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domingo, 8 de novembro de 2015

Crônica - O que o Horácio quer?

O QUE O HORÁCIO QUER?
Júnior Gonçalves | 6 de nov. 2015 – às 16h15


            Horácio, um pré-adolescente de 12 anos e morador da periferia de São Paulo, tem vontades e mil sonhos. A sua mãe, Maria, trabalha como doméstica nos grandes lares e nos apartamentos luxuosos da zona sul e, à noite, faz a graduação em Gastronomia, graças a uma bolsa que conseguiu. José, o pai de Horácio, trabalha como vigia noturno num condomínio localizado na área central da cidade.
            Quando chega da escola ao meio-dia, o Horácio toma um copo de suco e já sai de casa outra vez – é que, como a sua mãe trabalha durante o dia e o seu pai dorme durante esse período, o menino não pode ficar sozinho na rua. Por isso, foi matriculado num Centro para Crianças e Adolescentes.
            Durante o período da tarde, Horácio tem acesso a muitas coisas no C.C.A.: almoço, café da tarde, atividades esportivas, artísticas e socioeducativas, cultura, lazer, conhecimento, festas de aniversário, excursões... É atividade que não acaba mais!
            Ainda assim, parece que falta algo para o Horácio. Mesmo com todo o apoio e incentivo fornecido pelos educadores e demais funcionários da instituição, o Horácio não se sente satisfeito. Mesmo com todas as oportunidades que lhe são oferecidas em todas as tardes, o Horácio não se sente satisfeito. Na maior parte do tempo, o Horácio está fazendo alguma coisa para chamar a atenção para si. Por vezes, isso acaba em discussões ou brigas, obrigando a presença dos pais para uma conversa em busca de soluções.
            É nesse momento que o Horácio começa a sentir-se satisfeito: no momento em que enxerga os seus pais, Maria e José, tentando resolver o problema do filho, dando atenção para a sua vida.
            Não é que Maria e José não deem atenção ou não se importem com o Horácio. Mas lhes falta tempo. Maria só chega em casa à meia-noite e, aos finais de semana, preocupa-se com os trabalhos da faculdade e com as tarefas domésticas. José trabalha durante a noite e dorme para descansar durante o dia – então, nada de barulho para não o acordar. Quando o Horácio chega em casa ao fim da tarde, ele só consegue ficar com o pai por uma hora (que é o tempo que José tem para se trocar e alimentar o filho); depois disso, o menino fica sob os cuidados da avó até que a mãe chegue da faculdade.
            Então, sim, o Horácio se satisfaz quando os pais são chamados à escola ou ao C.C.A., pois esses são os momentos em que a família dele se une por ele e com ele. Justamente por isso, infelizmente, as broncas e os castigos já não funcionam mais com o menino, já que ele pode fazer de tudo para ter mais tempo ao lado do pai e da mãe.

            Horácio, um pré-adolescente de 12 anos e morados da periferia de São Paulo, é um entre muitos que têm vontades e mil sonhos. A maior vontade e o maior sonho do Horácio e desses outros tantos é que as suas famílias lhes reservem, ao menos, meia-hora por dia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O seu gato, por acaso, vai dar o seu diploma?

Quarta-feira, 2 de setembro | 10h07

            Trabalhar com crianças e adolescentes é algo extremamente desafiador. Trabalhar com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social é perturbadoramente desafiador.
            Na função de orientador socioeducativo, atuo com uma turma de crianças e adolescentes entre nove e 14 anos de idade. Por conta disso, muitos já estão naquela fase da pré-adolescência, uma fase conhecida por seus impulsos, desejos, questionamentos e inconformidades.
            Tenho uma relação muito aberta e verdadeira com a minha turma – somos sempre transparentes quanto aos nossos sentimentos (entre nós e entre as pessoas que estão a nossa volta). Na última segunda-feira, ao término da atividade, comentei com um dos meninos que eu faltaria na faculdade para cuidar de um dos meus gatinhos de estimação porque ele está muito doente.
            — Júnior, o seu gato, por acaso, vai fazer as suas lições e dar o seu diploma? — foi a pergunta imediata dele.
            Confesso que, na hora, fiquei um pouco surpreso com a entonação da pergunta. Ele, realmente, estava indignado porque eu faltaria na faculdade “apenas” para cuidar do meu gatinho de estimação que está doente e precisa de cuidados.
            — Não... Ele não vai me dar o meu diploma nem fazer minhas lições — respondi olhando nos olhos dele. — Mas, olha só, eu escolhi ter um animal de estimação, não foi? A partir da minha escolha, vieram todas essas responsabilidades. Eu amo o Freddy (meu gatinho) e não vou deixar de cuidar dele... Ele está muito doente, com cálculos no trato urinário. Preciso ficar com ele hoje.
            A indignação do menino continuou ali, firme e forte.
            Então, após as outras crianças saírem para o café, ele veio até a minha mesa:
            — Júnior... — ele falava com a cabeça baixa, sem olhar nos meus olhos. — Eu já não sei mais o que fazer em casa.
            — Como assim? — questionei.
            — Minha mãe chamou todos os meus irmãos para “sair” com ela no sábado e nem olhou na minha cara — ele contou. — Fiquei lá... E ela nem me olhou.
            — Mas você disse que queria sair com ela? — perguntei, tentando aliviar aquela tensão.
            — Não... Mas os meus irmãos também não disseram. Ela não gosta de mim. Ela nem me deixa jogar o meu videogame. Os meus irmãos pegam o videogame e jogam só eles... Eu nem posso tocar.
            — Mas você já falou isso para a sua mãe?
            — Ela comprou o videogame pra mim... Porque eu fico em casa — ele respondeu. — Mas o meu irmão até esconde o videogame pra eu não pegar. E a minha mãe não fala nada.
            — Já tentou dizer isso para a sua mãe? — questionei-lhe. — Que você queria ter saído com ela... Ou que você quer jogar o seu videogame?
            — Não. Porque não vai adiantar — ele concluiu.
Aqui está algo que, infelizmente, acontece muito: a falta do diálogo no âmbito familiar. Foi só, então, que eu compreendi; o menino não estava indignado por eu faltar na faculdade pra cuidar do meu gatinho de estimação. Aliás, talvez o estivesse. Talvez, ver que eu estava tão preocupado com o meu gato (que é um animal) o tenha feito pensar o motivo daquilo não acontecer com ele (que é uma criança).
            Eu, realmente, fico preocupado quando vejo uma criança fazendo tais questionamentos e dando-se conta de suas vidas (por vezes, tão sofrida!). A sensação que tenho é de que a vulnerabilidade na qual se encontra essa criança está tão avançada que, dificilmente, conseguiremos reverter a situação. A menos, é claro, que comecemos a trabalhar diretamente com essas famílias; as famílias precisam enxergar que também estão vulneráveis e que podem contar conosco, agentes sociais.

            Não vou restringir apenas aos profissionais da área social, mas a todo cidadão dentro da sociedade: é nosso dever garantir o direito de outrem.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conto: Toda pessoa tem sentimento?


            — Toda pessoa tem sentimento? — foi o que Felipe questionou naquele momento.
* * *
            Felipe tem apenas dez anos de idade; o seu comportamento não é o melhor exemplo às outras crianças da escola – embora, em casa, suas atitudes sejam muito calmas e respeitosas.
            Silvio, o pai de Felipe, é um ex-presidiário e faz pouco tempo que saiu da prisão. Desde então, tem-se dedicado a perturbar a vida da esposa e dos filhos:
            — Fábio, onde você estava? — questiona Silvio ao filho mais velho, de 15 anos. — Como você sai de casa pela manhã e chega apenas agora, à meia-noite?
            Fábio, cansado das perturbações do pai, havia saído escondido após a escola e ficara ausente pelo resto do dia. O garoto tem andando com uma turma nada confiável: adolescentes usuários de drogas. Fabiana, a mãe, tentou, por diversas vezes, conversar com o filho sobre tal questão citando, até mesmo, o caso do esposo.
            — Eu saí com uns amigos — respondeu Fábio, sem mudar a sua feição (inexpressiva). O menino tem o mesmo jeito do pai: introvertido e que não expressa os sentimentos.
            — Sua mãe me contou quem são seus amigos... — revelou Silvio, avançando para perto do garoto. — Se eu “sonhar” que você está mexendo com drogas, eu mato você!
            Provando que é o “macho dominante”, Silvio dá um tapa no braço do filho.
            Felipe, que está no quarto (os três filhos dormem no mesmo cômodo), acha melhor tentar ajudar ao irmão:
            — Pai, ele ‘tá falando a verdade — comentou Felipe. — Eu vi ele saindo da escola com uns amigos; eram os mesmos que ele sempre traz aqui.
            — Cala a sua boca! — Silvio bate na perna de Felipe, que corre para deitar em sua cama. — Já falei para não se meter no que não te interessa.
            — Silvio! — Fabiana fica exaltada com a situação e avança para cima do marido. — Como você se atreve?
            A mulher move a mão para dar um tapa na cara do esposo, mas Silvio a segura e a prensa na parede do quarto:
            — Não ouse bater em mim — avisou o homem, que olhava profundamente nos olhos da esposa. — Eles são os meus filhos e eu faço o que eu quiser!
            — Não faz, não! — gritou Fabiana. — Você nunca cuidou deles... Eu cuidei deles a vida toda; sozinha! Você não pode chegar e fazer o que quer com eles!
            Silvio, cheio de raiva, encara a mulher. Fabiana, por sua vez, sai do quarto e vai para o banheiro lavar o rosto. Felipe e Fábio dormem sem comentar o que aconteceu e sem trocar olhares. Enquanto isso, Roberta, a caçula, chora escondida em sua cama.
            Dois dias se passam e Felipe, na tentativa de chamar a atenção da mãe, provoca Fabiana para que ela fale com ele:
            — Duvido você olhar pra mim — provoca Felipe por repetidas vezes.
            — Chega! — sem pensar, Fabiana dá um tapa no filho.
            Logo em seguida, a mulher começa a chorar e pede perdão ao filho:
            — Felipe, me perdoa! — implora Fabiana. — Eu estou nervosa e você está me provocando, não fiz isso por querer... Me desculpa!
            O menino consente com a cabeça e vai para o seu quarto.
            No fim da tarde, quando o pai chega em casa, o homem vai direto ao quarto dos filhos:
            — Felipe? — Silvio chega cheio de raiva no quarto do menino. — O que foi que você fez com sua irmã?
            — Eu não fiz nada, pai! — responde o menino, preocupado.
            — Ela está chorando e dizendo que caiu da cama... Você a empurrou? — de tão alterado, Silvio acaba cuspindo algumas gotas de saliva no rosto do filho.
            — Eu nem falei com ela hoje, pai — insiste Felipe, quase chorando.
            — ‘Tá chorando por quê? — questiona Silvio, retirando o cinto de sua calça. — Eu nem bati em você ainda!
            — Pai, não me bate, por favor! — suplica Felipe, deixando suas lágrimas escorrerem. — Eu não fiz nada, eu juro!
            Silvio joga o cinto no chão e sai do quarto. Em instantes, o homem volta com um facão na mão:
            — Pai, o que você vai fazer? — Felipe começa a tremer e a chorar desesperadamente. — Eu não fiz nada!
            De fato, Felipe não havia feito nada. Roberta, num sono pesado, acabara rolando da cama e caindo sozinha; mas Silvio não queria saber, ele não se importava em saber se os filhos falavam a verdade ou não; ele nem se importava, na verdade, com os filhos.
            — Cala a boca! — num ímpeto, o homem move a mão com a faca na direção do braço esquerdo do filho, mas, por alguma razão, ele vira a lâmina e encosta apenas a lateral do facão na pele do menino.
            Felipe, chorando, sai correndo para fora de casa.
* * *
            Com medo de voltar para casa, Felipe não se preocupa em trocar a roupa para ir à escola; vai da forma que está.
            Na sala de aula, o professor conversa sobre a questão do bem e do mal – comenta o fato de que o bem e o mal existem dentro de todo o mundo; explicou que as motivações é que fazem as pessoas escolherem se agirão com bondade ou com maldade.
            O professor percebe certa ansiedade na feição de Felipe e decide “provocar” o aluno:
            — Felipe... — comenta o professor. — Você quer perguntar algo?
            Diante daquilo, o menino só consegue pensar na família – para ele, a família não lhe dá atenção alguma; para ele, o pai lhe odeia; para ele, a mãe até gosta dele, mas não pode fazer muito por ele. Um turbilhão de pensamentos toma a sua mente.
            Felipe acha que, talvez, as pessoas não consigam sentir nada por ele. Então, ele solta a pergunta:
            — Professor... — sua voz demonstra certa apreensão.
            — Pode-me perguntar, Felipe — o professor incentiva.

            — Toda pessoa tem sentimento? — é o que Felipe questiona naquele momento.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quando nasce a intolerância?

            Pra quem ainda não sabe, estou trabalhando como Orientador Socioeducativo num Centro para Crianças e Adolescentes aqui da zona norte de São Paulo. Minha turma conta com cerca de vinte e cinco crianças na faixa etária dos nove aos quinze anos de idade.
            Antes mesmo de entrar lá, eu já havia elaborado um projeto de fomento à leitura e à escrita; mas, quando soube que faria parte da equipe de Orientadores, expandi o projeto e dividi-o em três eixos. Hoje, o projeto consiste no Palavreando, no Fazendo Arte e no Socializando – os três, trabalhados simultaneamente, propiciaram a criação de um quarto: a Mostra Cultural.
            Cada projeto foi nomeado de forma que seu nome o defina.
            O Palavreando objetiva estimular a leitura e o desenvolvimento da escrita; nele, trabalharemos a produção de diversos gêneros: mapas, manchetes, poemas, notícias, narrativas, quadrinhos, rótulos, receitas, gráficos, placas etc. Isso fará com que as crianças e os adolescentes conheçam as possibilidades tanto no mundo da leitura como no da escrita – na escrita, por exemplo, elas aprenderão que não precisam só copiar, mas que elas podem criar.
            O Fazendo Arte será focado na apreciação de obras de arte, filmes, músicas e fotografias. Contextualizarei cada gênero de acordo com as necessidades encontradas na turma; discutiremos sobre os possíveis significados de cada obra; conheceremos os autores e o contexto sociocultural de cada obra. Após todo esse trabalho, no caso das obras de arte, realizaremos releituras e versões – isso permitirá que eles se apropriem dos detalhes passados despercebidos, bem como desenvolvam sua criatividade e sua criação.
            O Socializando foi criado, especialmente, para fazer com que a opinião das crianças e dos adolescentes seja ouvida – afinal, eles também fazem parte da Sociedade e têm o direito de opinar em todo e qualquer debate. Para isso, levarei discussões sobre temas contemporâneos, mas também discutirei temas os quais são evitados: morte, medos, futuro etc. Ainda no Socializando, criaremos um blogue destinado à postagens das atividades realizadas durante o ano, além das mensagens e bilhetes que eles escreverão sobre cada tema discutido.
            A Mostra Cultural, que tem previsão para acontecer ao fim do semestre, será um evento idealizado por eles desde o início: decoração do espaço, produção dos convites, organização das atividades a serem exibidas etc. Isso fará com que eles conheçam o processo de produção de um evento, onde cada um é responsável por uma parte para que todo o grupo consiga exercer o trabalho final.
            E de uma semana e meia pra cá tem sido assim: produções, discussões, ideias... Desde ontem, por conta do Carnaval que está por vir, estamos trabalhando sobre o tema: ontem, fizemos uma pintura do quadro Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral – falamos um pouco das características carnavalescas que o quadro traz; hoje, pedi que eles retratassem no papel (em desenho ou em texto), aquilo que eles imaginam ao ouvir a palavra Carnaval.
Um Sábado Qualquer
            Nesse momento, ouvi um comentário: “Carnaval não é de Deus!”. No mesmo instante, uma das crianças veio me questionar isso. Perguntei à criança que disse a frase se ela sabia o que estava dizendo; então, outra criança repetiu: “Mas Carnaval não é, mesmo, de Deus, Júnior!”. Então, decidi explicar um pouco sobre a festa conhecida mundialmente.
            Contei às crianças que, possivelmente, a palavra carnaval tem dois significados: carne vale – que significa “adeus, carne!”; e carne levamen – que significa “supressão da carne”. Ambos os significados remetem ao que conhecemos hoje na festa – o período que antecede a Quaresma, uma “pausa” de quarenta dias nos excessos cometidos durante o ano; um período em que a religião católica acredita que se deve existir a privação da carne.
            Pedi às duas crianças que insistiram que a festa “não é de Deus”, que não tentassem impor isso às demais crianças, pois cada um é livre para acreditar ou não acreditar no que quiser. Com isso, uma outra criança comentou: “Júnior, eu acredito em outros deuses, como Buda, os deuses gregos, os deuses africanos...”. Isso gerou uma polêmica ainda maior. Do outro lado, alguém disse: “Deuses africanos? Credo! Eu não gosto de africanos...”.
            Aquilo me deixou surpreso e triste, ao mesmo tempo. Eu fiquei sem saber como agir. Pedi à criança que não disse mais aquilo, pois era um desrespeito muito grande, um preconceito. Expliquei que, no mundo, existem milhares de culturas, e cada cultura acredita em algo. Comecei a citar alguns dos deuses cultuados ao redor do mundo, hoje e antigamente: Zeus, Poseidon, Hades, Afrodite, Atena, Deus, Tupã, Guaraci, Jaci, Jurupari, Hórus, Ísis, Tot, Set, Lilith, Brama, e disse que há centenas de outros. Isso gerou um alvoroço.
            “Só existe um Deus!”, disse uma criança. Ali, eu percebi que não adiantaria continuar com aquela conversa; não naquele momento, sem um preparo maior. Pedi, mais uma vez, que ninguém tentasse impor seu Deus aos demais, que cada um acreditasse no que quisesse, mas guardasse essa crença para si. Mas planejo voltar com esse assunto em breve, pois acredito que deva ser discutido.
            O que eu quero dizer, é que esse episódio, nada mais, é fruto da intolerância religiosa praticada mundialmente. É o exemplo que deixamos para as nossas crianças: imponham suas crenças às demais, pois somente a sua crença é a correta. Mas, agindo assim, nenhuma nunca vai ser a correta, e as mortes e discriminações por intolerância vão continuar acontecendo.
            Nós, adultos, temos o dever de rever os nossos conceitos. É isso mesmo que queremos deixar para as crianças? Queremos, mesmo, mostrar a elas que, no mundo, apenas um deus é o verdadeiro? Chega dessa luta idiota e ignorante! Vamos mostrar às crianças que o mundo é feito de diferenças, é feito de peculiaridades, é feito de culturas distintas.

            Vamos mostrar às crianças que o mundo precisa ser feito de respeito.

terça-feira, 4 de março de 2014

Conto - O Gigante Egoísta

O conto a seguir é uma tradução feita por mim do original "The Selfish Giant", publicado por Oscar Wilde na coletânea de contos "The Happy Prince and Other Tales", em 1888.



      Toda tarde, no caminho de volta da escola, as crianças tinham o hábito de ir ao jardim do Gigante para brincar.
     Era um jardim grande e encantador, com a grama verde e macia. Em um ponto e outro, sobre a grama, lindas flores se erguiam, assim como as estrelas surgem no céu[1]. Havia doze pessegueiros que, na primavera, brotavam delicadas flores de cor rosa perolada, e carregava-se de frutos suculentos no outono. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão graciosos que as crianças costumavam parar suas brincadeiras para ouvi-los.
        — Como somos felizes aqui!  gritavam umas para as outras.
        Um dia, o Gigante retornou. Ele fora visitar seu amigo ogro da Cornuália, e com ele havia ficado por sete anos. Após se passarem sete anos, ele já havia dito tudo o que tinha para dizer, pois sua conversa já não se estendia mais, e decidiu retornar ao seu castelo. Quando chegou, ele viu as crianças brincando no jardim.
       — O que vocês fazem aqui? — vociferava o gigante, com rouquidão na voz, e então as crianças fugiram.
        — O jardim é meu. Só meu![2] — disse o Gigante — Qualquer um entende isso, e não vou permitir que ninguém brinque aqui, exceto por mim. — assim, ele construiu um muro alto ao redor do jardim e pendurou uma placa de aviso[3]:
        OS INVASORES SERÃO PUNIDOS!
        Ele era um gigante muito egoísta.
        As pobres crianças não tinham mais onde brincar. Elas tentaram brincar na estrada, mas lá havia muitas pedras e poeira[4], e elas não gostaram disso. Elas costumavam perambular em volta do muro quando suas aulas acabavam e conversavam sobre o lindo jardim ali de dentro.
        — Como éramos felizes lá! — diziam umas para as outras.
        A Primavera então chegou, havia pequenas flores e passarinhos por todo o país. Apenas no jardim do Gigante Egoísta ainda era inverno. Os pássaros não se preocuparam em cantar lá, já que não havia crianças, e as árvores se esqueceram de florescer. Certa vez, uma linda flor ergueu a cabeça para fora da grama, mas deslizou de volta para a terra quando viu a placa de aviso, sentindo muita pena das crianças, e voltou a adormecer. As únicas que estavam satisfeitas eram a Neve e a Geada.
        — A Primavera se esqueceu deste jardim! — elas berravam. — Então viveremos aqui durante o ano todo.
        A Neve cobriu a grama com o seu manto branco e a Geada coloriu todas as árvores de prata. Então, elas convidaram o Vento Norte para juntar-se a elas, e ele veio. Ele vestia peles, e rugia o dia todo pelo jardim, soprando abaixo as chaminés.
        — Que lugar incrível! — dizia ele. — Precisamos convidar o Granizo para uma visita.
       Assim, o Granizo veio. Todo dia, durante três horas, ele sapateava[5] sobre os telhados do castelo até quebrar a maioria das telhas, e em seguida ele corria pelo jardim o mais rápido que podia. Ele se vestia de cinza, e sua respiração era como o gelo.
        — Não consigo entender porque a Primavera está tão atrasada para chegar. — dizia o Gigante Egoísta, enquanto estava sentado na janela olhando para o seu jardim frio e sem cor ao lado de fora. — Espero que o tempo mude.
        Mas a Primavera nunca veio, e nem o Verão. O Outono presenteou todos os jardins com frutos dourados, mas não deu nenhum para o jardim do Gigante.
        — Ele é tão egoísta. — disse o Outono. Por isso, foi sempre Inverno ali. O Vento Norte, o Granizo, a Geada e a Neve dançavam no meio das árvores.
        Um dia, já acordado, o Gigante estava deitado em sua cama quando ouviu uma melodia graciosa. Soava tão harmoniosa para suas orelhas que ele achou que os músicos do Rei poderiam estar passando por ali. Era, na verdade, um pequeno pintarroxo[6] cantando ao lado de fora de sua janela, mas fazia tanto tempo que ouvira um pássaro cantar que lhe pareceu a música mais bela do mundo. O Granizo, então, parou de dançar sobre o telhado. O Vento Norte cessou seu rugido. E um delicioso a entrou pela janela aberta.
        — Eu acho que a Primavera chegou, finalmente. — disse o Gigante, saltando da cama e olhando para fora.
        O que ele via?
        Ele teve a visão mais extraordinária. As crianças haviam entrado por um pequeno buraco no muro e estavam sentadas nos galhos das árvores. Havia uma criança em cada árvore que o Gigante podia enxergar. E as árvores estavam tão contentes pela volta das crianças que elas cobriram a si mesmas com flores, e balançavam gentilmente seus braços acima das cabeças das crianças. Os pássaros voavam e cantavam com prazer, e as flores olhavam para cima através da grama verde e riam. Era uma cena adorável, mas ainda era inverno em apenas um canto. Era o canto mais distante do jardim e nele havia um menininho de pé. Ele era tão pequenino que não podia alcançar os galhos da árvore, e estava andando em volta dela, chorando com muito sofrimento. A pobre árvore ainda estava toda coberta por gelo e neve, e o Vento Norte soprava e rugia sobre ela.
        — Suba, menininho! — dizia a Árvore, abaixando os seus galhos o mais baixo que podia. Mas o menino era pequeno demais.
        Ao ver aquilo, o coração do Gigante se comovia.
            — Como tenho sido egoísta! — disse ele — Agora eu sei porque a Primavera não veio aqui. Vou colocar aquele pobre menininho no topo da árvore e depois vou derrubar o muro, e o meu jardim poderá ser a diversão das crianças para todo o sempre.
        Ele realmente estava muito arrependido pelo que tinha feito.
        Assim, ele desceu para o térreo e abriu a porta da frente com cuidado[7], saindo para o jardim. Mas quando as crianças o viram, ficaram tão assustadas que todas fugiram, e o inverno voltou para o jardim. Apenas o menininho não fugiu, porque não pôde ver o Gigante chegando, já que seus olhos estavam cheios de lágrimas. O Gigante se moveu de modo rápido para trás do menino e o pegou gentilmente em sua mão, colocando-o na árvore. A árvore derrubou uma flor e os pássaros vieram e cantaram sobre ela, e o menininho estendeu seus braços e os direcionou em volta do pescoço do Gigante, beijando-o. Ao ver que o Gigante não era nem um pouco malvado, as outras crianças voltaram correndo, trazendo consigo a Primavera.
        — O jardim agora é de vocês, pequeninos. — disse o Gigante, pegando um grande machado e derrubando o muro.
     Quando as pessoas iam ao mercado, às doze horas, elas encontravam o Gigante brincando com as crianças no jardim mais bonito que já tinham visto. Elas brincavam durante o dia inteiro, e ao fim da tarde vinham até o Gigante para se despedir.
        — Mas onde está o seu pequeno amigo? — o Gigante perguntou. — O menino que coloquei na árvore. — O gigante gostou especialmente dele porque ele lhe dera um beijo.
         — Não sabemos. — responderam as crianças. — Ele foi embora.
      — Vocês precisam convencê-lo a vir aqui amanhã. — disse o Gigante. Mas as crianças disseram que não sabiam onde ele vivia e que nunca o tinham visto antes, e o Gigante ficou muito triste.
     Toda tarde, quando as aulas acabavam, as crianças vinham e brincavam com o Gigante. Mas o pequeno menino que havia despertado o carinho do Gigante nunca mais foi visto.
        O Gigante era muito amável com todas as crianças, ainda assim ele ansiava por seu primeiro amiguinho, falando dele muitas vezes.
        — Como eu gostaria de vê-lo! — ele costumava dizer.
       Os anos se passaram e o Gigante tornou-se muito velho e fraco. Ele não podia mais brincar, então se sentava em uma enorme poltrona e assistia as brincadeiras das crianças, admirando o seu jardim.
        — Tenho tantas flores bonitas... — ele dizia. — Mas as crianças são as flores mais bonitas de todas!
        Em uma manhã de inverno, enquanto se vestia, ele olhou para fora de sua janela. Ele não odiava mais o Inverno, porque ele sabia que era apenas o adormecer da Primavera e o descanso das flores.
        De repente, ele esfregou os olhos em espanto, olhando e olhando novamente. Com certeza, era uma visão maravilhosa. No canto mais distante do jardim havia uma árvore toda coberta com adoráveis flores brancas. Seus galhos estavam todos dourados e deixavam pender frutos prateados. E, debaixo dela, estava o menininho que ele gostara.
       O gigante correu para baixo, em grande alegria, saindo para o jardim. Ele cruzava a grama com pressa, se aproximando da criança. Quando ele chegou bem próximo, seu rosto ficou vermelho de raiva.
        — Quem ousou ferir você? — ele perguntava. Sobre as palmas das mãos da criança haviam cicatrizes de dois pregos, assim como haviam cicatrizes de dois pregos em seus pezinhos.
        — Quem ousou ferir você? — gritava o Gigante. — Diga-me, que eu vou pegar minha enorme espada e matá-lo.
        — Não! — respondeu a criança. — Estas são apenas as feridas do Amor.
       — Quem é você? — perguntou o Gigante, e um estranho sentimento de respeito tomou conta de si, então se ajoelhou diante da pequena criança.
        A criança sorriu para o Gigante.
       — Uma vez você me deixou brincar no seu jardim, hoje você pode vir comigo para o meu jardim, que é o Paraíso. — disse o menino.
       Quando as crianças correram naquela tarde, elas encontraram o Gigante deitado morto sob a árvore, todo coberto por flores brancas.


[1] O original “stood beautiful flowers like stars” transmitiu-me a ideia de que as flores se erguem pela grama da mesma forma como as estrelas surgem no céu, ora em um ponto, ora em outro.

[2] No original, o Gigante passa exatamente essa ideia de uma criança rebelde, por isso a escolha pela ênfase da expressão.

[3] Ao invés de traduzir “put up” por “colocar”, optei deixar a palavra “pendurar”, pois permite uma melhor elucidação do objeto no muro referido.

[4] Optei por ocultar a tradução de “hard stones” porque, ao meu ver, nós não utilizamos um adjetivo para descrever que “há pedras no caminho”. “Pedras no caminho” já nos permite visualizar que são pedras que atrapalham o caminhar.

[5] O original “rattled” refere-se ao ruído causado pela queda do granizo, um estalar repetido. Sendo um conto infantil com elementos fantásticos, optei pela tradução “sapateava”, para ilustrar um pouco as artimanhas da personagem, além de também trazer à lembrança o mesmo estalar repetido.

[6] Pintarroxo é o nome comum a várias espécies de aves passeriformes da família dos fringilídeos. É uma ave canora.

[7] O “quite softly” do original foi traduzido por “com cuidado”, pois interpreto a ação do Gigante assim. Ele abriu com cuidado para não espantar as crianças do jardim.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Onde reina a esperança.




Ele acordou. O relógio marcava 6:45, estava muito cedo. Virou-se para o lado, e percebeu algo inusitado. A parede do seu quarto estava destruída, com um grande buraco em seu centro. O mais estranho não era isso, mas o que se enxergava do outro lado não era a sua vizinhança.
O menino levantou-se de súbito, assustado. Havia um vasto campo florido no outro lado da parede, uma terra desconhecida. Um grande lago, de uma água acobreada. Definitivamente, ali não era o seu lar.
Tenso, o garoto trocou de roupa e colocou a cabeça para fora do buraco, esperando tê-la arrancada por algo. Por sorte, nada aconteceu. Sua casa já não existia, era somente aquele cômodo, o seu quarto, no meio daquela terra desconhecida. Rodeou o cômodo, e nada encontrou, nenhum vestígio de sua casa, de seus pais.
O medo começou a tomar conta, e então o menino decidiu explorar o lugar, procurar por ajuda. Duas horas de caminhada renderam-lhe apenas desgaste, sede e fome. Lembrou-se de que havia guardado uma maçã em seu criado, e voltou para buscar.
Mas, para a sua surpresa, o seu quarto desaparecera. Ele tinha a certeza de que não havia voltado pelo caminho errado, e nem teria como errar... Mas não encontrou nada. O desespero só aumentou. O menino sentou-se no chão e desabou em prantos. Estava perdido, sozinho, com fome e com sede. E não podia satisfazer nenhuma de suas necessidades.
Ele, então, enxugou os olhos com a camiseta listrada e pôs-se de pé. Pensou em tudo aquilo que lhe dava forças, que o deixava feliz. Pensou em seus pais, pensou em sua casa, pensou em seus amigos, pensou em comida, pensou em brincar. Mas a única coisa que acabou dando certo foi pensar em sonhar. O garoto percebeu que poderia estar sonhando, que tudo aquilo estivesse acontecendo em seu inconsciente, e então fez o que há de melhor a se fazer em um sonho. Desejou água potável. E uma garrafa de água começou a brotar, inesperadamente, da terra. Desejou comida. E árvores passaram a crescer, rapidamente, ao seu redor, dando frutos diversos, alguns desconhecidos. Desejou um abrigo. E, assim, uma cabana se montou sozinha, ao seu lado.
O garoto ficou maravilhado com aquilo. Poderia fazer surgir tudo o que desejasse? Desejou, então, que os pais estivessem ali. Estranhamente, duas criaturas se ergueram da terra, limpando os resquícios de sujeira e ficando de pé, ao lado do menino, sorrindo. Eram seus pais. O menino correu e abraçou-os.
Pronto. Tinha tudo o que queria. Água, comida, um novo lar e seus pais. Mas seriam os três, unicamente, naquele lugar? O menino passou a desejar outras coisas. Amigos, pessoas sábias, pessoas boas. Animais. Desejou, também, alegria, humildade.
E aquele mundo foi se transformando. Em poucos minutos estava totalmente habitado, por seres humanos, animais e plantas. Mas não era um mundo como o qual o garoto estava acostumado. Era diferente.
Havia, no ar, algo que ele jamais conseguira sentir em seu "mundo real". Havia esperança.

sábado, 12 de outubro de 2013

Somos aqueles que podem trazer amor ao mundo!


Ação de criar, produzir, erguer. Criação. Indivíduo da espécie humana na infância.
Indivíduo da espécie humana na infância com a exorbitante e incrível capacidade de criar um mundo onde o amor é a linguagem universal.

Uma criança carrega consigo a pureza. Não tem medo, não tem preconceito, não tem ódio, não faz distinção. Mantém tudo isso, até que vem o adulto e insere todas as outras coisas que destroem esta pureza - com a justificativa de que a vida pede sabedoria. Tolos aqueles que pensam que sabedoria está em ser mais que o outro. Uma criança sabe, mais que qualquer um, que sabedoria é saber erguer um mundo inteiro, com seus habitantes, com suas histórias, entrelaçados em um bom enredo.

Vamos olhar mais aos nossos pequenos. Vamos ajudá-los a construir e erguer o mundo que eles idealizam.
Vamos ressuscitar a criança que fomos um dia. Vamos nos juntar e resgatar essa pureza.

Um feliz dia da criança!

domingo, 12 de maio de 2013

Amor de Mãe



Pedro tinha se levantado há pouco mais de dez minutos. Seus pais ainda dormiam naquela manhã de domingo. Ao menos era o que o garoto acreditava.
- O que está fazendo acordado a essa hora, rapazinho? - o pai do menino entrou na cozinha.
- Pai! - Pedro pareceu nervoso. - Você já acordou?
- Vim apenas buscar um copo de água. - respondeu o pai, percebendo a tensão no garoto. - Você também, não é?
Pedro pensou por um instante. E então ele entendeu que o pai estava lhe ajudando.
- Sim, pai. Estava com sede, já vou voltar para o meu quarto. - disse o menino, sorridente.
O pai de Pedro sorriu, também, e saiu do cômodo. Assim, o menino voltou ao que preparava antes de ser interrompido. Era uma surpresa para sua mãe.
Pouco tempo depois, Pedro embrulhou tudo em um papel amassado que encontrara debaixo de sua cama e amarrou com uma fita vermelha. Ansioso, correu para o quarto dos pais e bateu na porta.
- Entre! - respondia o pai, com a voz abafada, de dentro do quarto.
- Oi pai, oi mãe... - Pedro entrava com as mãos escondidas atrás das costas. - Bom dia!
- Bom dia, meu querido. - respondeu a mãe. - O que está fazendo acordar a uma hora dessas? Aproveite o domingo, vai dormir um pouco mais!
- Estou aproveitando... - respondeu Pedro, com a felicidade estampada no rosto.
- Está? - questionou o pai. - Como?
- Mãe, eu te amo! - declarou-se, de imediato.
- Oh! Meu querido, também amo você! - respondeu a mãe, puxando o menino e beijando-o na testa. - O que é isso aí atrás?
O menino ficou estático. Não sabia se entregava ou não a surpresa para a mãe. Olhou sorrateiro para o pai, que o incentivou com um sorriso cordial.
- É um presente, de dia das mães! - revelou Pedro, entregando o embrulho.
Emocionada, a mãe do menino abriu o presente como uma criança, quase que rasgando o papel.
Ao ver o que se encontrava dentro do presente, ficou calada por um momento, como que em reflexão.
- O que é isso, meu filho? - indagou a mãe.
- Mãe, eu usei uma daquelas forminhas de bolo em formato de coração... Fiz um novo coração pra você. Quando o seu estiver fraco, quero que você troque por este para você viver por mais tempo do meu lado. - explicou Pedro, de modo sério.
Naquele momento, a mãe do menino o abraçou fortemente, e chorou.
- Meu filho, muito obrigada pelo seu presente! - agradeceu a mãe. - Mas saiba que eu já estou, também, dentro do seu coração... E se esse não funcionar, vou morar aí dentro, com você.
O menino abriu um sorriso que amolecia o sentimento de qualquer um.
- Feliz dia das mães, mãe! - disse o garoto, subindo na cama junto aos pais.


Às mães, um feliz dia!

sábado, 4 de maio de 2013

Conto - Alvura renunciada



Solitário, o pequeno menino brincava na soleira da porta de sua casa. Na verdade, estava acompanhado por uma boneca, de olhos profundos, um ventríloquo. A feição do ventríloquo era melancólica, sofrida. Já o menino tinha uma aparência amarga, carregava um semblante sério, pesado, mesmo durante a brincadeira.
A casa era afastada de todas as outras da rua. Ninguém sabia, mas o menino vivia sozinho, não tinha irmãos, pais, tampouco amigos. Assim, exteriorizava toda a solidão de sua alma naquele lúgubre olhar. Sua única companhia, sua única amiga verdadeira, que jamais o abandonara, era aquela boneca.
E os vidros da porta refletiam um segredo obscuro. O interior da casa encobria uma desgraça. Aquele solitário menino era prisioneiro de sua própria perversidade. O abandono lhe tornara um facínora, angustiador, uma criança tenebrosa.
Mas não havia salvação, segundo seus demônios interiores. E apenas aquela boneca conseguia compreender a sua alma, seus anseios, ninguém mais. Nenhuma daquelas crianças que foram até ele puderam entendê-lo e, portanto, ele as resgatou.