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domingo, 6 de setembro de 2015

Unspoken: Minha pequena luz, eu vou deixar brilhar

     "Unspoken: A story from the underground railroad" (Sem falas: Uma história da rota clandestina) é uma história do escritor Henry Cole, o qual, sem utilizar a linguagem verbal, conta sobre uma menina que tem a sua coragem testada ao descobrir um intruso escondido na fazenda onde ela vive.

     Numa disciplina da faculdade (Semântica e Discurso da Língua Inglesa), o professor propôs, como atividade, que criássemos uma história escrita para estas imagens. Fiz, então, além da história em língua inglesa, uma versão em língua portuguesa para compartilhar com os leitores do blogue; leiam-na a seguir.




     Durante a Guerra Civil Americana, havia uma família vivendo numa fazenda no interior do estado do Kentucky. A família era constituída por quatro membros: o Velho Macdougal era o proprietário junto à sua esposa, a Sra. Mirth; mas, lá, também viviam a sua sobrinha Dorothy e a sua neta Abigail. A Fazenda do Velho Macdougal era conhecida por todos na região.


     Certo dia, enquanto levava a vaca Mimosa para pastar acompanhada pelo seu bichano Freddy, Abigail avistou alguns homens estranhos montados em seus cavalos entrando na propriedade da fazenda. Eles estavam armados e vestidos com roupas esquisitas; o primeiro da fila segurava uma bandeira com uma espécie de "X" azul desenhado sobre o fundo vermelho.



     Abigail, Mimosa e Freddy ficaram parados assistindo os homens indo embora e percorrendo todo o perímetro da fazenda.
       ― Mas que gente esquisita! ― Abigail comentou com seus amigos animais, que não lhe responderam. ― Pobres cavalos... Não deve ser fácil aguentar aqueles homens com aquelas roupas pesadas.




      Então, a menina deu continuidade às suas tarefas. Todo dia, Abigail ajudava a avó e a tia com os animais da fazenda: pela manhã, a menina levava a vaca Mimosa para pastar; depois, alimentava o galo e as galinhas e, por fim, pegava algumas batatas no armazém para levar à vovó Mirth.
     O que Abigail mais gostava era de alimentar as galinhas. A menina adorava estar rodeada pelos bichinhos. 



      Porém, naquele dia, enquanto alimentava as galinhas, Abigail foi interrompida pela tia Dorothy:
      ― Querida, busque algumas batatas no armazém para mim! ― pediu Dorothy. ― Preciso fazer a sopa do jantar.



      Para a menina, o armazém era um dos lugares favoritos da fazenda: era escuro e carregava um ar misterioso; ela e Freddy brincavam muito ali. A menina largou o saco de milho e correu para o armazém com o seu bichano.



      Enquanto escolhia as melhores batatas para a tia Dorothy, Abigail ouviu algo estranho. O barulho vinha do monte de talos de milho jogado no canto do armazém; as folhas farfalhavam enquanto Freddy cheirava pelas beiradas.
       Preocupada, Abigail se virou para tentar observar melhor o monte de talos.



       Para o horror da menina, havia algo de estranho ali.
     Ela se aproximou mais do monte de talos de milho para tentar enxergar melhor: sim, havia alguém no meio daqueles milhos olhando diretamente para a menina – os olhos eram castanhos e carregavam um misto de curiosidade e pavor.



      A menina, desesperada e assustada, correu para fora do armazém com o bichano Freddy. Ela corria afoita, olhando para trás, com medo de ser seguida.



      Quando chegou à soleira da porta de casa, Abigail largou o cesto com as batatas (que se esparramaram pelo chão!) e parou para recuperar o fôlego. Ela estava totalmente apavorada.



      Mais tarde, quando o jantar já estava servido, Abigail ainda estava preocupada; ela não havia saído mais de casa durante o resto do dia. À mesa, com a sua família, mal se concentrava na oração de agradecimento.



     Então, quando o Velho Macdougal, a vovó Mirth e a tia Dorothy foram dormir, Abigail pegou um lampião e saiu escondida para fora da casa. Na noite fria e escura, a menina carregava um pedaço de pão enrolado num tecido xadrez.



      Com a curiosidade bem maior do que o seu medo, Abigail logo começou a conversar com a pessoa que se escondia ali. Foi quando ela descobriu que era um jovem homem negro:
      ― Por que você está escondido? ― perguntou a menina.
      ― Porque tem gente má querendo me pegar ― respondeu, com o estômago roncando.



      Abigail voltou para casa, ainda escondida, para tentar ajudar aquele homem. Viu a vovó Mirth tricotando (ou dormindo!) e aproveitou o momento.



       Aproveitando que ninguém estava por perto, Abigail conseguiu pegar tudo o que pôde na cozinha: um pedaço de torta, uma batata cozida, um pedaço de bolo de aipim e uma coxinha de frango; embrulhou tudo em pedaços de tecido xadrez e levou para o homem escondido.



      Na manhã seguinte, após passear com a vaca Mimosa, Abigail ouviu um barulho familiar enquanto dava água para o animal; eram barulhos de cascos farfalhando o gramado do pasto.



      Curiosa como sempre, a menina correu para trás do celeiro e bisbilhotou: eram aqueles mesmos homens estranhos do dia anterior, montados em seus cavalos e vestidos com aquelas roupas esquisitas. Os homens aguardavam à frente da casa.



      Abigail se escondeu no porão da casa e aproveitou para espiar através do buraco duma portinhola que dava acesso à cozinha:
      ― Então o senhor não tem nenhum escravo refugiado aqui? ― interrogou um dos homens. ― Sabe que não pode mentir aos Confederados, não sabe?
      ― Olha, realmente, não há ninguém aqui! ― insistiu o Velho Macdougal. ― Tenho uma família.



       ― Então é isso! ― concluiu Abigail, surpresa, falando sozinha em voz baixa. ― Ele é um escravo e está fugindo desses homens maus! Eu vou ajudar ele... Ninguém merece uma vida assim.
      Abigail não sabia muito bem o que era escravidão, mas sabia que não era algo bom; os proprietários das fazendas vizinhas possuíam escravos – e eles eram muito maltratados e mal comiam. Ela não queria essa vida para o seu novo amigo.




      Os Confederados, como haviam-se intitulado, partiram da propriedade insatisfeitos por não terem encontrado o escravo foragido; continuariam as suas buscas pela região.


      Ao anoitecer, Abigail esperou todos irem dormir, pegou novamente um lampião e saiu em direção ao armazém. Ela queria contar ao seu amigo sobre os Confederados que procuravam por ele e dizer que ele estaria seguro ali na fazenda.



      Ao chegar no armazém, contudo, Abigail não encontrou o seu amigo; não havia mais ninguém sob o monte de talos de milho. Havia apenas uma lembrança de que alguém estivera ali: o escravo refugiado havia confeccionado um boneco com as espigas de milho, vestido com uma linda roupa feita com os tecidos xadrez que serviram para embalar as comidas trazidas pela menina.



     Naquela noite, antes de dormir, Abigail olhava para o céu estrelado pela janela do seu quarto; ela desejava que aquele homem pudesse viver uma vida digna, longe de qualquer tortura ou humilhação. A partir dali, ela dormiu com o seu novo amigo (o boneco) todas as noites.


A esperança por um mundo mais humano é como uma chama a qual você jamais pode deixá-la se apagar.





terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - FINAL

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1, a Parte 2, a Parte 3 e a Parte 4 da história.


            Os sete irmãos estavam alegres na volta para casa: cantarolavam em coro na rua. Ao chegar na porta de casa, notaram a porta entreaberta e logo correram para dentro, onde se depararam com o pior.
            — Não! — gritou Carlos, com certo ar dramático.
            — Beatriz! — Geraldo logo correu e segurou o pulso da menina.
            Em seguida, o mais velho dos irmãos começou a pressionar o peito da menina com as duas mãos, como uma massagem cardíaca. Ele estava desesperado.
            — Vou chamar um médico! — disse Danilo, em meio a espirros.
            — Emerson, André e Carlos, ajudem-me a colocá-la no sofá — pediu Geraldo.
            Com muita dificuldade, os quatro anões conseguiram levar o corpo de Beatriz até o sofá. Enquanto isso, Breno trazia um copo de água, inesperadamente.
            — Breno, o que é isso? — perguntou Felipe, encostado no outro sofá, caindo de sono.
            Breno fez um gesto, indicando Beatriz.
            — Ela está morta, sua besta! — resmungou Emerson, muito bravo.
            Breno fez uma cara triste e afundou o rosto em suas mãos, chorando.
            — Acalme-se, moço — implorou André, tentando manter o ânimo dos irmãos. — Não podemos fazer mais nada!
            — Droga! — gritou Emerson. — Quem fez isso a ela?
            — Será que foi um ladrão? — Carlos fechou as cortinas. — É melhor chamar a polícia, também!
            — Não! Não foi um ladrão — disse Geraldo. O homem vinha da cozinha com uma forma na mão; era a torta de maçã feita por Faustina. — A menina foi encontrada no chão da cozinha. Esta torta estava em cima da mesa, e têm dois pratos lá; um vazio e um com um pedaço de torta mastigada.
            — Ela foi envene... — disse Danilo, antes de espirrar. — Nada!
            — A madrasta dela! — concluiu Emerson. — Ora... Se eu pegar aquela mulher!
            — Não... — interveio Geraldo. — Não podemos mais fazer nada! Infelizmente, ela está morta... Se formos atrás da madrasta da Beatriz, poderemos sofrer as consequências.
            — Não ligo pra isso, Geraldo! — contestou Emerson. — Vamos logo!
            Então, o som de sirene surgiu e ficou ensurdecedor no momento. Geraldo correu para fora e recebeu a equipe médica: um jovem médico e o motorista.
            — O que houve aqui, senhores? — questionou o médico.
            — Doutor, ela foi envenenada! — contou Emerson.
            Geraldo o fulminou com o olhar. Agora teriam que contar sobre a madrasta da menina.
            — Envenenada? Isso é coisa séria! — disse o médico, enquanto examinava a jovem. — Fábio, ajude-me a colocá-la na maca.
            O motorista e o médico remanejaram a jovem e correram com ela para a ambulância.
            — Ei, doutor! — chamou Geraldo. — Para onde vão levar a moça?
            — Para o hospital, oras! — respondeu o médico. — Quem de vocês irá acompanhá-la?
            — Todos nós, doutor — respondeu Emerson.
            Antes que o médico e o motorista pudessem reclamar ou contestar, os sete irmãos entraram e se arrumaram na ambulância. O carro deu partida e correu para o hospital mais próximo.
            Já no hospital, as pessoas se assustaram quando sete anões saíram de uma ambulância ao lado do motorista, do médico e de uma menina desfalecida na maca.
            — UTI! — gritou o médico para a equipe do hospital.
            As portas, então, fecharam-se diante dos sete homens. Apenas o médico e o restante da equipe puderam entrar na área restrita junto ao corpo de Beatriz.
            — E agora? — perguntou Emerson, impaciente.
            — Esperaremos — respondeu Geraldo, sentando-se num banco.
            Cerca de três horas depois, e mais de cem voltas dentro da sala de espera, os anões avistaram o médico passar pela porta:
            — Doutor! — gritou Geraldo.
            — E a Beatriz? — perguntou Danilo, segurando o espirro.
            — Quem são vocês? — perguntou o médico. — Aquela moça é Beatriz Nevada, não é?
            — É ela mesma, doutor — confirmou Geraldo. — Ela apareceu na nossa casa ontem, pedindo ajuda. Deixamos ela ficar... A menina parece ser muito boazinha!
            — E é... — comentou o médico.
            — Hein? — estranhou Emerson.
            — Eu a reconheci — disse o médico. — Estudamos juntos no ensino médio. Quer dizer... Eu estava à frente dela. Mas ficamos amigos. O pai dela faleceu recentemente... Tentei voltar a falar com ela, mas não consegui. Quem a envenenou? Precisamos chamar a polícia.
            — Doutor, não foi a gente — comentou Carlos. — Não queremos problemas.
            — Ela está fugindo de alguém... — revelou Emerson. — E acho que esse alguém descobriu onde ela estava se escondendo e invadiu a nossa casa enquanto estávamos trabalhando. Foi a madrasta dela!
            — Milena di Aba — concluiu o médico. — Como? Ela não colocaria sua carreira em risco...
            — Acredite no que quiser — ameaçou Emerson. — Podemos ver a menina logo?
            — Claro que não! — respondeu. — Olhem... Ela está na UTI. Está em estado grave.
            — Então está viva? — questionou André, sorrindo.
            — Por enquanto — disse o médico. — A substância do envenenamento simulou a morte dela; fez com que a frequência cardíaca e respiratória se reduzisse a ponto de não ser percebida. Com isso, o corpo dela esfriou. Tivemos de colocá-la numa câmara.
            — Ela está encaixotada? — questionou Carlos.
            — Não é bem isso... — explicou o médico. — É uma espécie de “caixa” de acrílico que impede organismos nocivos à saúde de entrarem em contato com ela, e também faz a manutenção da temperatura corporal.
            — Doutor Reis, o paciente 101 entrou em choque — anunciou uma voz mecânica. — Favor, dirija-se à UTI.
            — Preciso ir, gente! — disse o médico. — É a Beatriz!
            — O quê? — Geraldo ficou em choque.
            Derrubando a segurança, os sete homens correram atrás do médico. Enquanto o médico vestia uma roupa esquisita para entrar na UTI, os homens ficaram vendo de fora – a sala tinha paredes de vidro, então era possível ver o seu interior sem problema algum.
            O doutor Reis – como havia sido chamado no anúncio – foi até o leito de Beatriz, que era o único daquela UTI, e começou a fazer manobras de ressuscitação.
            Breno, inquieto, começou a bater no vidro. Os outros começaram a chorar. Até mesmo Emerson, o zangado da turma, deixou as lágrimas caírem.
            Reis suava enquanto tentava trazer Beatriz de volta à vida. Ele não desistiria, não podia desistir. Beatriz era o seu primeiro amor; foi quem mais amou durante a adolescência, mas não puderam namorar porque a madrasta da menina dizia que namoros não “davam em nada”. Agora, por obra do destino, ou do acaso, a jovem estava ali, morrendo em suas mãos.
            O médico viu que não tinha saída; era inútil persistir. Percebendo que não havia seguranças ali, ele permitiu que os sete homens entrassem no leito para se despedirem da moça. Geraldo foi o primeiro, deu um beijo na caixa transparente que envolvia Beatriz; Felipe, sonolento, passou a mão no acrílico e suspirou; Danilo segurou o espirro naquele momento, e inspirou profundamente, tentando segurar o choro; Carlos não tinha o que encenar, não ali, então pegou uma flor na entrada da UTI e deixou-a sobre a câmara de acrílico; Breno quase pronunciou um som ao se aproximar da caixa, mas deixou-se levar pelo choro e saiu dali; André deu seu último sorriso à Beatriz, desejando-lhe paz e tranquilidade; Emerson ficou de longe vendo tudo, ele não queria se despedir porque não aceitava aquilo.
            — Rapazes, preciso que esperem lá fora — pediu Reis. — Vou terminar o procedimento para liberar o corpo. Fiquem lá, que eu já vou até vocês.
            Os sete anões saíram da UTI e seguiram rumo à saída do hospital, quando foram pegos pelos seguranças e levados à delegacia.
            Enquanto isso, o médico admirava Beatriz. Aquela pele negra, macia; o cabelo ondulado; ela era linda. Enquanto abria a câmara de acrílico, Reis fitava a jovem. Foi, então, que ele fez o que não devia fazer: beijou a moça. Foi um selinho, mas o médico beijou a paciente – morta.
            Ele chorou em seguida, mas não queria passar a vida sem ter ao menos tocado os lábios da menina que mais tinha amado. Foi aí que as coisas mudaram. De repente, o monitor cardíaco de Beatriz reagiu. Pequenas ondas começaram a cintilar no LED, até formarem uma bela sinfonia cardíaca. O coração da jovem voltou a bater, e ela voltou a respirar.
            — Enfermeira! — gritou o médico. — Enfermeira!
            Uma equipe entrou no local e auxiliaram o médico com o que ele pediu.
            Seis horas depois, já com os sete anões de volta ao hospital – graças ao doutor Reis, que havia ido até a delegacia e esclarecido a situação ao delegado –, o médico seguiu para o quarto em que estava a jovem Beatriz. Por algum milagre, a menina havia voltado da morte e estava melhor do que antes de ter entrado, como se nunca lhe tivesse  acontecido nada.
            — Bom dia! — Reis entrou no quarto.
            — Bom dia, doutor! — respondeu Beatriz. — Onde estou? O que houve?
            — Você está no hospital — contou o médico. — Você foi envenenada, e seus amigos trouxeram você até aqui. Você quase morreu, ou talvez tenha morrido, mas surpreendeu a todos.
            — Eita... — a menina ficou surpresa. — Sério mesmo?
            — Sério — afirmou o médico. — Posso permitir as visitas?
            — Claro! — disse a jovem, sorrindo.
            Assim, o médico abre novamente a porta e, então, os sete irmãos entram no quarto, todos sorridentes.
            — Beatriz! — disseram em coro, correndo e se amontoando em volta da menina.
            — Obrigada, rapazes! — agradeceu a menina. — Ainda não sei exatamente o que houve, mas obrigada!
            — Foi a sua madrasta... — disse Emerson, cansado de guardar as coisas. — Aquela mulher é o diabo! Como consegue envenenar alguém? Mas eu não desisti de você, mesmo quando o seu amiguinho aí já tinha desistido.
            — Amiguinho? — estranhou Beatriz. — Quem?
            — Não me reconheceu, mesmo? — questionou Reis.
            — Ai, meu Deus! — Beatriz teve uma rápida lembrança. — James! Você virou médico?
            — Sim! — o médico não resistiu e abraçou a jovem. — É bom tê-la viva!
            Ele deu um beijo tão forte na bochecha dela, que ela percebeu algo diferente.
            Depois de muita risada e comemoração, os sete anões foram para casa, onde esperariam pela volta de Beatriz, que receberia alta naquela tarde.
            — James... — chamou Beatriz.
            — Sim? — o médico deixou seu caderno de lado e olhou para a jovem.
            — Não lembro muito bem o que houve depois de acordar... — comentou a menina. — Quero dizer, da primeira vez, quando voltei. Eu apenas não consegui abrir os olhos, mas senti e ouvi tudo.
            — Do que está falando? — ele não quis parecer invasivo.
            — Vem aqui... — pediu Beatriz.
            — O que foi? — perguntou o médico, sentado ao lado da menina.
            Então, Beatriz o agarrou e o beijou; não um selinho, mas um longo beijo.
            — Ei! — disse ele, após se recompor. — Calma aí, donzela! O que foi isso?
            — Algo que eu tinha vontade de fazer desde o ensino médio — revelou. — James, eu senti você me beijando quando eu voltei. Foi você!
            — Beatriz, desculpe se não devia... — suplicou ele. — É que eu sempre fui louco por você, mas...
            — Case comigo! — disse a jovem, direta.
            — Como? — estranhou o médico.
            — James, nós convivemos por quatro anos naquela escola... Éramos namorados sem nunca ter-nos beijado — concluiu ela. — A gente sabe que o sentimento um pelo outro é bem maior do que a gente acha. Por que deixar passar mais uma vez?
            — Mas e sua madrasta? — perguntou, preocupado.
            — Vou dar queixa dela na polícia — respondeu Beatriz. — Da mãe dela, também. Provas e testemunhas não faltam!
            — Eu amo você, Beatriz Nevada! — confessou James.
            — Eu amo você, James Reis! — disse a jovem. — Agora, leve-me embora daqui!
            Assim, os dois saíram do hospital.
            Beatriz e James chegaram à casa dos sete anões e contaram a novidade, que deixou todos atônitos pela festa que viria. Depois disso, todos foram à delegacia com as provas e os relatos da tentativa de assassinato de Beatriz pela madrasta. Pouco menos de três meses depois, os dois se casaram e foram morar na mansão que era do pai de Beatriz.
            Milena di Aba e sua mãe, Faustina, foram condenadas à prisão perpétua e foram enviadas ao mesmo presídio, em uma cidade muito quente. A modelo tentava subornar os agentes carcerários, inutilmente, pois esses não ligavam para o que ela tinha a oferecer: a mãe. Victor Vitral é quem visitava a condenada e levava alimento; o homem acabara ficando com a imagem suja por trabalhar para uma assassina. Arthur, o segurança particular da megera, ainda estava desaparecido; ninguém sabia sobre o seu paradeiro.
            — Senhora Milena di Aba, visita! — anunciou o carcereiro, abrindo a cela para que a mulher saísse. — Sem gracinha, certo?
            Milena mostrou um sorriso sem graça ao agente.
            — Vai, entre aí! — o agente empurrou a mulher para dentro de uma sala.
            — Mas que inferno! Não se faz mais homens como antigamente! — resmungou a mulher, enquanto se sentava. — A quem devo a honra de uma visita?
            — Oi, Milena — a voz masculina, do outro lado da mesa, exibiu o seu dono ao virar a cadeira de frente para a modelo. — Há quanto tempo, não é?
            — Você! — disse Milena, quase sem fôlego. — O que faz aqui?
            — Digamos que agora eu quem estou numa posição alta — disse o homem. — E você vai trabalhar para mim.
            — Jamais! — decretou a mulher.
            — Então vai ficar presa aqui até morrer? — questionou. — Vai deixar os seus ossos de lembrança aos futuros carcereiros? Veja, eu já negociei a sua saída. A sua, e a de sua mãe.
            — Ora, ora... — sorriu Milena. — Eu ficarei honrada em trabalhar para você!
            — Então volte para sua cela e arrume suas malas — disse o homem. — Avise sua mãe que ela será minha esposa. Gosto dela.
            — Que mau gosto! — opinou Milena.
            — Não pedi sua opinião — respondeu ele. — É bom você me respeitar, pois será minha afilhada! Serei como um pai para você.
            — Só uma dúvida... — desejou a megera.
            — Ok — concordou ele. — Diga.
            — Por quê? — perguntou ela, curiosa. — Por que isto?
            — Quero ter o prazer de esmagar você, Milena di Aba — contou o homem. — Quero saber como o gato se sente ao pegar o rato. E eu tenho tudo planejado para você, todo o seu futuro. Adotei Mirella, também; ela será sua irmãzinha.
            — Não acredito nisso! — esbravejou a mulher. — Ela é só uma criada!
            — E você também será — prometeu ele. — Mirella é muito mais bela do que você. Você ainda vai sofrer tudo o que fez as pessoas sofrerem, Milena. Até logo!
            — Não! Ninguém é mais bela do que eu! — gritou Milena, vendo o homem ir embora. — Volte aqui! Arthur, volte aqui!

            Mas ele não voltou. Arthur, o antigo segurança particular de Milena, estava de volta, e estava cheio de planos para a sua querida ex-patroa. Milena mal sabia o que esperava por ela.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 4

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1, a Parte 2 e a Parte 3 da história.


            Milena estava decidida e não desistiria de seu plano. Ela mataria Beatriz, não importava o preço e a forma. Sua última tentativa acabou não dando certo por conta do grupo de anões que aparecera bem no momento em que ela entraria na casa. Mas a modelo já havia arquitetado outro plano e o colocaria em prática.
            — Mãe? — gritou Milena, assim que entrou na mansão.
            — Sim, o que foi? — Faustina desceu a escadaria em direção à sala. — O que você quer?
            — Você vai me fazer um favor — decretou Milena. — Preciso que você vá até a Beatriz. Eu a encontrei, ela está numa pocilga do subúrbio. Você tem que ir até ela toda suja, mal vestida, como se eu tivesse expulsado você daqui.
            — O que planeja? — perguntou a senhora, desconfiada.
            — A morte dela — respondeu Milena.
            — Minha filha! — Faustina ficou sem palavras. — Não posso fazer isso!
            — Então você vai para fora desta casa de verdade — ameaçou a modelo, impaciente. — Vai ser simples, não vai doer. Preciso que você entre na casa e se ofereça para cozinhar alguma coisa... E, então, você vai envenenar a comida.
            — Milena, por que isso? — questionou a mulher. — Você já não tem tudo o que quer?
            — Vai ou não me ajudar? — pressionou Milena. — Não temos muito tempo. Você precisa chegar lá amanhã, depois das nove, e ir embora antes das cinco da tarde. Mas acho que você consegue adiantar o serviço.
            — Tudo bem... — concordou Faustina.
            No dia seguinte, as duas acordaram bem cedo. Milena arranjou algumas roupas rasgadas e fedidas para a mãe.
            — Onde achou estas roupas? — perguntou Faustina, sentindo-se nauseada.
            — Peguei de um morador de rua — disse Milena. — Vista logo.
            Faustina se vestiu com os trapos.
            — Falta uma coisa... — comentou Milena, pegando uma tigela do chão.
            A megera passou o conteúdo da tigela no rosto e na roupa da mãe. Era água suja, da sarjeta.
            — Por que faz isso comigo? — perguntou Faustina.
            — Porque você me deve — explicou Milena. — Vamos, vou deixar você na esquina da rua onde a Beatriz está.
            Do outro lado da cidade, Beatriz e os sete irmãos tomavam café. Tudo estava bem. Emerson já não estava tão zangado quanto no dia anterior, e já até se acostumara com a ideia de uma hóspede.
            — Minha querida, está na hora de irmos — disse Geraldo. — Precisamos trabalhar.
            — Está cheio de vidro para quebrar naquele lugar — comentou Carlos, encenando o ato de quebrar. — O trabalho na vidraçaria é árduo!
            — Tudo bem... — concordou Beatriz. — Bom trabalho a todos. Farei um belo jantar para esta noite!
            Assim, os anões foram saindo da casa rumo ao trabalho.
            No fim da rua, um carro estava parado. Geraldo reconheceu o carro, era o mesmo do dia anterior. Mas não era possível enxergar o interior do veículo, pois os vidros eram escurecidos. Ao lado de dentro, Milena e Faustina estavam caladas, com a respiração baixa.
            Após os anões irem embora, Milena suspirou.
            — Tome — a modelo entregou uma ampola com um líquido verde para a mãe. — Este é o veneno.
            — O que é isto? — questionou Faustina. — Que substância é esta?
            — Você não precisa saber — disse Milena. — Vá logo! Ficarei esperando aqui.
            — Mas vai demorar até fazer alguma comida... — avisou a mulher.
            — Vá! — insistiu Milena.
            Faustina, então, saiu do carro e caminhou até a casa. A mulher estava horrível: sem maquiagem, o seu rosto era cheio de rugas e sulcos; a roupa toda rasgada e suja; o semblante depressivo. Ela bateu palmas.
            — Oi? — Beatriz apareceu na porta, desconfiada. — Posso... Dona Faustina?
            Beatriz ficou perplexa com o que viu.
            — O que houve com a senhora? — perguntou Beatriz. — Entre, por favor!
            A surpresa da menina foi tanta, que ela nem se deu conta de como a mulher havia-lhe encontrado ali.
            — Minha filha... — murmurou a velha. — A Milena me colocou para fora de casa. Desde ontem! Sem direito a nada!
            — Meu Deus! — clamou a jovem. — Que coisa terrível! Descanse um pouco...
            — Estou com fome... — interveio a senhora. — Será que tem algo para comer?
            — Bem, não tem nada — disse Beatriz. — Posso tentar cozinhar alguma coisa.
            — Não se preocupe — pediu Faustina. — Deixe que eu cozinho... Apenas me mostre as coisas.
            — Tudo bem — concordou Beatriz, pegando algumas coisas nos armários.
            — Maçãs? — Faustina viu as frutas num cesto. — Que tal se eu fizer uma torta de maçã?
            — Nossa! — os olhos de Beatriz brilharam. — Eu amo sua torta de maçã!
            — Então será isso — disse Faustina.
            A velha tomou muito cuidado durante o preparo, para que Beatriz não a visse colocar o veneno no meio da massa da torta.
            Cerca de duas horas e meia depois, a torta estava pronta.
            — Não vejo a hora de matar a minha fome! — comentou Faustina.
            — Então pode comer o primeiro pedaço, dona Faustina — ofereceu a jovem.
            — Não, não! — contestou Faustina. — A torta é sua comida favorita... Então experimente!
            A contragosto, Beatriz cortou um pedaço e logo o comeu, saboreando seu prato predileto.
            — Ficou com um gosto diferente — comentou  a moça. — A senhora usou algo diferente?
            — Não tinha canela — mentiu a velha.
            — Ah! — compreendeu Beatriz.
            — Posso ir ao banheiro, querida? — pediu Faustina. — Quero lavar as mãos antes.
            — Sim, venha, é por aqui — Beatriz apontou a porta do banheiro.
            Dez minutos depois, Faustina saiu do banheiro e encontrou a jovem encostada em uma cadeira da cozinha, um pouco largada.
            — Tudo bem, querida? — perguntou Faustina.
            — Acho que a torta não me caiu bem — respondeu Beatriz. — Não estou me sentindo muito bem. Acho que...
            Então, repentinamente, a menina caiu no chão.
            Faustina correu até ela e pressionou os seus pulsos. Não havia pulsação. A velha encostou a orelha no peito da jovem, tentando sentir a respiração, mas não conseguiu. Sem pensar duas vezes, Faustina correu para fora da casa e seguiu até o carro de Milena, entrando disfarçadamente.
            — E então? — questionou Milena.
            — Está feito — respondeu Faustina. — Ela comeu. Está caída no chão da cozinha.
            — Ótimo! — sorriu a modelo. — Agora, quando aqueles anões voltarem, vão encontrá-la assim e achar que está morta. Ela vai ser enterrada viva!
            — Como? — Faustina arregalou os olhos para a filha.
            — Isso mesmo — Milena pisou no acelerador e deu partida. — A substância que você colocou na comida dela fez a frequência cardíaca e a respiração dela diminuir, de modo que pareça que ela está morta.
            — Não! — gritou Faustina.
            — Fique quieta, mãe! — Milena deu uma cotovelada na mulher, que desmaiou.
            A modelo, então, partiu rumo a sua empresa, Kingdom, o seu império.
            Beatriz ficou lá, no chão gelado daquele sobrado, onde permaneceria até que os sete irmãos retornassem e a encontrassem.

Leia aqui o final da história.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 3

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1 e a Parte 2 da história.



           Dirigindo em alta velocidade, Milena chegou à mansão em pouco menos de quinze minutos. Ela largou o carro na rua e correu para dentro da casa – se fosse possível, teria atravessado o corpo de qualquer criatura que cruzasse o seu caminho.
            — Mãe! — gritou Milena.
            Em seguida, uma senhora vestida com terno entrou na sala.
            — O que foi, querida? — era Faustina.
            Faustina, além de ser mãe de Milena, era a governanta da mansão; fora um favor exigido pela filha em troca de moradia.
            — Cadê a Beatriz? — questionou Milena.
            — Não sei — respondeu Faustina. — A menina saiu cedo e não voltou ainda.
            — Voltou, sim! —contestou a modelo. — O Victor esteve aqui há pouco menos de uma hora e a viu aqui.
            — Bom, eu estava supervisionando a Mirella a arrumar os quartos — explicou a velha. — Talvez eu não a tenha visto chegar.
            — Já falei para deixar aquela gata-borralheira fazer o serviço dela — respondeu Milena. — Saia da minha frente!
            Milena deixou a mãe sozinha e foi para o seu quarto.
            O quarto, por sua vez, não era um aposento comum: havia telas, controles e botões por todo o canto. A mulher construíra uma verdadeira central de vigilância ali – a Kingdom fornecia equipamento para a cidade inteira; assim, a modelo conseguiu, com a ajuda de Victor Vitral, conectar-se às câmeras de toda a cidade.
            A mulher inseriu no sistema uma imagem que centralizava o rosto de Beatriz. Com isso, o sistema triangulou a posição da jovem, com um localizador de filme de espionagem.
            — Mas que menina burra! — riu Milena. — Ela achou mesmo que conseguiria fugir de mim?
            Beatriz andava apressada por um bairro periférico da cidade. A jovem entrou numa rua deserta, mas graças ao zoom da câmera, Milena pôde acompanhá-la. A jovem entrou num sobrado velho, no fim da rua sem saída, a única casa do local.
            — Ótimo! — comemorou Milena. — Acho que temos um encontro, Beatriz.
            A megera pegou a sua bolsa, a chave do carro, e revirou uma gaveta de sua cômoda à procura de algo. Ela pegou um revólver e saiu da casa.
            Em um lugar aparentemente inabitado, sozinha, Beatriz bateu à porta da casa:
            — Tem alguém aí?
            Sem obter resposta, a menina entrou no sobrado. Para a sua surpresa, a casa estava mobiliada – estranhamente mobiliada. Os móveis tinham tamanhos menores que os móveis comuns, eram como se fossem adaptados a pessoas pequenas.
            Como estava morrendo de fome, ela abriu a geladeira e procurou alguma coisa para comer. Havia, por sorte, um pedaço de torta de maçã – a sua predileta. Logo depois, o sono bateu, e Beatriz subiu ao primeiro andar para procurar um quarto.
            A menina achava absurda a ideia de invadir uma casa, mas era o lugar mais seguro para esconder-se de sua madrasta. Havia apenas um quarto, mas nele tinham sete camas; eram camas pequeninas. Então, Beatriz empurrou todas até que ficassem uma ao lado da outra, formando uma cama de tamanho adequado para ela. Ela se deitou e caiu num sono pesado.
            Cerca de quarenta minutos depois, ao lado de fora da casa, havia um carro luxuoso estacionado na ponta da rua. Era o carro de Milena di Aba. A mulher havia conseguido localizar a enteada e só estava planejando como faria com a menina; ela tinha apenas uma bala, então teria de ser certeira se não quisesse deixar Beatriz viva para contar a história.
            Quando Milena abriu a porta do carro para sair, um grupo de sete homens baixos passou ao lado pela calçada. No mesmo instante, a mulher voltou para o carro e ficou lá dentro, calada. O carro tinha os vidros escuros, então seria impossível que alguém lhe reconhecesse. Os sete homens caminharam até o sobrado, mas antes de entrar ficaram olhando desconfiados para o carro da modelo.
            — Droga! — Milena esperou os anões entrarem na casa para, então, manobrar o carro e ir embora dali.
            Quando entraram na casa, os homens acharam algo estranho. A bandeja que estava guardada com torta na geladeira estava, naquele momento, em cima da pia. Preocupado, o mais velho dos irmãos decidiu investigar:
            — Acho melhor a gente se separar e ver se alguém invadiu a casa — sugeriu Geraldo. Ele usava óculos, era muito inteligente e ponderado.
            — Separar-nos? — questionou Carlos. Este, era cheio de dengos e teatros. — E se realmente alguém invadiu a casa?
            — Ora! Parem de frescura! Vocês são homens ou anões? — resmungou Emerson. Ele era o mais esquentado e impaciente dos sete, vivia discordando e brigando com todo mundo. — Vamos logo para o quarto que estou com sono.
            Assim, todos subiram ao quarto.
            Emerson foi na frente, seguido por Carlos e Geraldo. Logo depois, vinha Felipe, o mais preguiçoso dos irmãos – ele se arrastava pela escada, de tão sonolento. Danilo e André subiam lado a lado; o primeiro tinha uma séria alergia – vivia espirrando –; o segundo era alegre que só, sempre sorria e era gentil com os outros. Por último, destrambelhado, vinha Breno; ele era o mais tímido de todos e, também, o mais quieto – mas ele era mudo –, o único que não usava barba.
            No andar de cima, perceberam que a porta do quarto estava entreaberta e ficaram assustados. Emerson logo tratou de abrir a porta e berrou de susto com o que viu. Todos correram para o interior do quarto e também gritaram; foi uma gritaria total – Beatriz, assustada, gritou com os homens que ali estavam. A jovem ficou tão amedrontada que acabou batendo a cabeça no teto quando tentou levantar-se da cama.
            — Quem é você, sua intrusa? — questionou Emerson, zangado.
            — Desculpem-me! — implorou a menina. — Eu prometo ir embora, mas não me machuquem...
            — Quem é você? — insistiu Emerson.
            — Calma, Emerson, você está assustando a moça! — repreendeu Geraldo, logo percebendo que a mulher era incapaz de qualquer maldade.
            — Obrigado, meu senhor... — agradeceu Beatriz. — Meu nome é Beatriz.
            — Eu me chamo Geraldo — respondeu ele. — Somos todos irmãos e moramos aqui, como pode ver. Mas o que você faz aqui? Como entrou?
            — Ué... A porta estava encostada apenas — respondeu a menina.
            — Breno! — berrou Emerson, furioso. — Você pegou a chave para trancar a porta e não trancou?
            Breno fez um gesto, que provavelmente significava que ele sentia muito.
            — Você pode jantar com a gente — convidou André, sorrindo para a bela moça.
            — É — tentou concordar Danilo, em meio aos espirros.
            — Não! — interrompeu Emerson. — Nem sabemos quem ela é! Não podemos deixar um estranho entrar em casa... Ainda mais quando ele já entrou sem permissão.
            — Bem, se pensarmos por um lado... — provocou Carlos. — Ela não é estranha, ela já se apresentou!
            — O Carlos tem toda a razão, Emerson. Deixe a moça se explicar — disse Geraldo, limpando as lentes dos óculos enquanto sentava-se na beira de uma das camas.
            — Oh! — Beatriz ficou lisonjeada. — Obrigada pela confiança. Eu estou fugindo...
            — Estão vendo? — Emerson gritou, apontando o dedo para a jovem. — Eu falei!
            Os anões arregalaram os olhos, preocupados.
            — Não, não! — disse Beatriz. — Não é isso... Estou fugindo da minha madrasta. Ela quer me matar!
            — Nossa! — exclamou André. — Que coisa mais triste!
            — Pois é... — concordou a jovem. — Se puderem me ajudar... Mas caso não queiram, eu vou entender.
            — Não queremos — disse Emerson, convicto.
            — Você não quer, Emerson. Nós queremos — corrigiu Geraldo. — Olha, minha querida, eu sou o mais velho de todos e, por direito, decido o que vai acontecer ou não aqui dentro. Nós trabalhamos, temos uma vidraçaria chamada Sete Anões, e não queremos problemas para o nosso lado. Mas não podemos deixar você à mercê de sua madrasta.
            — Muito obrigada, Geraldo — agradeceu Beatriz. — Prometo que não vou desapontá-los. Se quiserem, posso ajudar aqui enquanto vocês estiverem trabalhando. Afinal, não posso sair na rua.
            — Você quem sabe — respondeu Geraldo. — Não estou pedindo nada em troca.
            — Seria o mínimo — comentou Emerson, de costas.
            — Não ligue para ele — recomendou o mais velho. — Ele é zangado assim só no início... Depois, vira um babão!
            — Vai se ferrar, Geraldo! — Emerson saiu do quarto, xingando os irmãos.

            Naquele fim de tarde, Beatriz desceu com os seis anões para a cozinha, e eles fizeram um grande banquete. Um pouco depois, Emerson acabou cedendo e também se juntou aos irmãos e à nova hóspede.


Leia aqui a Parte 4 da história.