te ruego que me dejes ir a mi familia!
            — Tudo bem — concordou Moema, com um sorriso perverso. — Você poderá voltar à sua família. No entanto... A partir de hoje, sempre que algum explorador te procurar, você deixará muito claro que conheceu a Boiúna de perto.
            — ¡Lo haré, lo prometo! — prometeu Alfredo, atrevendo-se a beijar os pés de Moema, que não interferiu.
            — Além disso, na sua volta para o seu vilarejo, você passará em todas as aldeias e vilarejos às margens do Rio Amazonas e dirá o seguinte: — estabeleceu a criatura misteriosa — diga a todos que O Grande Espírito do Rio, a Boiúna, ainda existe e sempre existirá. ¡Ay de quien haga tropezar uno de mi! ¡Ahora, continúe su viaje!
            Assim, Moema, a Boiúna, saltou e mergulhou no rio. Segundos depois, enquanto Alfredo retomava o curso do rio, o homem avistou uma enorme criatura serpenteando na superfície do Rio Amazonas, uma gigantesca cobra de escamas escuras, que refletiam o brilho das estrelas.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Conto: Rumpelstiltskin

Um conto de fadas do folclore alemão traduzido por Júnior Gonçalves


Rumpelstiltskin e a filha do moleiro.
            Era uma vez, um dono de moinho, um pobre moleiro. E ele tinha uma filha muito bonita. Mas ele precisou, um dia, ir falar com o rei e, tentando parecer alguém importante, ele disse:
            — Eu tenho uma filha que pode fiar palha de ouro.
            — Ora, essa é uma arte que me fascina — disse o rei para o moleiro. — Se a sua filha é tão habilidosa quanto você diz, traga ela ao meu palácio amanhã, e eu farei um teste.
            E quando a garota foi trazida até o rei, ele a colocou em uma sala cheia de palha, deu-lhe uma roca e um carretel, então lhe disse:
            — Agora, comece o seu trabalho, e se não tiver fiado toda esta palha até amanhã de manhã, você vai morrer.
            Depois disso, ele mesmo trancou a menina na sala, deixando-a sozinha ali. Assim, ali ficou a pobre filha do moleiro, e por mais que não soubesse o que fazer, ela não tinha ideia de como poderia fiar palha de ouro. Ela ficou assustada a cada vez que pensava sobre aquilo, até que as lágrimas começaram a cair de seus olhos.
            De repente, a porta se abriu, e um homenzinho entrou dizendo:
            — Boa noite, senhora filha do moleiro! Por que tanto berreiro?
            — Ai... — lamentou a menina. — Eu preciso fiar palha de ouro, e não tenho ideia de como fazer isso.
            — Se eu te ajudar... — sugeriu o duende. — O que é que você vai me dar?
            — O meu colar — respondeu a garota.
            O homenzinho pegou o colar, sentou-se diante da roca, que girou, girou e girou, três vezes, e o carretel estava completo. Então, ele colocou outro carretel, e girou, girou, girou, mais três vezes, e o segundo também ficou cheio. Ele prosseguiu assim até a manhã, quando toda a palha havia sido fiada, e todos os carretéis estavam cheios de fios de ouro.
            Com a chegada da aurora, o rei já estava em pé diante da sala, e quando ele viu o ouro, ficou surpreso e satisfeito, mas o seu coração ficou apenas mais ganancioso. Ele colocou a filha do moleiro em outra sala cheia de palha, uma sala bem maior, e ordenou que ela fiasse tudo aquilo também em uma noite, caso ela gostasse de sua vida.
            A garota não sabia como faria para se salvar, e chorou. Até que a porta se abriu novamente e o homenzinho surgiu.
            — Se eu, a palha, em ouro tornar — disse ele —, o que é que você vai me dar?
            — O meu anel... — respondeu a menina.
            O homenzinho pegou o anel, e novamente girou a roca. Pela manhã, ele já havia fiado toda a palha em outro brilhante.
            O rei se encheu de alegria com o que viu, mas ele ainda não tinha ouro o suficiente. Então, ele colocou a menina em uma sala ainda maior, forrada de palha.
            — Você deve fiar esta palha toda, também, durante esta noite — decretou o rei. — Mas se você conseguir, você casará comigo.
            — Mesmo ela sendo a filha de um moleiro — pensou o rei —, eu nunca encontrarei uma esposa tão rica no mundo todo.
            O duende voltou assim que a menina ficou sozinha, pela terceira vez.
            — Se mais uma vez eu te ajudar — disse o homenzinho —, o que é que você vai me dar?
            — Não me restou mais nada para te dar — disse a garota.
            — Prometa-me, então, que quando for uma rainha — exigiu o duende —, a sua primeira criança deve ser minha!
            — Talvez isso nunca aconteça — pensou a filha do moleiro e, sem saber de que outra forma poderia se salvar, fez o trato com o duende.
            Assim, mais uma vez, ele fiou a palha em ouro.
            Quando o rei voltou pela manhã e encontrou tudo o que desejava, ele se casou com a garota. Foi quando a bela filha do moleiro se tornou uma rainha.
            Um ano depois, ela deu à luz a uma linda criança. E a rainha havia se esquecido do duende, mas ele apareceu repentinamente em seu quarto.
            — Dê-me agora o que prometeu — exigiu.
            A rainha ficou espantada, e ofereceu todas as riquezas do reino ao homenzinho para que ele deixasse a criança.
            — Não! — contestou o duende. — Uma criança recém-nascida vale mais que qualquer coisa nesta vida.
            A rainha começou a chorar e lamentar, então o duende sentiu pena dela.
            — Três dias eu vou te dar — disse ele. — E, durante este tempo, se quiser sua criança, vai ter de me nomear!
            Então, durante toda a noite, a rainha pensou em todos os nomes que já havia ouvido em sua vida. Ela mandou uma mensagem para todo o país a fim de saber qualquer outro nome que poderia existir. Quando o duende voltou no dia seguinte, ela começou com Gaspar, Melquior, Baltazar; disse todos os nomes que conhecia, um depois do outro, mas para cada um ele respondia:
            — Não me chamo assim.
             No dia seguinte, ela havia coletado suas investigações feitas na vizinhança sobre os nomes das pessoas dali, e repetiu os mais diferentes e curiosos ao duende.
            — Talvez o seu nome seja Costelinha? Catatau? Rendoso?
            — Não me chamo assim — era o que ele sempre respondia.
            No terceiro dia, quando o mensageiro voltou, a resposta foi a seguinte:
            — Não consegui encontrar nenhum novo nome sequer — disse ele. — Mas enquanto eu vinha por uma grande montanha no fim da floresta, onde a raposa e a lebre atentam uma a outra, eu vi uma casinha. E na frente da casa havia uma fogueira, e ao redor do fogo, um homenzinho bem esquisito estava saltitando; ele pulava com uma perna só, e gritava “Um dia de comer, o outro de beber; no outro, o bebê da rainha vai ser meu; como estou feliz que ninguém vai saber; meu nome é Rumpelstiltskin, este aqui sou eu!
            A rainha ficou tão feliz ao ouvir o nome – e você deve bem imaginar. E logo que o homenzinho apareceu, ele perguntou:
            — E então, senhorita de renome... Qual é o meu nome?
            — Você se chama Conrado? — ela perguntou.
            — Não! — ele disse.
            — Você se chama Ari?
            — Não...
            — Então, talvez... — ela sugeriu. — Você se chama Rumpelstiltskin?
            — Quem, diabos, disse isso? Quem? — o duende vociferava tão raivoso, que afundou o pé direito na terra, junto com toda a perna. Furioso, ele puxou sua perna esquerda com tanta força, com as duas mãos, que ele se partiu em dois, tal qual um livro se rasga.


Fonte:

Rumpelstiltskin. East of the Web. Disponível em: <http://www.eastoftheweb.com/short-stories/UBooks/Rum.shtml>

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Dia 31 de outubro: Saci ou Halloween?

Hoje, 31 de outubro, é comemorado, no Brasil, o Dia do Saci. Mas, também, é comemorado o Halloween – ou Dia das Bruxas –, uma comemoração conhecida mundialmente e que, ainda hoje, influencia muitas crianças e adultos ao redor do globo. Diante disso, o que comemorar? A entidade do folclore nacional ou o evento cultural estrangeiro?


O SACI



            Ele é um menino negro, de uma perna só, com um gorro vermelho, zombeteiro demais e costuma passear pelas florestas e fazendas brasileiras, assustando os viajantes e aprontando com os animais e moradores das regiões. Acho que já sabem de quem estou falando, não é?
            As histórias iniciais sobre o Saci datam do fim do século 18 e início do século 19. Seu nome é de origem Tupi Guarani e, em muitas regiões do Brasil, ele é considerado um ser brincalhão, embora seja considerado malvado em alguns outros. Durante a escravidão, os mais velhos assustavam as crianças com relatos das travessuras do Saci.
            Geralmente, é visto como um negrinho de uma perna só, que fuma um cachimbo e usa na cabeça um gorro vermelho (que lhe dá poderes mágicos, como desaparecer e reaparecer onde quiser).
            Há três “vertentes” do Saci: o Pererê, que é negro; o Trique, moreno e brincalhão; e o Saçurá, que possui olhos vermelhos como o fogo. O Saci também se transforma num pássaro chamado Mati-taperê, o qual possui um canto melancólico que ecoa em todas as direções – dificultando, assim, a sua localização. É o mesmo pássaro que deu origem ao mito da Matinta-Pereira.
Representação do Yaci Yateré
            Uma das características do mito do Saci, é que se diz que dentro de todo redemoinho de vento existe um Saci. Segundo a lenda, se alguém jogar um rosário de mato bento (um amontoado de mato benzido) ou uma peneira dentro do redemoinho, pode capturar o Saci; e caso consiga pegar o gorro dele, ele terá de conceder a você um desejo.
            As origens do Saci, contudo, são incertas. Em Portugal, há relatos de uma entidade parecida, que veste botas vermelhas. No Uruguai, Paraguai e na Argentina, há uma variante em que a criatura é pequena e gorda, de pele vermelha e utiliza um bastão mágico dourado – o Yacy Yateré. Na Alemanha, a lenda fala sobre um anão chamado Kobolde, quase idêntico ao nosso Saci. Nos Estados Unidos, o Gremlin possui características semelhantes.
            Assim, percebemos o quanto o Saci é fruto de uma grande mistura, não só das regiões do Brasil, mas com influências mundiais.


O HALLOWEEN

            O termo Halloween deriva da contração do termo All hallow even, que era a Véspera do Dia de Todos os Santos – as vésperas costumam ser comemoradas na tradição Cristã. Hallow é uma palavra inglesa que significa “santo”. All Hallow’s Day é o Dia de Todos os Santos. A véspera foi chamada de All Hallow Even.
            Mas a história do Halloween data de muito antes. É provável que tenha surgido centenas de anos antes de Cristo. Originalmente, os celtas, por volta de 500 a.C. (antes de Cristo), celebravam o Samhain, uma festividade que acontecia ao fim de outubro – na noite de 31 de outubro –, quando, de acordo com eles, fantasmas e demônios vagam pela Terra mais do que nos dias restantes. O Samhain era o início de três grandes fatos: o fim da colheita, o Ano Novo celta e o início do inverno, “a estação do frio e da escuridão”, um período associado aos mortos. Nesse período, eles acreditavam que era possível entrar em contato com os desencarnados.
Representação do Samhain
            Para representar o sobrenatural, os celtas de trajavam com peles e cabeças de animais abatidos para o inverno. Eles utilizavam leite e comida para acalmar os visitantes do além – hoje, são utilizados os doces; também, acendiam fogueiras para espantar os seres sobrenaturais.
            Muito tempo depois, no século 9, houve a expansão do Cristianismo na Grã-Bretanha. E, na tentativa de acabar com a festividade pagã (tendo por Pagão tudo que não era Cristão), o papa Gregório III consagrou o dia 1º de novembro para a celebração de Todos os Santos, em honra aos mártires. E como o Cristianismo comemora, também, as vésperas de suas celebrações, o dia anterior foi nomeado All hallow even. Depois, o nome foi encurtado para Hallowe’en.
            Apenas no século 18 é que o nome da festa passou a ser grafado como Halloween. No século 19, com a mudança das população irlandesa para os Estados Unidos, também foram levados os costumes do Halloween, que com o tempo se fundiram aos costumes similares de imigrantes da Grã-Bretanha, Alemanha, África e outras partes do mundo. Do século 20 para cá, a festividade ganhou proporções gigantescas: no mundo inteiro, o comércio de itens relacionados ao Halloween se transformou numa indústria multibilionária.

SIMBOLOGIA DO HALLOWEEN
Jack-o'-lanterns
 - Jack-o’-lantern (a abóbora iluminada): o rosto assustador esculpido em abóboras é o símbolo mais conhecido da festividade e representa uma antiga lenda celta. Jack, um homem mesquinho condenado a vagar pela eternidade, pediu uma brasa ao diabo e a colocou dentro de um nabo para iluminar o seu caminho. Após a imigração para os Estados Unidos, a planta foi trocada pela abóbora acesa com uma vela, pois o nabo era de menor cultivo na América.


- Travessuras ou gostosuras: segundo a lenda celta, o caos reinava na noite de Halloween. Era comum deixar leite e comida na porta de casa para acalmar os espíritos do além. A moda pegou e, até hoje, quando as crianças saem para pedir doces e não são atendidas, ameaçam pregar um susto, como os espíritos fariam.

- As bruxas: para os celtas, as bruxas eram mulheres que se diferenciavam por conhecer poderes terapêuticos de plantas e ervas; faziam parte da comunidade e podiam participar normalmente das festividades. Contudo, no século 9, o Cristianismo atribuiu uma imagem distorcida a essas mulheres. Após isso, as bruxas ficaram conhecidas como mulheres assustadoras que usam a magia para fazer o mal.

- Fantasias: o costume de fantasiar-se surgiu com os celtas, que se vestiam com pele e cabeça de animais mortos para o inverno. A ideia era passar pelos espíritos como um ser sobrenatural e não ser aterrorizado. Hoje em dia, a coisa se diversificou – vampiros, múmias, lobisomens e outros personagens são presença garantida no Halloween, graças à influência das grandes produções Hollywoodianas.


            Com isso, não há como escolher qual festividade comemorar. O Saci é um elemento nacional, mas há notáveis características que provam influências estrangeiras em sua constituição. O Halloween é uma festividade estrangeira, mas notavelmente atingiu o mundo inteiro e conquistou diversas nações e culturas.
            Comemoremos o Halloween e lembremo-nos do Saci. Falem para suas crianças sobre os dois. Quem sabe, um dia, o nosso folclore ganhe proporções mundiais?


Fonte:
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-a-origem-da-comemoracao-do-halloween
http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-a-origem-do-saci-e-de-outros-seres-do-folclore-brasileiro
http://sitededicas.ne10.uol.com.br/folk_saci_perere3.htm
http://www.dicio.com.br/rosario/

http://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/g201309/origem-do-halloween/

sábado, 31 de maio de 2014

Conto: O Mistério da Fênix - Parte final


AS RAÍZES DA ALMA


Serra da Cantareira, Mairiporã, Brasil. Maio de 2014.

A vida de Breno havia tomado rumos que, até então, desconhecia. Tudo porque havia decidido agir como herói e ajudar uma moça em perigo – ou que parecia estar em perigo. Havia momentos em que interpretava o surgimento de Régia em sua vida como uma maldição, que trouxe tudo abaixo. Em outros, o garoto achava que ter conhecido a índia o libertou de sua prisão, a prisão interior.
            Estava ali, dentro de uma rocha encantada pela luz da lua, com uma índia e outra mulher misteriosa. O que mais viria a seguir, ele não fazia ideia e temia pensar.
            — Bem, acho que quer, antes de tudo, saber quem é a Naiá, de fato — supôs a mulher da rocha. — Não é?
            — Naiá? Se está falando da Régia, sim. Seria legal — respondeu Breno, olhando sem jeito para a índia.
            — Cari, eu prometi que contaria — disse Régia.
            — Então pode contar, Naiá — disse a mulher. — Vou lá fora ver se está tudo bem.
            A mulher desapareceu na escuridão, como mágica. Breno voltou o olhar para a índia.
            — Bem... — Régia sentou-se diante de Breno. — Eu tenho, digamos, alguns séculos de existência. Nasci em 1500, logo que os portugueses chegaram nesta terra. Fui batizada com o nome de Naiá. Quando eu era moça, exatamente como sou hoje, eu me vi fascinada pela lua. Toda noite eu saía da floresta para vê-la, escondida de meus pais e da tribo.
            Breno olhava incrédulo para a índia, embora não estivesse desatento, não havia tirado o olho de Régia.
            — Certa noite, aproximei-me de um rio e vi a lua nele. Estava tão próxima — as memórias da índia pareciam vir freneticamente. — Fiquei extasiada com aquilo. Vi uma oportunidade de chegar até ela, nadando. Sem pensar, saltei na água em direção à lua. Mas era apenas um reflexo, e eu não sabia. Morri ali mesmo, afogada.
            — Morreu? — Breno questionou, indignado.
            — Sim. Morri — confirmou a índia. — Mas Jaci, a lua, salvou a minha añã, a minha alma. Transformou o meu corpo em uma bela flor das águas e resgatou minha alma. Desde então, tenho Jaci como uma mãe e vivo com ela.
            — A lenda da Vitória-Régia! — lembrou-se o garoto. — Você é a planta!
            — Não — a índia soltou um riso. — Eu sou um espírito. A planta foi originada a partir de meu corpo físico. Não costumo utilizar o nome de Vitória Régia. Apenas Régia. E Naiá, como viu minha mãe chamar. Bem, é isso.
            — Uau! — Breno estava tentando se manter calmo, mas uma corrente elétrica percorria o seu corpo. — Eu diria que isso é folclore. Mas estou vivendo tudo isso... É impossível!
            — Eu sei que parece loucura — concordou Régia. — Mas não é.
            — E a Jaci? — indagou o rapaz. — Se ela é a lua e tem poder para salvar sua alma, ela é uma deusa?
            — Não é bem assim — Jaci surgiu novamente da escuridão, surpreendendo o garoto. — Não nos reconhecemos de tal forma. Acreditamos que essa palavra acabaria nos tornando seres imponentes, autoritários e onipotentes. E não somos isso.
            — Não são? — estranhou Breno. — Então você não é a única?
            — Mas é claro que não — a mulher riu. — Somos muitos. Mas somos divindades. Fomos criados por uma energia muito maior para cuidarmos da Terra e auxiliarmos vocês, mortais, em suas experiências terrenas.
            — Deus criou vocês? — questionou Breno.
            — Não — respondeu Jaci, com um ar de mistério. — Quem criou tudo o que há no Universo, quem criou toda a vida existente, foi Nhanderuvuçu.
            — Quem? — aquele nome pareceu um xingamento para o menino.
            — Também conhecido como Nhandejara, ou Nhamandú, meu pai é a energia maior e criadora do Universo — explicou Jaci. — É energia que nos ronda, que sempre existiu e sempre existirá. No princípio de tudo, criou as duas energias secundárias, uma positiva e a outra negativa, as quais ele chamou de añã, ou alma. Juntou as duas e formou añãdeci, a matéria. Então ele criou a água, a terra, as vegetações, os animais, e nos criou para tomar conta de cada parte.
            — E o Mão de Luva? — questionou Breno. — O que ele tem a ver com tudo isso?
            — Bem, ele era um mortal — contou Jaci. — Ele nasceu por volta de 1740. Tornou-se garimpeiro e seu nome era Manoel. Ele era um português muito ambicioso, roubou alguns dos tesouros que encontrou e os escondeu em grutas por todo o país. Mas ele não apenas escondia os tesouros, ele os oferecia para uma divindade muito perigosa em troca de riqueza eterna, de vida longa.
            — Uma divindade do mal? — questionou Breno.
            — Mais ou menos — disse Jaci. — Jurupari é meu irmão e também foi criado por meu pai. Mas ele se alimenta do mal, é conhecido como O Senhor da Escuridão. Ele mata muitos pobres coitados em seus pesadelos, pois eles não conseguem acordar e nem gritar, morrendo asfixiados.
            — Então ele é mau, sim! — insistiu Breno.
            — Breno... — Régia chamou a atenção do garoto.
            — Desculpe... — o menino percebeu que estava falando do irmão da mulher.
            — Enfim... — prosseguiu Jaci. — Manoel entregou a alma para Jurupari, que cobrou quando a hora chegou. Em 1786, quando foi aprisionado por seus crimes em Vila Rica, local hoje conhecido como Ouro Preto, Manoel tentou se suicidar. Mas Jurupari surgiu oferecendo algo melhor. Ofereceu transformá-lo em um espírito para cumprir as ordens da divindade para a eternidade.
            — Então o Mão de Luva é um capanga do demônio? — Breno pareceu aterrorizado.
            — Jurupari não é um demônio — repetiu Jaci.
            — Certo. Desculpe — pediu Breno. — Mas é que esse cara está atrás de mim!
            — O Mão de Luva fundou uma facção. A Organização Anhangüera — revelou Jaci. — Uma facção que deseja destruir todos os seres espirituais e possuir um dos maiores tesouros do mundo espiritual, a Fênix. Ele nunca foi visto desde então, mas é temido pelos animais e pelos seres espirituais. Até alguns de meus irmãos têm medo dele, por ele trabalhar para Jurupari.
            — A Fênix? — Breno balançou a cabeça e passou a mão no rosto. — O pássaro de fogo?
            — Ela não é um pássaro de fogo — corrigiu Jaci. — Angra, minha irmã, surgiu de uma centelha divina durante o processo de criação de nosso pai. Ela é a divindade do fogo. E, por ser tão agradecida ao nosso pai, ela arrancou uma das partes mais importantes do seu corpo espiritual, o coração, e modelou uma criatura para presenteá-lo.
            — Ela fez o quê? — o garoto ficou pasmo. — Ela arrancou o próprio coração para dar de presente?
            — Nosso coração não é o nosso órgão vital — explicou Jaci, imediatamente. — É o nosso órgão de sentimentos. Então ela não morreu por isso... Mas foi um grande gesto, sim. Essa criatura que ela moldou foi a Fênix, que é um pássaro assexuado. Feito a partir do coração em chamas de Angra, ele é invulnerável ao fogo, podendo ser queimado apenas pelo fogo emitido de seu próprio coração, em um processo de autocombustão.
            Breno sentiu um calafrio no momento.
            Tentou relacionar a invulnerabilidade ao fogo da Fênix com a sua. E, em seguida, achou aquilo um absurdo, afastando o pensamento. Aquilo, sim, era pura idiotice.
            — As lágrimas da Fênix podem curar qualquer ferida ou doença. Sua força permite carregar peso seis vezes maior que o seu corpo — contou Jaci. — O pássaro possui um ciclo de vida de cem anos e quando sente que está prestes a morrer, prepara uma pira de ramos de canela, sálvia e mirra, e então se incendeia.
            — Mas aí ele renasce, não é? — Breno se esqueceu, por um momento, que estava falando de um mito. Para ele, tudo aquilo era real agora.
            — Sim — afirmou Jaci. — A Fênix sempre renasce a partir de suas cinzas, demonstrando a sua imortalidade e o renascimento espiritual. Então, começou a surgir a fala de que aquele que comer da carne da Fênix será imortal. Outros dizem que as cinzas da Fênix podem levantar até os mortos. Mas o pássaro está desaparecido desde seu último ciclo de vida, que finalizou há dezoito anos.
            — A Fênix é um dos seres espirituais mais poderosos do Universo — comentou Régia.
            — Estou vendo... — disse Breno. — Olha... Se isso tudo é real... Então o Mão de Luva deve estar procurando a Fênix para conseguir a imortalidade, isso? Mas ele já não é um espírito eterno?
            — Não — respondeu Jaci. — Jurupari deu trezentos anos para ele cumprir suas ordens. E o prazo está vencendo. Após isso, seu espírito irá se incendiar e desaparecer para sempre. Por isso ele busca a Fênix. Ele poderá utilizar a imortalidade para si e Jurupari planeja erguer os mortos.
            — Todos os mortos? — perguntou Breno. — Mas eles não estão sem suas almas?
            — Exatamente — confirmou Jaci. — Imagine o que um homem é capaz de fazer sem sua alma. Imagine todos os homens que já morreram... Um exército de desalmados.
            Breno colocou as mãos no rosto e deu um profundo suspiro.
            Ele ainda não compreendia o seu papel em tudo aquilo. Não entendia o propósito de Régia em ter levado ele até ali, para aquela divindade da lua contar-lhe tudo sobre o que ele achava ser puro folclore.
            — Olha, vai parecer um pouco ignorante da minha parte... — avisou o garoto. — Mas o que tenho a ver com tudo isso?
            Régia e Jaci sorriram juntas, o que deixou o menino ainda mais confuso.
            — Você tem uma marca em seu braço, não tem? — adivinhou Jaci.
            — Sim, uma mancha... — respondeu Breno. — Mas todo mundo acha que é uma tatuagem, porque é tão bem definida.
            — E você tem um segredo, não tem? — perguntou Jaci, enigmática.
            — Segredo? — ele ficou surpreso. Não imaginava como ela podia saber sobre isso.
            — Sobre o fogo — cutucou Régia.
            — É. Tenho — disse Breno. — Eu meio que sou invulnerável ao fogo...
            — Breno, você tem uma história especial — revelou Jaci. — Sei que sua vida tem sido muito difícil e repleta de provas. Mas você precisa acreditar que um futuro melhor o espera.
            — Não entendo, Jaci... — o menino tentava não olhar para a divindade.
            — Os seus pais se propuseram a algo muito inusitado — disse Jaci. — Há dezoito anos, quando faziam uma pesquisa na Amazônia, foram procurados por alguém. Descobri isso muito recentemente, por isso pedi a ajuda de Régia. Angra, a criadora da Fênix, estava muito preocupada com o destino de sua ave, o presente que dera ao nosso pai, por conta dos planos mirabolantes de Jurupari. Ela decidiu, então, fazer algo inédito. Ela quis transferir o espírito da Fênix para o corpo de um humano.
            — E como ela conseguiu isso? — indagou Breno. — Isso mataria o humano, não?
            — Sim, isso faria com que o humano virasse pó, literalmente — concordou a divindade lunar. — Mas ela foi esperta. Há algum tempo, duas divindades experimentaram também algo novo.
            Jaci riu por um momento, demonstrando vergonha.
            — Eu lancei meu espírito na Terra, e consegui entrar no corpo de uma humana. É claro que tive que reduzir o meu nível de divindade para não destruí-la, mas consegui — revelou Jaci. — E uma outra divindade, Guaraci, fez o mesmo com o corpo de um humano.
            — Jaci e Guaraci são amantes antigos — Régia posicionou Breno na história. — Guaraci é o responsável pelo brilho do sol. Sabe aquela velha história, de que o sol e a lua jamais se encontravam?
            Breno tentou segurar o riso, imaginando o que aquilo significava.
            — É. Constrangedor, eu sei — disse Jaci. — Eu e Guaraci nos encontramos na Terra, em corpos humanos. E você pode imaginar o que aconteceu.
            — Então, provavelmente Angra pensou em inserir o espírito da Fênix naquele que seria o filho de duas divindades, ainda que incorporadas em humanos, pois só assim o corpo físico aguentaria o poder da ave? — supôs o garoto.
            — Exatamente — concluiu Jaci.
            — E onde eu entro? — questionou Breno. — Esse alguém que procurou meus pais na Amazônia foi Angra?
            — Sim, Angra os procurou — respondeu Jaci. — Sua mãe estava esperando um bebê, e nem sabia disso ainda. Foi Angra que contou.
            — Meus pais conheceram vocês, então? — estranhou Breno.
            — Foram os corpos de seus pais que eu e Guaraci “possuímos” — revelou Jaci, sem jeito. — É claro que, depois, contamos toda a verdade a eles, que receberam tudo isso muito bem. Foi inacreditável.
            — Eu era a criança que minha mãe carregava na barriga quando Angra foi procurá-la — comentou Breno.
            — Sim — respondeu Jaci. — Eu havia contado à Angra o que acontecera e ela ficou ansiosa para conhecer os seus pais.
            — O que você quer dizer com isso, Jaci? — mais uma vez, o mundo de Breno pareceu rodar.
            O garoto sentiu as pernas amolecerem. Por sorte, estava sentado, caso contrário cairia. Régia tentou se aproximar, mas o garoto fez um gesto pedindo que ela ficasse onde estava.
            Breno desejou acordar e perceber que tudo aquilo não passava de um sonho. Quis voltar para sua prisão interior. Queria poder fugir. A raiva que tomou conta do seu corpo era tão grande, pois começou a pensar que seus pais tivessem morrido apenas por sua causa. Se aquilo fosse verdade... Ele mal conseguia formular os pensamentos.
            — Breno, fique calmo! — gritou Régia, apavorada.
            Uma chama começou a se alastrar das mãos e dos pés do garoto em direção ao centro de seu corpo. Ele percebeu e ficou assustado.
            — Fique calmo, criança — suplicou Jaci. — Se você continuar assim, não poderemos ajudá-lo!
            Régia, sem medo, colocou as duas mãos no rosto do menino, que ardia. Ela retirou as mãos por um instante, sentindo o ardor em suas palmas, e então voltou-as para o rosto do garoto, tentando acalmá-lo.
            — Eu estou aqui, contigo — disse a índia, serenamente. — Fique calmo, tudo vai ficar bem, eu prometo.
            O fogo já chegava aos ombros e às coxas quando as chamas começaram a se apagar. Régia soltou um suspiro de agradecimento. Jaci olhou para cima e agradeceu.
            Breno tremia. Ele se sentou novamente, com a ajuda de Régia, que segurava a sua mão. Percebeu que Jaci o olhava profundamente, transmitindo uma calma intensa.
            — Jaci... — já recuperado, o garoto fitava a divindade da lua, como que implorando por uma certeza. — Isso quer dizer que...

            — Isso, Breno — Jaci acenou com a cabeça. — Você é a Fênix.