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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Conto: In(tolerância)

            O conto a seguir é inspirado no massacre ocorrido numa boate em Orlando, cidade dos Estados Unidos, no dia 12 de junho de 2016. A ideia é provocar a reflexão sobre o tipo de sociedade que somos e o tipo de sociedade que desejamos ser.
* * *
            Às sete da manhã de domingo, o noticiário informou que um atirador, conhecido como Almir Khouri, de 30 anos, causou a morte de mais de 50 pessoas e deixou outras 60 feridas. Após um tiroteio, a polícia conseguiu interceptar o atirador, que acabou morrendo no local. O atentado foi iniciado por volta das duas horas da manhã e, de acordo com testemunhas, Almir atirou por vários minutos sem parar; alguns rapazes disseram que o tiroteio chegou a durar uma música inteira. Os familiares e amigos das vítimas fazem vigília em protesto à violência e à intolerância em frente à boate; diversos grupos, ao redor do mundo, também demonstraram solidariedade à causa e indignação com o massacre.
* * *
Horas antes.
            Numa cidade pequena, um dos programas mais prediletos da população jovem é sair para as boates e para os bares no fim de semana. Com Felipe não era diferente; se havia algo que agradava a ele, era sair para a balada com os amigos e com o namorado. Naquela noite de sábado, o jovem de 27 anos preparava-se para uma festa com DJs convidados numa boate da região central da cidade.
            — Boa diversão, filho — desejou Luana, mãe de Felipe. — Leve a sua chave porque você vai chegar tarde, né?
            — Vou chegar cedo, mãe... Amanhã de manhã — brincou Felipe, dando um beijo no rosto da mãe e saindo.
            Ao lado de fora da casa, havia um Sportage vermelho estacionado em frente ao jardim:
            — E aí, gatão! — era Pedro, o namorado de Felipe. — Até que você foi rápido desta vez...
            — Engraçadinho — Felipe entrou no carro e beijou o namorado.
            Assim que chegaram à boate, o casal comprou os ingressos e desceu para a pista de dança. A casa estava lotada – os dançarinos e as dançarinas estavam fazendo uma apresentação no palco enquanto a multidão delirava. Felipe e Pedro logo começaram a dançar com alguns amigos que encontraram.
            Por volta de uma e meia da manhã, Pedro demonstrou estar um pouco cansado:
            — O que você tem? — perguntou Felipe, enquanto puxava o namorado de volta para a pista de dança. — Está cansado?
            — Eu trabalhei hoje, lembra? — comentou Pedro, sorrindo e olhando nos olhos de Felipe. — Mas fica tranquilo; se você ainda quiser ficar, não tem problema.
            — Só mais um pouco? — Felipe deslizou o seu corpo para "embalar" o namorado na sua dança.
            — Quanto tempo você quiser! — respondeu Pedro, beijando o namorado.
            A música preferida do casal começou a tocar: "I lived", da banda OneRepublic.
* * *
            Do outro lado da cidade, um rapaz de 30 anos havia acabado de sair de casa. Ele caminhou em passos pesados até o ponto de ônibus, onde embarcou num coletivo rumo ao centro da cidade.

Hope when you take that jump
You don't fear the fall

            Seu nome era Almir, descendente de afegãos e morador da cidade desde o seu nascimento. Há alguns meses, Almir vinha demonstrando um comportamento estranho sempre que via ou ouvia pessoas do mesmo sexo tendo um relacionamento homoafetivo. Os seus pais até tentaram evitar que ele tivesse qualquer tipo de contato com tais situações a fim de não deixar o filho estressado.

Hope when the crowd screams out
They're screaming your name

            O ônibus em que Almir estava estacionou em seu ponto final e o rapaz desembarcou. Ele viu um letreiro néon piscando na escuridão e seguiu para o seu destino. Enquanto caminhava, Almir mexia na mochila em suas costas tentando arrumar alguma coisa.

Hope if everybody runs
You'll choose to stay

            O rapaz puxou um rifle de dentro da bolsa e mirou nos seguranças da boate. Mentalmente, levaram apenas cinco segundos para o tiroteio iniciar.
* * *
            Felipe ouviu um breve e agudo bipe do seu relógio de pulso e verificou que já eram duas da manhã.

Hope that you fall in love
And it hurts so bad

            Enquanto se juntava a Pedro no bar da boate, Felipe ouviu barulhos fortes que pareciam vir do piso superior; eram como estalidos.
            — O que foi isso? — Pedro tentou concentrar-se no estalido. — Você consegue ouvir?

The only way you can know
You gave it all you had

            — É — concordou Felipe. — Eu ouvi.
            No segundo seguinte, o que deu para ouvir foram gritos sobrepostos aos estalidos, que ficaram mais fortes. De repente, as pessoas que estavam no piso superior da boate desceram correndo, derrubando quem estava na frente, e gritando:
            — É tiro! Corre! — berravam em coro.

And I hope that you don't suffer
But take the pain

            Felipe e Pedro se olharam e só pensaram em se agachar. Cada um olhava para um lado enquanto todos corriam pela pista de dança, parecendo formigas quando têm o seu formigueiro destruído.

I owned every second that this world could give

            O casal correu para trás do bar e ficou escondido atrás do balcão junto a duas meninas e outro rapaz. Os cinco tremiam de tanto pavor, mas estavam tão chocados que não conseguiam emitir nem um grito.

I saw so many places, the things that I did

            Então, embora estivesse escuro, Felipe conseguiu ver o que acontecia: havia um homem segurando um rifle e atirando contra todos na boate. Ele mirava e atirava sem parar, repondo a munição com maestria.

Hope that you spend your days
And they all add up

            — Eu não quero morrer! — Felipe chorou segurando a mão de Pedro com toda a força.
            Enquanto isso, uma das meninas ao seu lado caiu para trás quando foi atingida por uma bala no meio da cabeça.

And when that sun goes down
Hope you raise your cup

            — Puta que o pariu! — Felipe e Pedro se levantaram imediatamente, tropeçando nos corpos mortos e feridos que estavam jogados e esbarrando na multidão que corria pela pista.
            A polícia, enfim, havia chegado. Mas aquilo não fez do pesadelo um sonho – o tiroteio só aumentou; enquanto Almir vitimava uma multidão no interior da boate, a polícia atirava contra as paredes do local tentando parar o ataque.

I wish that I could witness
All your joy and all your pain

            Pedro deu um sinal para Felipe, mostrando que havia uma possível saída. Contudo, Felipe não prestou atenção ao sinal; o jovem só conseguiu ver Pedro subir pelas escadas junto a algumas outras pessoas com toda a pressa.
            Felipe tentou seguir o namorado, mas foi encurralado pelo atirador, que segurava o rifle e sorria.

But until my moment comes
I'll say I did it all

            O jovem se virou e correu para os banheiros da boate, enfiou-se dentro de uma das cabines e sentou-se em posição fetal, rezando e pedindo para sair dali com vida. A única coisa que lhe ocorreu foi despedir-se de quem amava, pois não sabia o que aconteceria.

I owned every second that this world could give

            "Fica bem. Eu amo vc!", foi o que enviou para o celular do namorado.

I saw so many places, the things that I did

            "Mãe... Estou preso na boate!", começou a escrever para a mãe. "Tem um cara atirando". Em seguida, ele viu a resposta da mãe: "Na boate? Você está bem? Fique aí!".
            Então, um estrondo derrubou a porta do banheiro. Almir havia entrado ali para acabar com quem ainda estivesse vivo.
            "Ele está vindo, mãe!", respondeu Felipe; "Eu te amo, mãe, te amo!".

Yeah, with every broken bone
I swear I lived


            Uma bala cruzou o olho direito de Felipe enquanto outra bala penetrou o seu peito e atingiu o coração. A última coisa que o jovem conseguiu enxergar foi o líquido vermelho e viscoso tomar conta do seu corpo até tudo escurecer.

domingo, 6 de março de 2016

Pequeninas Aventuras


            Viver numa cidade grande parece ser algo fácil para qualquer um, ainda mais quando se tem uma casa própria para viver sem se preocupar com aluguel. Mas isso não funciona com gente pequena.
            Na verdade, isso não funciona com gente bem pequena – pequena mesmo: gente menor que uma escova de dente.
            — Pai! Olhe só isso — Caio apontava para um alfinete. Nas suas mãos, o objeto parecia mais uma espada. — Encontrei lá no quintal.
            Caio era um "menino" muito curioso. Ele era o filho mais velho de César e Joana. Com os seus 16 anos de idade, Caio já media dez centímetros de altura, o normal para um adolescente Pequenino.
            — Eu não acredito! — César franziu o cenho e tomou o alfinete do garoto. — Você subiu de novo? Já conversamos sobre isso, Caio.
            — Eu sei, pai — o menino pendeu a cabeça, desanimado, mas logo tratou de explicar-se. — Eu estava meio entediado aqui... Daí, enquanto eu limpava a entrada para o esgoto, vi algo brilhando lá no quintal. Achei que fosse algo útil. E não deixa de ser!
            — Quintal? — Joana logo apareceu atrás da porta da sala. A família vivia numa "toca" dentro de um ralo do quintal de uma casa. Com objetos achados e "emprestados", eles construíram uma espécie de casa com cômodos todos mobiliados com objetos comuns: folhas que serviam de cortinas, pedaços de madeira que serviam de porta, papelões que serviam de paredes, restos de flanelas que serviam de cobertores, pequenos tubos que serviam de encanamento para a rede de água e esgoto própria, pequenas caixas revestidas com espumas que serviam de camas etc. — O que você foi fazer no quintal, Caio?
            Joana, dos quatro, era a mais medrosa. Se ela visse um humano na sua frente, provavelmente, desmaiaria.
            — Mãe! — Caio se cansou de explicar e sentou-se no sofá da sala. — Eu cansei de ficar só aqui dentro. Vocês podiam me deixar sair para uma viagem em busca de amigos, né?
            — Não fale uma besteira dessas, filho — pediu César, rangendo os grandes dentes incisivos, que lhe davam a aparência de um roedor humanoide. — Você tem eu, sua mãe e sua irmã como amigos. Não tem porque sair por aí em busca de mais e correr perigo.
            — Vocês não entendem... — Caio deu as costas para os pais e entrou para o seu quarto.
            O jovem Pequenino entrou em seu quarto, deitou-se na sua cama e ficou observando o teto do quarto – ele havia colado uma série de figurinhas com imagens de vários lugares do mundo: templos chineses, florestas tropicais, montanhas congeladas, desertos escaldantes e vilarejos à beira-mar.
            Toque-toque.
            Caio sonhava em conhecer cada um daqueles lugares. Mas era um sonho idiota; ele estava destinado a jamais sair daquela "boca" de esgoto.
            Toque-toque!
            — Quem é? — questionou Caio, enquanto alguém batia à porta.
            — Eu! — uma voz feminina e aguda soava do outro lado.
            — Ah! — o jovem fez uma careta. — Entra.
            Era Janete, a irmã caçula de Caio. A menina tinha sete anos de idade e cinco centímetros e meio de altura. Seu rabo, semelhante ao rabo de uma girafa (só que mais comprido), balançava freneticamente ao poder entrar no quarto do seu irmão mais velho.
            — Por que você está triste? — perguntou Janete, curiosa.
            — Nada — respondeu Caio, sem desviar o olhar do teto.
            — Por que você está olhando para o teto? — interrogou.
            — Janete! — Caio virou o rosto e encarou a Pequenina. — O que você quer, afinal?
            — Eu ouvi você dizer que vai viajar em busca de amigos — explicou a menina, sorridente. — Posso ficar com o seu quarto? Diz que sim? Deixa?
            — Janete... — Mentalmente, Caio contou até dez e respirou fundo. — Eu não vou para uma viagem. O papai e a mamãe não deixam. Pode esquecer! Quem sabe, um dia, quando eu for embora?
            — Embora? — Janete arregalou os olhos, assustada. — Não, por favor! Não precisa me dar o seu quarto... Fica!
            Caiu soltou uma gargalhada e fez cócegas na irmã.
            Mais tarde, todos estavam reunidos na mesa para o jantar. Então, um estrondo abafado soou pela toca dos Pequeninos, fazendo tudo tremer, e, em seguida, uma enxurrada começou a cair ao lado de fora.
            — Vou verificar as barreiras de contenção — disse César, levantando-se e saindo da toca.
            Contudo, a toca começou a ser inundada por uma correnteza causada pela forte chuva.
            — Caio, pegue a sua irmã! — gritou César, enquanto corria para socorrer a família. — Joana, venha!
            Janete se agarrou no pescoço do irmão que, inesperadamente, correu para dentro do seu quarto em vez de seguir rumo à saída da toca. Enquanto isso, César e Joana tentavam atravessar a correnteza que se havia formado no interior do ralo; o único jeito de sair dali seria seguindo a correnteza – era impossível nadar contra.
            — Cadê o Caio e a Janete? — perguntou Joana, desesperada. — Cadê os meus filhos, César?
            — Fique calma! — pediu César, inquieto. — Caio! Janete!
            — Estamos aqui — respondeu Caio, saindo da toca com a irmã pendurada nos seus ombros. — Eu precisava buscar isto.
            Nas mãos do menino, o alfinete que ele havia conseguido mais cedo e uma mochila pendurada nas costas.
            A família toda pulou sobre uma tampa de plástico e utilizaram-na como um bote, descendo a correnteza em direção ao esgoto. O encanamento era espaçoso o suficiente para o bote e a família, mas a enxurrada estava muito forte e ameaçava afoga-los a qualquer instante.
            — Segurem firme! — gritou César.
            Logo à frente, a água parecia não seguir mais. Mas era uma ilusão de ótica, havia uma queda ali; era o acesso para a via de esgoto, encanamentos com 60 centímetros de diâmetro.
            Em uníssono, a família gritava enquanto caía no esgoto. Por sorte, todos conseguiram nadar de volta para o bote e manterem-se seguros.
            — Eu não acredito! — reclamou César. — Perdemos tudo! Tudo!
            — Não fique assim, meu amor — suplicou Joana, ainda abalada. — Ao menos estamos todos vivos. Podemos achar outro lugar mais seguro para construir.
            — O quarto do Caio nunca mais será meu! — Janete estava profundamente chateada com isso. Caio a abraçou forte, tentando conter o seu choro.
            — Aquela casa foi do meu pai... E do meu avô! — justificou César, passando a mão sobre a testa. — Eu fui um burro! Eu devia ter verificado as barreiras mais cedo... Eu me esqueci completamente.
            Com a sua irmã em seus ombros, Caio estava sentado na borda da tampa de plástico e com os olhos fixos no chão, como se estivesse em outro lugar. Joana cutucou o companheiro para que ele visse a situação do filho.
            — Filho? — César se aproximou de Caio e apoiou a sua mão no ombro do jovem. — Está tudo bem
            — Foi minha culpa — respondeu Caio, ainda olhando para baixo.
            — Como? — César não compreendeu a fala do menino. — O que você quer dizer com isso?
            — Foi tudo culpa minha. Eu destruí a nossa casa — revelou Caio, envergonhando, sem encarar o pai. — Mais cedo, quando fui ao quintal, as barreiras estavam fechadas. Eu abri para poder passar e ir até o quintal. Eu esqueci de arrumar quando voltei!
            — Caio, não pode ser... — César ficou visivelmente transtornado com a revelação.
            Janete percebeu a inquietação do pai e começou a chorar. Joana pegou a filha no colo e abraçou Caio.
            — César, deixe isso pra lá! — pediu Joana, preocupada.
            — Não! — César soltou um berro agoniado. — Ele destruiu a nossa família!
            — Não! — Joana abraçou o filho fortemente. — Não fale isso, César.
            — Preste atenção! — César puxou o queixo do filho para cima, obrigando o menino a encara-lo. — Assim que avistarmos terra firme, você desce do bote.
            — César! — Joana ficou boquiaberta.
            — Mãe, não! — Caio abraçou a mãe, segurando o choro e tentando demonstrar força. — Ele está certo. Eu vou seguir a minha vida. Está mais do que na hora. Prometo que vou recompensar vocês pelo meu erro. Eu realmente sinto muito.
            Duas horas depois, o bote aportou na beira de uma malha de ferro que impedia qualquer resíduo sólido, com mais de dez centímetros de altura e de largura, seguir em frente pelo esgoto.
            — Pronto — César se levantou do bote e amarrou-o em uma das barras de ferro da malha. — Subiremos para a superfície e montaremos acampamento.
            A família escalou o lixo que estava empilhado ali e conseguiu alcançar uma saída – eles estavam à beira de um córrego. César pegou alguns gravetos e montou duas barracas e uma fogueira.
            — Você pode ficar durante esta noite — o líder da família apontou para o seu filho mais velho. — Depois, você pega as suas coisas e vai embora pela manhã.
            — Ok — Caio entrou na sua barraca e ficou lá durante o fim da tarde e o jantar.
            No meio da noite, Caio saiu da barraca e viu que seus pais e sua irmã dormiam na outra barraca. Então, o jovem pegou uma mochila, um cobertor e o seu alfinete, e seguiu mata adentro.
            Quatro horas depois, o sol já raiava e Caio havia chegado perto de uma casa para humanos. Uma cerca gigantesca dava volta em toda a casa, impossibilitando a entrada – a "muralha" devia medir de um metro e trinta a um metro e setenta.
            Caio ficou estudando o ambiente tentando achar outro meio de ultrapassar a barreira e, de repente, percebeu uma grande árvore da qual pendia um tronco para dentro do quintal. O Pequenino não esperou: correu velozmente até o pé da árvore.
            — Ufa! — Caio transpirava. — Preciso treinar mais!
            Quando o jovem começou a escalar o espesso tronco da árvore, ele foi surpreendentemente interrompido:
            — Caio! — era uma doce e familiar voz feminina. — Espere por mim!
            — Janete! — O Pequenino se assustou quando olhou para baixo e viu a sua irmã com uma mochila rosa de boneca nas costas e estendendo os braços enquanto saltitava. — Mas o que você está fazendo aqui? Cadê o papai e a mamãe? O que houve com eles?
            — Eles foram embora — respondeu a menina.
            — E te deixaram? — Caio estranhou o fato. — Como assim?
            — Não foi bem assim. Eu saí escondida quando te vi indo embora — revelou Janete. — Eu escutei o papai e a mamãe me chamando, mas não voltei porque queria falar com você. Mas ouvi um barulho vindo do acampamento, então acho que eles foram embora.
            — Suba aqui — Caio fincou a sua "espada" na casca da árvore, pendurou a sua mochila, e desceu para ajudar a irmã a escalar.
            Quando chegaram no galho mais alto, tentaram localizar o acampamento dos pais.
            — Ali! — o Pequenino apontou para o local próximo à saída de esgoto. — O acampamento estava ali. Mas não está mais... Eles foram embora!
            — Olha lá! — Janete apontou para o córrego, um pouco mais à frente do acampamento. — O papai e a mamãe estão no bote, descendo o rio.
            — Ai, não! — o garoto bateu a mão na cabeça, desconsolado. — E agora, Janete? Nunca vamos conseguir alcança-los. Pelo menos não agora. Vamos entrar na casa e pegar algumas coisas emprestadas para conseguirmos chegar até o papai e a mamãe. Depois, eu vou embora.
            — Não! — gritou Janete. — Você não pode ir embora...
            — Lucas, vem tomar o seu café! — uma voz feminina soou pelo quintal, vinha de dentro da casa.
            Caio se agachou no galho da árvore e puxou Janete para perto de si. Havia um humano no quintal, uma criança.
            — Faça silêncio — murmurou Caio, fazendo um gesto com o dedo indicador e mostrando o menino no quintal.
            Janete fez uma careta; ela estava assustada e com medo, pois nunca havia ficado tão perto de um humano.
            — Vamos! — Caio caminhou com precaução sobre o galho e guiou Janete logo atrás. — Temos que entrar na casa. Assim que ele entrar, nós descemos pela muralha.
            Quando Lucas, o menino, levantou-se da grama e virou as costas para a árvore, Caio e Janete se seguraram na madeira da cerca e deslizaram até o chão. Sorrateiramente, os dois correram no meio da grama, mas pararam ao ver o menino humano virar a cabeça para trás e olhar bem na direção deles.
            — Ele viu a gente? — Janete ficou parada como uma estátua; o seu coração batia aceleradamente.
            — Acho que não — supôs Caio. — Abaixe-se bem devagarinho... Sem fazer barulho.
            — Ei! — Lucas, o menino, deu um sorriso ao ver as duas criaturinhas no meio do quintal. O menino correu até as criaturas.
            — Lucas! — novamente, a mãe do menino lhe chamava para tomar o café. Dessa vez, ela estava na soleira da porta, com um chinelo na mão. — Você vai vir ou não?
            Lucas olhou para a mãe, abaixou a cabeça e olhou para os Pequeninos. O menino humano estava sem saber o que fazer, mas achou que seria mais fácil procurar aqueles ratos depois do que se recuperar das palmadas da mãe.
            — Ah, droga! — assim, Lucas correu para dentro da casa.
            No mesmo segundo, Caio puxou Janete por todo jardim até chegar à parede da casa. Por sorte, havia um buraco, onde os irmãos entraram e alojaram-se.
            — Deita aqui no meu colo — Caio se sentou no chão de madeira e apoiou as costas na parede. Era um corredor bem estreito. — Vamos descansar um pouco e, depois, procuramos algo para comer.
            Assim que Janete apoiou a cabeça no colo do irmão, ela adormeceu. Caio soltou um breve sorriso e acabou dormindo também. Ainda bem que um tinha ao outro ali, pois nenhum deles fazia ideia de como seria dali pra frente.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

MESSOREM: O Aprendiz da Morte (C. 6)

            Um mês se passou desde que Felipe cumpriu a sua missão e libertou a alma de Luciana, sua prima. Agora, sem ver o seu guia misterioso há alguns dias, o garoto precisa lidar com o seu desafio final: ceifar as vidas dos seus pais; ao mesmo tempo, Felipe precisa pensar numa forma de limpar toda a sujeira para, então, tornar-se o Mestre da Morte.

Acesse os capítulos anteriores para relembrar a história:



Capítulo 6 – As últimas entradas

            O ultrabook de Felipe estava ligado e a sua tela exibia o seguinte:
            Eduardo Presto
            Luciana Pêra do Vale
            Gabriele Fontana
            Otávio Macedo
            Edivânia Costa da Silva
            José Fernandes de Abreu
            Marta Vicentini Ferraz
            Julio Vicentini Ferraz
            Os olhos de Felipe estavam vermelhos e arregalados diante da tela. Passaram-se quatro semanas desde que havia cumprido a sua missão com Luciana.
            Desde então, uma coisa puxou a outra: Gabriele, a melhor amiga de Luciana, estava no lugar errado na hora errada (embora o seu nome já estivesse no Messorem desde o início, indicando que a sua presença naquele instante não era por acaso); Otávio, o namorado de Luciana, foi morto pouco depois, quando chamou Felipe para uma conversa a sós, pois exigia saber o paradeiro de Luciana, que havia saído para encontrar o primo; Edivânia e José foram os próximos: eram os pais de Luciana que, ao encontrar o telefone da filha, descobriram que o sobrinho havia sido o último a conversar com ela antes de encontrarem ela e Gabriele mortas num terreno baldio na zona norte da cidade (Felipe não ficou contente quando foi chamado pelos tios para uma visita urgente e cheia de questionamentos).
            O homem que guiava os seus passos havia desaparecido desde a morte dos seus tios. Felipe estava por sua própria conta agora.
            Com a mudança de comportamento após tantas mortes, Marta e Julio, os pais de Felipe, começaram a acompanhar mais cada passo do menino. Por isso, os últimos dias estavam tão difíceis – Felipe sabia que teria de cumprir a sua última e, talvez, mais importante missão: ceifar as vidas dos seus progenitores.
            — Filho? Posso entrar? — era Julio, com a cabeça no vão da porta entreaberta.
            — Ué! Você já 'tá aqui dentro mesmo — respondeu Felipe, com um ar seco, enquanto fechava imediatamente o programa. — O que foi?
            — Eu e sua mãe queremos muito conversar com você, filho — respondeu Julio. — Estamos muito preocupados com você... Muita coisa aconteceu e você se fechou.
            — Eu não quero falar sobre o que aconteceu — o menino não fez rodeios. — Eu só quero ficar em paz!
            — Felipe Vicentini Ferraz — quando Julio "proclamava" o nome inteiro, Felipe já sabia que vinha bronca —, hoje à noite, às 7h, você vai sair com a sua mãe e me encontrar no restaurante onde jantaremos juntos, ouviu?
            — Mas... Pai! — Felipe tentou contestar.
            — Sem mais conversas... Às 7h da noite, estarei esperando por você e por sua mãe — Julio fechou a porta e saiu para o trabalho.

            Após sair do banho, Felipe procurou por sua mãe – então, viu que ela estava na sala assistindo à novela:
            — Mãe! — o menino gritou do alto da escada. — Pode vir aqui no meu quarto?
            Felipe estava cansado daquilo tudo; queria acabar com tudo; não queria mais ser o Aprendiz da Morte – ele queria ser o Mestre.
            — Estou indo, filho, só um segundo! — respondeu Marta.
            Enquanto isso, Felipe rapidamente vestiu a sua túnica preta e preparou a sua lâmina. Ele apagou a luz do quarto e deixou apenas um abajur aceso na penumbra.
            — Fê? — Marta bateu à porta do quarto. — Posso entrar?
            Felipe permaneceu calado no outro canto do quarto, em pé, segurando a gadanha.
            — Fê? — Marta abriu a porta e assustou-se com o que viu. — Felipe, que brincadeira estranha é essa?
            Mirando-a do outro canto da parede, Felipe soltou um sorriso malicioso e perverso e deu alguns passos à frente:
            — Não é brincadeira, mãe — explicou o menino; o seu coração, incrivelmente, não batia acelerado; a sua voz estava serena. — É tudo de verdade!
            Marta arregalou os olhos para o tamanho da lâmina afiada e manchada de sangue. Ela, disfarçadamente, deu alguns passos para trás a fim de sair do quarto e buscar ajuda.
            — Mãe? — chamou Felipe.
            — Sim, filho? — gaguejou a mulher.
            — Você não está com medo de mim, está? — Felipe sorriu mais uma vez. Ele sentiu uma espécie de prazer ao vivenciar toda aquela situação. — Afinal, sou o seu filho.
            — Não, meu bem... — respondeu Marta, aflita ao perceber maldade nas palavras do próprio filho. — É que estamos atrasados. O seu pai está esperando, lembra?
            — Ele não se importará com isso, não é? — supôs o garoto, aproximando-se mais de Marta. — Vai ter para ele também!
            Nesse instante, Marta saltou para trás e puxou a porta, mas sentiu um baque na sua cabeça e caiu desfalecida no chão enquanto o sangue escorria pelo seu rosto.

            Quase uma hora depois, Julio chegou em casa após inúmeras tentativas de falar com Marta ou com Felipe. Ele viu que o carro da esposa ainda estava na garagem, mas que as luzes da casa estavam todas apagadas, exceto pela pouca luz que vinha do quarto de Felipe.
            Julio correu para dentro de casa desesperado – já fazia alguns dias que estava desconfiando do envolvimento de Felipe com as mortes que haviam acontecido na vizinhança, afinal, o menino conhecia cada uma daquelas pessoas e havia ficado diferente após a morte de cada uma.
            Precavido, Julio discou o número da polícia e alegou um pedido de emergência.
            — Marta! — Julio gritava enquanto subia as escadas. — Marta!
            O pai de Felipe não hesitou em entrar no quarto do menino, mas caiu de joelhos no chão quando se deparou com a cena lastimável: Marta estava deitada no chão do quarto, numa poça de sangue que se esvaía da sua cabeça; na parede, com o sangue da mulher, estava escrito "MESSOREM".
            — O que você fez? — Julio pegou a cabeça de Marta e colocou sobre o seu colo enquanto afagava os seus cabelos.
            Felipe estava sentado na cama, observando os pais; o seu semblante permanecia calmo.
            — Ela ainda está viva — respondeu Felipe.
            — Mas que inferno! O que você pensa que está fazendo, Felipe? — gritou Julio, aos prantos. — Você pirou? Ela é a sua mãe!
            — E você é o meu pai — completou Felipe. — Olha, tente não se exaltar... Isso pode impedir que a sua alma parta com exatidão. Você pode ficar preso entre os dois mundos eternamente.
            — Cala a boca, moleque! — Julio se levantou e avançou na direção de Felipe. — Foi você, né? Você matou toda aquela gente... O menino da escola, a sua prima, os seus tios... Por quê, Felipe? Por quê?
            — Porque eu era o Aprendiz da Morte, pai — respondeu Felipe, melancólico. — Eu precisava exercer o meu ofício como um ceifador e enviar almas para a Morte. Agora estou prestes a me tornar o Mestre da Morte!
            — Você precisa de ajuda, meu filho! — sugeriu Julio. — Vamos! Antes que aconteça o pior... Deixe a gente te ajudar.
            — E quem disse que eu quero ajuda? — Felipe se aproximou dos pais. — Olha, vamos acabar logo com isso tudo. A alma de vocês anseia pela libertação!
            Marta acordou e gritou de dor. Julio tentou ajuda-la, mas não havia muito o que fazer ali.
            — Pronto. Vocês partirão juntos, como um casal — alegou Felipe. — Adeus!
            Então, o menino ergueu a lâmina e, num movimento rápido, passou a gadanha pelos pescoços de Julio e de Marta; as suas cabeças caíram e rolaram por alguns centímetros até pararem como se encarassem Felipe pela última vez.
            Em seguida, a tela do ultrabook piscou. Felipe se encurvou sobre a cama e ficou boquiaberto com o que viu: o programa Messorem não estava mais na tela do aparelho; fazendo uma busca rápida pelo sistema, era como se o programa nunca tivesse existido na máquina.
            Alguns minutos depois, antes que pudesse se recompor, limpar toda aquela bagunça e pensar numa saída para aquela situação, o quarto se iluminou com as luzes e se encheu com o barulho de sirenes policiais. Não demorou muito para que o seu quarto estivesse cheio de policiais:
            — Mãos ao alto! — berrou um agente. — Eu repito: mãos ao alto!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Conto: O Grande Espírito do Rio

Rio Amazonas, Isla de los Monos, Peru.

            Era quase dez horas da noite quando Marco, Teresa e Joaquim navegavam próximos da Isla de los Monos – a Ilha dos Macacos. Eles haviam alugado o barco pesqueiro Neruda em Tefé, no Amazonas e, desde então, foram seis dias até chegar naquele ponto do Rio Amazonas.
            Alfredo, o peruano dono do pesqueiro, era contra os propósitos daquela viagem, mas só os descobrira há poucos minutos, ao ouvir uma conversa entre os três expedicionários e a guia turística, Moema:
            — Vocês têm certeza disso? — questionava Moema, insegura. — Não tenho certeza do que vamos achar na Ilha. Pode ser tudo balela.
            — Não! — contestou Joaquim, convicto. — É verdade, eu sei. Todo o mundo aqui da região fala disso... Os aldeões têm essas superstições.
            — Só não me metam nessa encrenca — pediu Moema, preocupada. — Não quero estar envolvida com isso e sujar o meu nome. O que vocês vão fazer é exploração ilegal. Retirar espécimes destas regiões é crime ambiental.
            — ¡Maldito sea! — exclamou Alfredo, saindo detrás da cabine do piloto. O homem entendia a língua portuguesa muito bem, só não conseguia falar o idioma; por isso a necessidade de uma guia e tradutora.
            Um clima tenso se espalhou por todo o convés do Neruda.
            — ¿Estabas escuchando a escondidas? — Moema brigou com o pescador. — Usted há sido contratado sólo para hacerse cargo de la embarcación.
            — ¡Qué vas a hacer no es correcto! — insistiu Alfredo. O peruano suava de tanta tensão ao descobrir os reais motivos daquela viagem. — ¡Hijos de puta! ¡La Boiuna nos va a matar!
            — La Boiuna? — Moema se deu conta do que se tratava aquilo tudo. — ¡Eso es una leyenda, hombre! ¡Sólo eso!
            Com o medo estampado na cara, Alfredo voltou para a cabine do piloto e ficou encarando os quatro brasileiros.
            Marco, Teresa e Joaquim não entenderam nada; ficaram calados aguardando por uma explicação de Moema, que também ficou calada.
            Quase à meia-noite, Alfredo parou o barco alegando que estava muito cansado e que precisaria dormir um pouco para repor as energias. O Neruda estava num meandro, entre as árvores com copas em forma de guarda-chuva. Então, Moema decidiu explicar aos três expedicionários o que estava acontecendo:
            — Bom, vocês presenciaram o show do peruano — comentou Moema, lamentando o ocorrido.
            — Aquilo foi um barato! — disse Marco, entusiasmado. — O cara é uma figura!
            — Mas ele parecia muito bravo com alguma coisa — sugeriu Teresa, uma mulher de sensibilidade extrema.
            — Exatamente — confirmou Moema, com uma feição não muito feliz. — Vejam bem, o povo que vive às margens do Amazonas tem uma crença muito forte em algo muito antigo.
            — Era aquele tal de Boiúna? — questionou Joaquim. — Ouvi o Alfredo comentando algo sobre isso.
            — Isso! Isso mesmo — respondeu Moema, assentindo com a cabeça. — A Boiúna é tida como O Grande Espírito do Rio Amazonas, capaz de encarnar numa gigantesca serpente para engolir as embarcações com os seus navegantes que fazem mal à natureza.
            — Não tenho medo de sucuri — brincou Marco. — Já matei várias!
            — ¡Eres un idiota! — era Alfredo. O homem havia acordado ao ouvir falarem sobre a Boiúna. — ¿No se dan cuenta que nos encontramos en el território de la Boiuna? Ella es la dueña de este río.
            — Amigo, venha cá... — Joaquim, o mais jovem de todos, envolveu o peruano com o braço direito e o levou para a popa do Neruda. — Que história é essa de Boiúna? Fale com calma para que eu entenda.
            — La Boiuna es el ser vivo más cruel y poderoso — alertou Alfredo, espreitando o Rio Amazonas. — Ella puede cambiarse a la gente si quiere engañarnos. Ella podría incluso convertirse en un recipiente para nosostros para atraer y ahogamos.
            — Espera um pouco... Não entendi nada! — Joaquim lamentou com uma expressão preocupada.
            — Ele disse que a Boiúna é tão poderosa que poderia se transformar numa embarcação para nos atrair e nos afogar — traduziu Moema, soltando um leve sorriso. — Mas é claro que isso é uma lenda!
            — ¡Esto no es una leyenda! — berrou Alfredo; o seu grito ecoou pela mata e pelo rio, fazendo-os perceber que estavam realmente sós.
            — Por que não vamos dormir? — propôs Teresa, desejando acalmar os ânimos dos navegantes.
            Assim, todos se encaminharam aos seus colchonetes para tentar descansar.
            No meio da noite, após ouvir um estalido, Marco se levantou e caminhou com uma lanterna até o púlpito de proa para tentar ver se algo havia batido no barco. O homem procurou no foco de luz e forçou a visão, mas não conseguiu enxergar nada. O rio corria calmo; não havia pássaros, não havia peixes; nem mesmo as árvores balançavam.
            Quando desligou a lanterna e virou-se para voltar ao seu colchonete, Marco foi surpreendido por alguém. Era uma figura feminina oculta pela sombra noturna; ela estava com os ombros tensos e os cabelos bagunçados.
            — Oi! Moema? Terê? — perguntou Marco, acendendo a lanterna na direção da moça.
            Então, Marco se assustou com o que viu – aqueles olhos completamente negros o encararam e puderam enxergar a sua alma. Num súbito ataque, a mulher avançou sobre o homem e o jogou contra o Rio Amazonas.
            No rio, Marco teve de lutar contra a correnteza e contra a mulher, que parecia ter uma força anormal. Mas não demorou muito para o expedicionário desistir e acabar-se afogando nas águas do Rio Amazonas.
            Ao amanhecer, Teresa e Joaquim procuraram por Marco no barco todo:
            — É melhor descermos até as margens e procurarmos por ele. Será que ele não quis, de repente, fazer xixi? — sugeriu Teresa, tentando não demonstrar a sua real preocupação.
            — Ele é louco, então, pois temos recipientes adequados para isso aqui no barco — argumentou Moema, aparentando estar incrédula com o sumiço do homem. — Não é seguro sair sozinho do barco e andar pela floresta; há animais à solta!
            — ¡Yo he dicho! Fue la Boiuna! — gritou Alfredo, apontando para o rio.
            No rio, algo despertou o temor dos tripulantes do Neruda – um corpo boiava nas margens do outro lado do Rio Amazonas; era o corpo de Marco.
            — Meu Deus! — gritou Teresa, chorando em desespero. — Quem fez isso?
            — Alfredo, pare de assustar as pessoas! — exigiu Moema, encarando o pescador e dono do barco. — Já não basta o que houve com o Marco? Leve a gente até a outra margem.
            — Si señora — Alfredo obedeceu ao pedido de Moema assim que a olhou nos olhos. — Como quieras.
            Então, o Neruda navegou até a outra margem do rio e, com algum esforço, os tripulantes conseguiram trazer o corpo de Marco de volta para o barco. O corpo estava inchado e cheio de marcas rochas; os olhos estavam revirados, exibindo apenas a esclera branca.
            — Vamos embora! — gritou Teresa, desesperada.
            — Teresa? — Joaquim ficou confuso... — Não terminamos...
            — Não vamos pegar mais nada! — decidiu a mulher, transtornada. — Vamos embora deste lugar... O Marco não tinha que ter morrido!
            — Mas foi um acidente! — insistiu Joaquim. — Você acreditou mesmo nessa historinha pra assustar criança?
            Moema lançou um olhar assustador a Joaquim, mas o jovem nem se deu conta; mas Alfredo capturou aquela ameaça e quase se jogou do Neruda naquele instante, mas preferiu manter a calma.
            — Será mejor que nos vayamos — Alfredo disse, tentando não encarar Moema. — Estamos todos muy nerviosos. Si seguimos com el viaje, no vamos a enfocar.
            — Tudo bem — Joaquim teve de concordar; todos estavam muito abalados.
            Então, o Neruda voltou a descer o Rio Amazonas rumo a Tefé.
            No cair da noite, o céu foi encoberto por densas nuvens cor-de-chumbo; não demorou muito e começou a cair uma tempestade que impedia a visão nítida do rio à frente:
            — ¡Maldita sea! — vociferou Alfredo ao concluir que precisaria esperar a chuva forte passar. — Tendremos que esperar.
            Dentro da cabine, Teresa, Joaquim, Moema e Alfredo assistiam a tempestade cair; o corpo de Marco perecia sobre o convés próximo à popa do Neruda. As árvores se curvavam sobre o rio com o vento forte, que assobiava assustadoramente. Raios e trovões clareavam o céu e estremeciam a terra.
            — Meu Deus! Estamos ferrados — praguejou Teresa. — A gente precisa ir embora daqui.
            — Você enlouqueceu? — Moema encarou, com indignação, a expedicionária. — Não está vendo a tempestade? Se o Alfredo tentar ligar este barco, seremos levados pela correnteza como uma folha de papel!
            — No podremos irnos de aqui hoy — lamentou Alfredo, ainda evitando olhar para Moema. — Tal vez tengamos que dormir aqui esta noche. ¡No quiero perder mi barco durante la tormenta!
            — O Alfredo está certo — concordou Moema, apoiando a sua mão esquerda sobre o ombro direito de Alfredo. — Não vamos fazê-lo perder o seu barco.
            Assim, os quatro permaneceram ali, na cabine, por cerca de três horas até caírem no sono.
            Joaquim acordou assustado ao ouvir um barulho vindo do rio. Levantou-se e caminhou até o púlpito de proa; foi quando viu outra embarcação se aproximando do Neruda – era um posto flutuante de combustível da Petrobrás, colorido em verde.
            O posto flutuante se aproximou o bastante para que fosse possível saltar sem dificuldades do barco pesqueiro Neruda para a embarcação da Petrobrás. E foi exatamente isso o que Joaquim fez:
            — Oi? — dizia Joaquim, enquanto batia nas portas da embarcação. — Tem alguém aí?
            Uma das portas, então, abriu-se e exibiu ao moço um compartimento cheio de computadores e rádios. Sem pensar duas vezes, Joaquim correu para dentro do local a fim de tentar comunicar-se com alguém em busca de ajuda. Contudo, a porta se fechou com toda a força logo que ele pisou no compartimento.
            — Ei! Me deixe sair daqui! — gritou Joaquim, enquanto esmurrava a porta de aço. — Socorro!
            Uma silhueta feminina surgiu atrás de Joaquim e soltou um sussurro:
            — ¡Tú eres mio, no creyente! — a voz feminina lhe pareceu familiar, mas era gélida e assombrosa. — Cierra tus ojos y comience a orar.
            Joaquim começou a tremer dos pés à cabeça e, sem controle algum dos seus impulsos, urinou nas calças. O jovem cerrou os olhos com toda a força e começou a fazer preces:
            — Pelo amor de Deus... — implorava o homem, enquanto tentava, sutilmente, pôr-se de joelhos sobre o chão do compartimento sombrio. — Eu prometo que nunca mais volto aqui!
            — ¡Cállate la boca! — a mulher soltou um berro que parecia o granido duma coruja, o que fez Joaquim silenciar-se.
            Quando se deu conta, Joaquim viu que havia uma infiltração no compartimento onde estava; a água já estava ao nível das suas coxas. O jovem ergue-se de supetão, assustado, e tentou abrir a porta mais uma vez – inutilmente. Foi só aí que ele, então, concluiu que a embarcação estava afundando no Rio Amazonas.
            — Não! — ele gritava e chorava desesperado, sem esperanças. — Me deixe ir embora! Por favor!
            — Olha só... — a voz feminina mudou o seu tom para algo mais melódico enquanto a silhueta se aproximava de Joaquim. — Não são só criancinhas que ficam assustadas!
            O olhar de Joaquim era perturbador – ele estava transtornado com o que viu. O medo e o pavor foram tão intensos que isso lhe causou uma série de sensações incômodas: primeiro, uma forte dor atingiu-lhe o peito e as costas, causando-lhe uma falta de ar; a sua língua começou a enrolar e ele começou a sentir enjoo o braço esquerdo formigava como se milhares de insetos caminhassem por ali; uma vertigem lhe acometeu; e, por fim, Joaquim caiu morto.
            Aos poucos, o porto flutuante da Petrobrás afundou nas frias águas do Rio Amazonas até ancorar na talvegue do rio. A mulher lançou um último olhar ao corpo do jovem e saiu pela porta de aço, que se abriu assim que a silhueta feminina encostou.
            Enquanto isso, Teresa e Alfredo procuravam por Joaquim, mas, como não o encontravam, decidiram acordar Moema, que dormia pesadamente no convés do Neruda:
            — Moema! Acorde — Teresa cutucou o ombro da guia. — O Joaquim... Ele está desaparecido!
            — O quê? — Moema levou as mãos aos olhos, tentando limpar o seu campo de visão. — Como desapareceu?
            — Não sei... — respondeu Teresa, com a voz chorosa. — E se tiver acontecido o mesmo que aconteceu ao Marco?
            Nesse instante, Teresa olhou para a popa da embarcação, esperando achar o corpo de Marco, que não estava mais lá.
            — Marco! — gritou Teresa. — O corpo dele sumiu!
            — Lárguemonos de aqui — decidiu Alfredo, segurando a roda do leme e começando a navegar com o Neruda. — Tengo una familia que cuidar.
            — Largue o timão — Moema proferiu aquelas palavras com um ar de seriedade. — Agora.
            Sem hesitar, Alfredo soltou a roda do leme e sentou-se num banquinho, tremendo-se todo.
            — Mas o que está fazendo, Moema? — questionou Teresa, sem entender a atitude da guia. — Vamos embora logo deste Inferno!
            — Aqui não é o Inferno, mulher — a voz de Moema ficou mais grave e um pouco sibilante. — Aqui é o Paraíso. São vocês, humanos, que fazem disto o Inferno. São vocês, humanos, é quem destroem tudo o que veem pela frente. São vocês, humanos, quem acreditam que são a forma de vida mais inteligente.
            — Por que está falando assim? — Teresa caminhava, de costas e em passos curtos, rumo à proa do barco. — Está querendo assustar a gente?
            — Alfredo já mijou nas calças — zombou Moema. — Mas você... Ah! O seu presente te aguarda!
            — ...Santificado sea tu Nombre; vena a nosotros tu Reino — orava Alfredo, ajoelhado na cabine, de olhos fechados. — Hágase tu voluntad en la tierra como en el cielo.
            — ¡Cállate! — sibilou Moema; os seus olhos estavam inteiramente negros e, da sua pele, começavam a "brotar" escamas. — Yo soy la diosa aquí.
            — Moema, pare com isso! — exigiu Teresa, tentando uma postura mais firme.
            Simples e direta, Moema saltou sobre a mulher e mordeu o seu braço, arrancando um bom pedaço da pele de Teresa:
            — Filha duma puta! — gritou Teresa. — Por que fez isso? Socorro, Alfredo, me ajude!
            — Chega! Cale-se de uma vez por todas! — ordenou Moema, que agarrou a mulher e saltou com ela para dentro das águas do rio.
            No fundo do rio, Teresa lutava com todas as suas forças, o que era inútil já que a adversária era algo sobrenatural. O abraço de Moema foi tão forte que Teresa rapidamente desmaiou e afogou-se, engolindo a água do Rio Amazonas até o seu corpo inflar como um balão.
            Depois disso, Moema escalou de volta o Neruda e posicionou-se diante de Alfredo, que tremia – ele parecia ter Parkinson, de tanto que tremia:
            — Pois bem... — Moema encarou o pescador. — Es tu turno.
            — ¡Por amor de Dios! — Alfredo chorava desesperado. — Nunca hice ningún daño a la naturaliza. Pesco sólo para mi familia a sobrevivir.
            — E quanto a esse bando de exploradores que você trás para o rio? — lembrou Moema, furiosa. — Ya sabes lo que quierem es explorar la naturaleza.
            — ¡Lo juro! — o homem se ajoelhou perante a mulher e suplicou. — Jamás voy a hacer... ¡Sólo te ruego que me dejes ir a mi familia!
            — Tudo bem — concordou Moema, com um sorriso perverso. — Você poderá voltar à sua família. No entanto... A partir de hoje, sempre que algum explorador te procurar, você deixará muito claro que conheceu a Boiúna de perto.
            — ¡Lo haré, lo prometo! — prometeu Alfredo, atrevendo-se a beijar os pés de Moema, que não interferiu.
            — Além disso, na sua volta para o seu vilarejo, você passará em todas as aldeias e vilarejos às margens do Rio Amazonas e dirá o seguinte: — estabeleceu a criatura misteriosa — diga a todos que O Grande Espírito do Rio, a Boiúna, ainda existe e sempre existirá. ¡Ay de quien haga tropezar uno de mi! ¡Ahora, continúe su viaje!
            Assim, Moema, a Boiúna, saltou e mergulhou no rio. Segundos depois, enquanto Alfredo retomava o curso do rio, o homem avistou uma enorme criatura serpenteando na superfície do Rio Amazonas, uma gigantesca cobra de escamas escuras, que refletiam o brilho das estrelas.