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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Conto: In(tolerância)

            O conto a seguir é inspirado no massacre ocorrido numa boate em Orlando, cidade dos Estados Unidos, no dia 12 de junho de 2016. A ideia é provocar a reflexão sobre o tipo de sociedade que somos e o tipo de sociedade que desejamos ser.
* * *
            Às sete da manhã de domingo, o noticiário informou que um atirador, conhecido como Almir Khouri, de 30 anos, causou a morte de mais de 50 pessoas e deixou outras 60 feridas. Após um tiroteio, a polícia conseguiu interceptar o atirador, que acabou morrendo no local. O atentado foi iniciado por volta das duas horas da manhã e, de acordo com testemunhas, Almir atirou por vários minutos sem parar; alguns rapazes disseram que o tiroteio chegou a durar uma música inteira. Os familiares e amigos das vítimas fazem vigília em protesto à violência e à intolerância em frente à boate; diversos grupos, ao redor do mundo, também demonstraram solidariedade à causa e indignação com o massacre.
* * *
Horas antes.
            Numa cidade pequena, um dos programas mais prediletos da população jovem é sair para as boates e para os bares no fim de semana. Com Felipe não era diferente; se havia algo que agradava a ele, era sair para a balada com os amigos e com o namorado. Naquela noite de sábado, o jovem de 27 anos preparava-se para uma festa com DJs convidados numa boate da região central da cidade.
            — Boa diversão, filho — desejou Luana, mãe de Felipe. — Leve a sua chave porque você vai chegar tarde, né?
            — Vou chegar cedo, mãe... Amanhã de manhã — brincou Felipe, dando um beijo no rosto da mãe e saindo.
            Ao lado de fora da casa, havia um Sportage vermelho estacionado em frente ao jardim:
            — E aí, gatão! — era Pedro, o namorado de Felipe. — Até que você foi rápido desta vez...
            — Engraçadinho — Felipe entrou no carro e beijou o namorado.
            Assim que chegaram à boate, o casal comprou os ingressos e desceu para a pista de dança. A casa estava lotada – os dançarinos e as dançarinas estavam fazendo uma apresentação no palco enquanto a multidão delirava. Felipe e Pedro logo começaram a dançar com alguns amigos que encontraram.
            Por volta de uma e meia da manhã, Pedro demonstrou estar um pouco cansado:
            — O que você tem? — perguntou Felipe, enquanto puxava o namorado de volta para a pista de dança. — Está cansado?
            — Eu trabalhei hoje, lembra? — comentou Pedro, sorrindo e olhando nos olhos de Felipe. — Mas fica tranquilo; se você ainda quiser ficar, não tem problema.
            — Só mais um pouco? — Felipe deslizou o seu corpo para "embalar" o namorado na sua dança.
            — Quanto tempo você quiser! — respondeu Pedro, beijando o namorado.
            A música preferida do casal começou a tocar: "I lived", da banda OneRepublic.
* * *
            Do outro lado da cidade, um rapaz de 30 anos havia acabado de sair de casa. Ele caminhou em passos pesados até o ponto de ônibus, onde embarcou num coletivo rumo ao centro da cidade.

Hope when you take that jump
You don't fear the fall

            Seu nome era Almir, descendente de afegãos e morador da cidade desde o seu nascimento. Há alguns meses, Almir vinha demonstrando um comportamento estranho sempre que via ou ouvia pessoas do mesmo sexo tendo um relacionamento homoafetivo. Os seus pais até tentaram evitar que ele tivesse qualquer tipo de contato com tais situações a fim de não deixar o filho estressado.

Hope when the crowd screams out
They're screaming your name

            O ônibus em que Almir estava estacionou em seu ponto final e o rapaz desembarcou. Ele viu um letreiro néon piscando na escuridão e seguiu para o seu destino. Enquanto caminhava, Almir mexia na mochila em suas costas tentando arrumar alguma coisa.

Hope if everybody runs
You'll choose to stay

            O rapaz puxou um rifle de dentro da bolsa e mirou nos seguranças da boate. Mentalmente, levaram apenas cinco segundos para o tiroteio iniciar.
* * *
            Felipe ouviu um breve e agudo bipe do seu relógio de pulso e verificou que já eram duas da manhã.

Hope that you fall in love
And it hurts so bad

            Enquanto se juntava a Pedro no bar da boate, Felipe ouviu barulhos fortes que pareciam vir do piso superior; eram como estalidos.
            — O que foi isso? — Pedro tentou concentrar-se no estalido. — Você consegue ouvir?

The only way you can know
You gave it all you had

            — É — concordou Felipe. — Eu ouvi.
            No segundo seguinte, o que deu para ouvir foram gritos sobrepostos aos estalidos, que ficaram mais fortes. De repente, as pessoas que estavam no piso superior da boate desceram correndo, derrubando quem estava na frente, e gritando:
            — É tiro! Corre! — berravam em coro.

And I hope that you don't suffer
But take the pain

            Felipe e Pedro se olharam e só pensaram em se agachar. Cada um olhava para um lado enquanto todos corriam pela pista de dança, parecendo formigas quando têm o seu formigueiro destruído.

I owned every second that this world could give

            O casal correu para trás do bar e ficou escondido atrás do balcão junto a duas meninas e outro rapaz. Os cinco tremiam de tanto pavor, mas estavam tão chocados que não conseguiam emitir nem um grito.

I saw so many places, the things that I did

            Então, embora estivesse escuro, Felipe conseguiu ver o que acontecia: havia um homem segurando um rifle e atirando contra todos na boate. Ele mirava e atirava sem parar, repondo a munição com maestria.

Hope that you spend your days
And they all add up

            — Eu não quero morrer! — Felipe chorou segurando a mão de Pedro com toda a força.
            Enquanto isso, uma das meninas ao seu lado caiu para trás quando foi atingida por uma bala no meio da cabeça.

And when that sun goes down
Hope you raise your cup

            — Puta que o pariu! — Felipe e Pedro se levantaram imediatamente, tropeçando nos corpos mortos e feridos que estavam jogados e esbarrando na multidão que corria pela pista.
            A polícia, enfim, havia chegado. Mas aquilo não fez do pesadelo um sonho – o tiroteio só aumentou; enquanto Almir vitimava uma multidão no interior da boate, a polícia atirava contra as paredes do local tentando parar o ataque.

I wish that I could witness
All your joy and all your pain

            Pedro deu um sinal para Felipe, mostrando que havia uma possível saída. Contudo, Felipe não prestou atenção ao sinal; o jovem só conseguiu ver Pedro subir pelas escadas junto a algumas outras pessoas com toda a pressa.
            Felipe tentou seguir o namorado, mas foi encurralado pelo atirador, que segurava o rifle e sorria.

But until my moment comes
I'll say I did it all

            O jovem se virou e correu para os banheiros da boate, enfiou-se dentro de uma das cabines e sentou-se em posição fetal, rezando e pedindo para sair dali com vida. A única coisa que lhe ocorreu foi despedir-se de quem amava, pois não sabia o que aconteceria.

I owned every second that this world could give

            "Fica bem. Eu amo vc!", foi o que enviou para o celular do namorado.

I saw so many places, the things that I did

            "Mãe... Estou preso na boate!", começou a escrever para a mãe. "Tem um cara atirando". Em seguida, ele viu a resposta da mãe: "Na boate? Você está bem? Fique aí!".
            Então, um estrondo derrubou a porta do banheiro. Almir havia entrado ali para acabar com quem ainda estivesse vivo.
            "Ele está vindo, mãe!", respondeu Felipe; "Eu te amo, mãe, te amo!".

Yeah, with every broken bone
I swear I lived


            Uma bala cruzou o olho direito de Felipe enquanto outra bala penetrou o seu peito e atingiu o coração. A última coisa que o jovem conseguiu enxergar foi o líquido vermelho e viscoso tomar conta do seu corpo até tudo escurecer.

sábado, 7 de novembro de 2015

O que as nossas crianças sabem sobre o racismo?


            Trabalhar como educador me permite algo que poucos têm a chance: de alcançar os sentimentos das crianças e levar-lhes novos conhecimentos e novos valores.
            Como um escritor, costumo utilizar a leitura e a escrita como ferramentas no meu trabalho; ferramentas que potencializam essas ações.
            No mês da Consciência Negra, decidi abordar com a turma a questão do racismo, das conquistas e das desigualdades dos negros na sociedade. É claro que já tínhamos discutido o assunto algumas vezes durante o ano, mas aproveitei o mês para focar no tema.
            Então, distribui pedaços de folha de papel pautada, lápis e borrachas. Pedi que cada um escrevesse tudo o que soubesse sobre o racismo, sem preocupar-se com o que poderia estar certo ou errado, justamente porque a atividade não se tratava de julgar o certo e o errado. A atividade tinha como propósito avaliar e "diagnosticar" o conhecimento prévio das crianças sobre o tema, de modo que eu possa elaborar o material das discussões de forma que eu consiga desvendar alguns mitos e desconstruir alguns valores construídos pelo preconceito embutido pela sociedade.
            O resultado da atividade foi incrível – não no sentido positivo da palavra. Mas não pude crer em como as crianças ainda recebem valores e aprendem conceitos equivocados sobre um assunto tão abordado nos últimos anos. Há uma grande confusão entre o racismo e a consciência negra, entre referir-se a um negro como "negro" e ofender um negro com os xingamentos mais absurdos.
            A seguir, compartilho com vocês um pouco do que foi escrito. Acredito que este material possa provocar-nos e levar-nos à reflexão sobre como transmitimos os valores e conceitos na sociedade. Acredito que possamos refletir sobre como queremos o nosso futuro, um futuro livre de preconceitos.
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Por que o racismo existe?
            Eu não sei o porquê, mas, só porque somos negros, os brancos são racistas com a gente. Às vezes, tenho vontade de me pintar todo de branquinho para não ouvir mais essas coisas.
            Quando me chamam de "pretinho" ou de "cerâmica de chão", eu me sinto muito ofendido.
            No mundo, tem mais branco do que negro, e os branco acham que podem maltratar os negros por isso, por causa da cor.
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            Eu acho o racismo muito ruim. Já vi muito racismo, como uma pessoa chamando a outra de "escravo", um menino chamando o outro de "café". Eu mesmo já fui preconceituoso com um menino; eu o chamei de "asfalto". eu me arrependi por que, noutro dia, esse menino me defendeu de dois meninos; nunca mais fui preconceituoso com ninguém.
            Tenho muito orgulho de ter amigos negros.
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            O racismo é uma coisa que é feia; não pode ser usado contra as pessoas e contra os amigos nem na escola. Eu já fui zoado de "macaquinho branco" – não podem fazer isso!
            Chega de ser racista! Parem agora!
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            A consciência negra é uma coisa horrível para uma pessoa. Quando se fala que a pessoa é "macaco", "negro" e "preto", a pessoa fica triste. Também, todo o mundo é igual. A pessoa que faz essas coisas é preconceituosa.
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            O racismo faz muito mal às pessoas. Ele muda o sentimento das pessoas de bem para mal. O combate ao racismo é bem impossível.
            Eu já li que o racismo é uma discriminação baseada na suposta inferioridade de certas raças. O racista é relativo ao racismo.
            Negro, branco, moreno, são todos seres humanos; não têm diferença nenhuma. Não usem o racismo nunca!
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            Eu já sofri racismo; é muito ruim, mas, depois, eu não ligo mais. É muito ruim para as pessoas que sofrem.
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            Faz bem combater o racismo.
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            O racismo é quando uma pessoa branca se acha mais só porque ela é branca e a outra é morena.
            Eu sou contra o racismo. É muito feio!
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            A consciência negra é uma coisa boba porque nós somos todos iguais. Tipo, se você me chama de negro, você está xingando você mesmo porque você é igual a todos.
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            Eu não tenho preconceito com negros, mas isso é muito antigo. Eles apanhavam, mas isso mudou.
            Eu não tenho preconceito porque todos são iguais; eu só não sou da mesma cor. Só isso! Eu tenho o mesmo corpo humano e as mesmas partes do corpo.
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Por que o racismo é ilegal?
            O racismo é ilegal porque só traz coisas ruins, além de trazer mágoas para as pessoas, como por exemplo: você xinga uma pessoa por causa da cor diferente da sua; maltrata uma pessoa porque ela é especial ou sei lá...
            Vamos falar do preconceito. Ele também é muito ruim: é quando você não gosta da pessoa por causa das condições e da classe social dela. Fico muito sentida com o episódio de Carrossel (com a Maria Joaquina e o Cirilo): ela maltrata ele, despreza ele porque ele é o único negro da turma e não tem a mesma condição que os demais da turma.
            Uma coisa que todos nós devemos aprender na vida: SOMOS TODOS IGUAIS. Quantas vezes eu já chorei por causa de problemas assim? PRECONCEITO e RACISMO! Já cometi muitos erros na vida por causa de bullying, mas, aos poucos, fui aprendendo que somos todos iguais.
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            Eu acho que o racismo atinge muito os sentimentos, tanto das pessoas negras quanto das pessoas brancas, porque, mesmo que o branco xingue o negro e perceba que ele fez algo de errado, se fosse eu, ficaria com remorso.
            Eu penso assim: todo o mundo tem de pensar duas vezes antes de praticar o racismo porque, se a pessoa for branca ou negra, tenho certeza de que ela é feliz com a cor que tem. Não precisa ter vergonha da cor que tem, ame a si e se valorize.
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            Eu também sofri racismo na minha escola: me chamaram de "branquela azeda". Isso é muito ruim e magoa bastante.
            Bom, tem muita gente que gosta de fazer os outros sofrerem e muita gente que quer ajudar quem está magoado. O preconceito é assim: magoa, sofre, chateia e as pessoas ficam num canto, depressivas, podendo até se matar.
            Quem planta, colhe o que plantou. Então, não façam isso. Seja cuidadosa(o).
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            O racismo é coisa ilegal. A maioria das pessoas comete o racismo. As pessoas que cometem sabem que estão machucando os outros e, a maioria, são pessoas brancas cometendo o racismo com pessoas negras.
            Os brancos acabam falando que é muito vergonhoso ser negro. Vergonhoso não é ser negro; vergonhoso é cometer o racismo.
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            O negro sofre pelo racismo. Tem criança que também sofre racismo.
            (Raça+ismo) s.m.: segregação; prática de preconceito racial; antipatia ou aversão a outras raças.
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            O racismo é violência com palavras quando a sua cor é negra ou branca. Para mim, não existe isso. Todos nós somos iguais.
            O que mede uma pessoa é o caráter da pessoa – se a pessoa é uma pessoa boa.
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            Eu sei o que é o racismo porque eu já sofri racismo. A menina me chamou de "neguinha da Barra Funda" e, por isso, eu quis fazer progressiva. Mas, quando eu me olhei no espelho, eu percebi que eu estava errada. No dia que ela me chamou, eu não tinha falado para a minha vó e, quando eu percebi, eu tinha que ter falado desde o começo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quando nasce a intolerância?

            Pra quem ainda não sabe, estou trabalhando como Orientador Socioeducativo num Centro para Crianças e Adolescentes aqui da zona norte de São Paulo. Minha turma conta com cerca de vinte e cinco crianças na faixa etária dos nove aos quinze anos de idade.
            Antes mesmo de entrar lá, eu já havia elaborado um projeto de fomento à leitura e à escrita; mas, quando soube que faria parte da equipe de Orientadores, expandi o projeto e dividi-o em três eixos. Hoje, o projeto consiste no Palavreando, no Fazendo Arte e no Socializando – os três, trabalhados simultaneamente, propiciaram a criação de um quarto: a Mostra Cultural.
            Cada projeto foi nomeado de forma que seu nome o defina.
            O Palavreando objetiva estimular a leitura e o desenvolvimento da escrita; nele, trabalharemos a produção de diversos gêneros: mapas, manchetes, poemas, notícias, narrativas, quadrinhos, rótulos, receitas, gráficos, placas etc. Isso fará com que as crianças e os adolescentes conheçam as possibilidades tanto no mundo da leitura como no da escrita – na escrita, por exemplo, elas aprenderão que não precisam só copiar, mas que elas podem criar.
            O Fazendo Arte será focado na apreciação de obras de arte, filmes, músicas e fotografias. Contextualizarei cada gênero de acordo com as necessidades encontradas na turma; discutiremos sobre os possíveis significados de cada obra; conheceremos os autores e o contexto sociocultural de cada obra. Após todo esse trabalho, no caso das obras de arte, realizaremos releituras e versões – isso permitirá que eles se apropriem dos detalhes passados despercebidos, bem como desenvolvam sua criatividade e sua criação.
            O Socializando foi criado, especialmente, para fazer com que a opinião das crianças e dos adolescentes seja ouvida – afinal, eles também fazem parte da Sociedade e têm o direito de opinar em todo e qualquer debate. Para isso, levarei discussões sobre temas contemporâneos, mas também discutirei temas os quais são evitados: morte, medos, futuro etc. Ainda no Socializando, criaremos um blogue destinado à postagens das atividades realizadas durante o ano, além das mensagens e bilhetes que eles escreverão sobre cada tema discutido.
            A Mostra Cultural, que tem previsão para acontecer ao fim do semestre, será um evento idealizado por eles desde o início: decoração do espaço, produção dos convites, organização das atividades a serem exibidas etc. Isso fará com que eles conheçam o processo de produção de um evento, onde cada um é responsável por uma parte para que todo o grupo consiga exercer o trabalho final.
            E de uma semana e meia pra cá tem sido assim: produções, discussões, ideias... Desde ontem, por conta do Carnaval que está por vir, estamos trabalhando sobre o tema: ontem, fizemos uma pintura do quadro Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral – falamos um pouco das características carnavalescas que o quadro traz; hoje, pedi que eles retratassem no papel (em desenho ou em texto), aquilo que eles imaginam ao ouvir a palavra Carnaval.
Um Sábado Qualquer
            Nesse momento, ouvi um comentário: “Carnaval não é de Deus!”. No mesmo instante, uma das crianças veio me questionar isso. Perguntei à criança que disse a frase se ela sabia o que estava dizendo; então, outra criança repetiu: “Mas Carnaval não é, mesmo, de Deus, Júnior!”. Então, decidi explicar um pouco sobre a festa conhecida mundialmente.
            Contei às crianças que, possivelmente, a palavra carnaval tem dois significados: carne vale – que significa “adeus, carne!”; e carne levamen – que significa “supressão da carne”. Ambos os significados remetem ao que conhecemos hoje na festa – o período que antecede a Quaresma, uma “pausa” de quarenta dias nos excessos cometidos durante o ano; um período em que a religião católica acredita que se deve existir a privação da carne.
            Pedi às duas crianças que insistiram que a festa “não é de Deus”, que não tentassem impor isso às demais crianças, pois cada um é livre para acreditar ou não acreditar no que quiser. Com isso, uma outra criança comentou: “Júnior, eu acredito em outros deuses, como Buda, os deuses gregos, os deuses africanos...”. Isso gerou uma polêmica ainda maior. Do outro lado, alguém disse: “Deuses africanos? Credo! Eu não gosto de africanos...”.
            Aquilo me deixou surpreso e triste, ao mesmo tempo. Eu fiquei sem saber como agir. Pedi à criança que não disse mais aquilo, pois era um desrespeito muito grande, um preconceito. Expliquei que, no mundo, existem milhares de culturas, e cada cultura acredita em algo. Comecei a citar alguns dos deuses cultuados ao redor do mundo, hoje e antigamente: Zeus, Poseidon, Hades, Afrodite, Atena, Deus, Tupã, Guaraci, Jaci, Jurupari, Hórus, Ísis, Tot, Set, Lilith, Brama, e disse que há centenas de outros. Isso gerou um alvoroço.
            “Só existe um Deus!”, disse uma criança. Ali, eu percebi que não adiantaria continuar com aquela conversa; não naquele momento, sem um preparo maior. Pedi, mais uma vez, que ninguém tentasse impor seu Deus aos demais, que cada um acreditasse no que quisesse, mas guardasse essa crença para si. Mas planejo voltar com esse assunto em breve, pois acredito que deva ser discutido.
            O que eu quero dizer, é que esse episódio, nada mais, é fruto da intolerância religiosa praticada mundialmente. É o exemplo que deixamos para as nossas crianças: imponham suas crenças às demais, pois somente a sua crença é a correta. Mas, agindo assim, nenhuma nunca vai ser a correta, e as mortes e discriminações por intolerância vão continuar acontecendo.
            Nós, adultos, temos o dever de rever os nossos conceitos. É isso mesmo que queremos deixar para as crianças? Queremos, mesmo, mostrar a elas que, no mundo, apenas um deus é o verdadeiro? Chega dessa luta idiota e ignorante! Vamos mostrar às crianças que o mundo é feito de diferenças, é feito de peculiaridades, é feito de culturas distintas.

            Vamos mostrar às crianças que o mundo precisa ser feito de respeito.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Conto - Anseios de Pedro


            — Acorde, seu imprestável! – o grito ecoava pelo pequeno quarto. —Acorde!
            Os olhos de Pedro se abriram. O garoto estava assustado.
            — Acorde, seu vagabundo! – a voz masculina continuava a gritar, insistentemente. — Abra essa porta!
            O garoto se levantou de sua cama, apoiando-se com o cotovelo direito e colocando o seus pés no chão carpetado.
            Ele esfregou os olhos, tentando desembaçar a visão. Soltou um bocejo.
            — Abre logo essa porta, Pedro! – gritava o homem do outro lado da porta, quase a derrubando.
            — Já “” indo, calma! – pediu o rapaz, caminhando rumo à porta. — Pra quê essa gritaria?
            — Seu filho de uma puta! – gritou o homem. — Você é um lixo...
            O rapaz, então, lembrou-se do possível motivo da gritaria.
            Na noite anterior, Pedro saíra com os amigos para uma balada e, na volta, conseguiu uma carona com Júlio, um velho amigo. Mas, recentemente, os dois haviam descoberto um sentimento que ia além da amizade. Naquela madrugada, assim que desceu do carro, Pedro foi puxado por Júlio, que lhe beijou ali, em frente à sua casa.
            Foi maravilhoso. Um sentimento intenso.
            Mas por um certo momento, Pedro pensou estar sendo observado por alguém. Percebendo que já se passavam das quatro da manhã, o rapaz se despediu de seu amigo e entrou para a sua casa.
            Entrou sorrateiro, tal qual um ladrão assalta uma casa, caminhando para o seu quarto. No corredor, aproveitou para espiar o quarto do pai, e ficou aliviado ao ver que o homem dormia pesadamente.
            Assim que entrou em seu quarto, Pedro se deitou com a roupa que estava e começou a pensar em Júlio. Conhecera Júlio sete anos antes e sempre tivera um carinho muito grande pelo amigo. Contudo, só recentemente, há pouco mais de três semanas, é que a situação havia começado a mudar.
            O que sentia por Júlio não era, definitivamente, apenas um carinho fraternal. Era muito mais que isso. Pedro queria a felicidade de Júlio, queria ser feliz com Júlio. Ele queria ser a felicidade de Júlio.
            E ele sentia reciprocidade.
            Ali, deitado em sua cama, Pedro decidiu que conversaria com Júlio assim que o dia clareasse, e revelaria o tamanho e a intensidade do seu sentimento.
            Fechou os olhos e dormiu.
            Sonhou com Júlio, com a sua família, com os seus amigos. Sonhou com um futuro pelo qual ansiava.
            — Pedro, abra essa porta! – a voz masculina persistia, gritando ferozmente.
            — Pai, o que aconteceu? – o garoto resistiu antes de abrir a porta. — Por que está gritando desse jeito? Caramba!
            Um barulho muito alto estalou e a porta se quebrou diante de Pedro. A única coisa que conseguiu ver foi o punho cerrado de seu pai vir na direção de seu rosto.
            Caído no chão, após o soco que seu pai havia-lhe dado, o jovem se sentiu tonto, perdido, mas quando abriu a boca para contestar levou outro soco.
            — Filho de uma puta! – gritava o pai de Pedro. — Sua mãe estaria envergonhada se estivesse viva...
            — Para, pai! – Pedro soluçava, enquanto seu sangue escorria por seu rosto.
            — Não sou seu pai, sua bicha! – outro soco atingiu o nariz do garoto, quebrando-o e fazendo mais sangue jorrar. — Filho meu não vira mulherzinha!
            — Por fav... – antes que pudesse concluir, Pedro levou um muro no estômago, que o fez vomitar um líquido verde, misturado com sangue.
            — Cala a sua boca, seu infeliz! – o homem tateou à sua volta, pegando a luminária do criado e acertando-a no queixo do garoto.
            Pedro estava exaurido.
            Com a visão embaçada, o garoto viu sangue por todo o canto. Seu sangue.
            O garoto viu um relance de seu futuro. Ao menos, o futuro pelo qual ansiava.
            Viu Júlio. Viu a sua família. Viu os seus amigos. Viu todos juntos. Viu alegria, esperança.
            Depois, Pedro só viu a escuridão.

sábado, 12 de outubro de 2013

Somos aqueles que podem trazer amor ao mundo!


Ação de criar, produzir, erguer. Criação. Indivíduo da espécie humana na infância.
Indivíduo da espécie humana na infância com a exorbitante e incrível capacidade de criar um mundo onde o amor é a linguagem universal.

Uma criança carrega consigo a pureza. Não tem medo, não tem preconceito, não tem ódio, não faz distinção. Mantém tudo isso, até que vem o adulto e insere todas as outras coisas que destroem esta pureza - com a justificativa de que a vida pede sabedoria. Tolos aqueles que pensam que sabedoria está em ser mais que o outro. Uma criança sabe, mais que qualquer um, que sabedoria é saber erguer um mundo inteiro, com seus habitantes, com suas histórias, entrelaçados em um bom enredo.

Vamos olhar mais aos nossos pequenos. Vamos ajudá-los a construir e erguer o mundo que eles idealizam.
Vamos ressuscitar a criança que fomos um dia. Vamos nos juntar e resgatar essa pureza.

Um feliz dia da criança!

domingo, 2 de junho de 2013

Tudo o que se quer


Pouco é sabido, mas a Parada Gay somente se originou por conta de uma batida policial em um bar - o Stonewall - frequentado por homossexuais, em Nova Iorque, no ano de 1969. Em 28 de junho, daquele ano, dois mil manifestantes foram às ruas pelas pessoas que foram presas e espancadas naquele bar.
E foi esse dia que marcou, então, o início pela luta LGBT em prol da liberdade de expressão e igualdade de direitos deste grupo da população.

E, assim, os homossexuais vêm conseguindo conquistas seus direitos durante essas décadas.
A homossexualidade já não é mais considerada como uma doença, e muitos países ao redor do mundo já conseguiram liberar o casamento homossexual.

Um dos gatilhos principais para essas conquistas foram as Paradas de Orgulho Gay, onde os manifestantes demonstram o orgulho, e não a vergonha, de ser quem são. Orgulham-se de suas identidades. E nada mais louvável do que isso! O Brasil é o país que sedia uma das maiores Paradas Gays do mundo.
Mas o seu real propósito tem se perdido ao longo dos anos. Muito do que se vê é parecido com uma Micareta Gay - pessoas fazendo sexo na avenida, muita balburdia... Poucos os que ainda lutam pelo verdadeiro sentido das Paradas, que é a luta pela liberdade de expressão, pela igualdade, pelo término do preconceito.

Se o alcance de pessoas é tão grande durante a Parada Gay, tem que se aproveitar para mostrar o que se quer: RESPEITO!