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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Conto: A Bela Adormecida

O conto "Sleeping Beauty", de Charles Perrault (um escritor e poeta francês do século 17, o pai da Literatura Infantil), traduzido por Júnior Gonçalves.



            Era uma vez, há muito tempo atrás, um rei e uma rainha que tinham um desejo muito simples.
            — Ah! — eles se lamentavam. — Se pudéssemos ter um filho...
            Mas eles nunca conseguiam ter.
            Certa vez, enquanto a rainha se banhava na lagoa, uma rã saltou para fora da água.
            — O seu desejo será realizado — disse a rã, com a pele brilhante, fora da lagoa. — Você terá uma filha em menos de um ano.
            Aquilo que a rã disse aconteceu; a rainha teve uma menininha tão linda que o rei mal podia se conter de tanta alegria, e ele organizou uma grande festa. Ele não convidou apenas os seus familiares, os amigos e os conhecidos, mas também convidou as feiticeiras do reino, pois elas poderiam se entusiasmar e serem gentis criança. Havia treze delas em todo o reino; era tradição que o anfitrião da festa enviasse pratos aos convidados, mas, como ele enviara apenas doze pratos de ouro, uma delas não pôde ir.
            O banquete foi servido com muita pompa e, ao término da festa, as feiticeiras deram à bebê os seus presentes mágicos – uma concedeu virtude, outra concedeu beleza, a terceira concedeu riqueza, e assim foram dadas todas as coisas do mundo que se pode desejar.
            De repente, quando onze delas já haviam feito os seus votos, a décima terceira chegou. Ela queria se vingar por não ter sido convidada e, sem cumprimentar ou olhar para ninguém, ela gritou com uma voz estrondosa:
            — A filha do rei, em seu décimo quinto aniversário, vai se espetar na agulha de uma roca e cairá morta — sem dizer mais nenhuma palavra, ela se virou e deixou o local.
            Todos ficaram chocados. Mas a décima segunda feiticeira, que ainda não havia feito os melhores votos, deu um passo adiante e, por mais que não pudesse desfazer a maldição, ela poderia torná-la menos arrasadora.
            — Não será a morte que causará a queda da princesa, mas um sono profundo de cem anos — disse a feiticeira.
            O rei, aceitando o cruel destino de sua amada filha, ordenou aos guardas do reino que cada roca de todo o reino fosse queimada. Entretanto, os votos concedidos pelas feiticeiras foram concretizados com totalidade na vida da menina; ela era tão bela, virtuosa, de boa índole, e inteligente, que todo mundo que a conheceu amou-lhe no primeiro momento.
            No dia de seu aniversário de quinze anos, contudo, o rei e a rainha não estavam no castelo, e a donzela ficou sozinha ali. Ela passou por todos os lugares, passava pelas salas e pelos quartos, do jeito que ela gostava de fazer; e, por último, chegou a uma velha torre. Ela subiu pela estreita escada em espiral até chegar a uma porta bem pequena. Havia uma chave enferrujada na fechadura e, assim que a virou, a porta se abriu. Dentro da saleta, havia uma senhora com uma roca de fiar, ela estava ocupada tecendo linho.
            — Bom dia, minha senhora — cumprimentou a princesa. — O que faz aqui?
            — Estou tecendo — respondeu a senhora, virando a cabeça.
            — Mas que coisa é essa que faz barulho enquanto faz giros tão alegres? — questionou a menina, sentando-se diante da roca para tecer também.
            Ela mal tocou na roca quando o feitiço se concretizou, e ela espetou o dedo na agulha.
            No momento exato em que ela sentiu a agulha, ela se deitou sobre a cama que havia no quartinho, e caiu em um sono profundo. O seu sono se propagou por todo o palácio, e o rei e a rainha, que haviam acabado de chegar ao salão do castelo, ficaram sonolentos, e o mesmo aconteceu com toda a corte. Os cavalos, no estábulo, também dormiram, assim como os cachorros, no jardim, os pombos, no telhado, as moscas, nas paredes. Até mesmo o fogo, que estava ardente na lareira, ficou quieto e adormeceu. A carne que assava deixou de assar. O cozinheiro, que ia até o serviçal para puxar o seu cabelo, porque ele havia-se esquecido de algo, deixou-o ir e caiu no sono. O vento diminuiu, e as folhas das árvores de trás do castelo não se mexeram mais.
            Uma cerca de espinhos começou a crescer em volta do castelo, e ficava mais alta a cada ano que passava; cresceu tanto que, no fim, cobriu todo o castelo, e a construção não podia mais ser vista, nem mesmo a bandeira no alto do telhado. Mas a história da bela adormecida Rosa, como ficou conhecida, se espalhou pelo reino, e de vez em quando os príncipes vinham e tentavam passar pelo grande cerco de espinhos para entrar no castelo. Mas todos descobriram que era impossível, porque os espinhos lhes agarravam, como se fossem mãos; e, uma vez pegos pelos espinhos, jamais conseguiam se soltar novamente, morrendo de forma miserável.
            Depois de muito tempo, um príncipe veio até o reino e ouviu um senhor falando sobre o cerco de espinhos, e sobre um castelo que estava no meio dos espinhos. Ele ouviu que uma linda e maravilhosa princesa, chamada Rosa, havia caído num sono de cem anos, e que o rei, a rainha e toda a corte também foram afetados pelo sono. Ele também ouvira de seu avô que muitos reis e príncipes já haviam ido até o cerco de espinhos para tentar passá-lo, mas todos foram perfurados pelos espinhos rapidamente e tiveram mortes lamentáveis.
            O jovem, então disse:
            — Eu não tenho medo. Eu vou e verei a linda Rosa.
            O velho poderia persuadi-lo, como tentou, mas o príncipe não lhe deu ouvidos.
            Nessa época, os cem anos já haviam se passado, e o dia em que Rosa acordaria novamente havia chegado. Quando o príncipe chegou perto do cerco de espinhos, estava repleto de lindas flores, que se afastavam umas das outras por vontade própria, deixando o rapaz passar sem se machucar. Após isso, elas fecharam novamente o caminho atrás dele como um cerco. No jardim do castelo ele viu os cavalos e os cães deitados, dormindo. No telhado, os pombos estavam pousados com suas cabeças sob as asas.
            Assim que o príncipe entrou no castelo, as moscas dormiam nas paredes, o cozinheiro estava na cozinha, ainda esticando sua mão para agarrar o garoto, e a criada estava sentada perto da galinha preta que estava prestes a depenar.
            Ele foi ainda mais adiante. No grande salão, o príncipe viu toda a corte deitada, dormindo, e próximo ao trono estavam deitados o rei e a rainha. Depois, ele prosseguiu e tudo estava tão quieto que dava para ouvir a própria respiração. Por último, ele foi até a torre, abriu a porta e entrou no quartinho onde Rosa dormia.
            Lá estava ela, deitada; tão linda que ele mal podia tirar os seus olhos dela. Ele se aproximou e deu-lhe um beijo. E logo que ele a beijou, Rosa abriu os olhos e acordou, lançando a ele um olhar agradável.
            Os dois desceram juntos. O rei acordou, e depois a rainha, e depois toda a corte. Todos se olhavam admirados. Os cavalos se levantaram e se sacudiram no estábulo; no jardim, os cães saltaram e abanaram os rabos; os pombos ergueram suas cabeças no telhado e olharam em volta, voando para o reino; as moscas voltaram a rastejar-se na parede novamente; o fogo na cozinha se acendeu e voltou a queimar a carne; as juntas de todos voltaram a dobrar e ranger de novo; o cozinheiro deu um tapa na orelha do serviçal, que deu um berro; e a empregada terminou de depenar a galinha.
            Com muito esplendor, o casamento do príncipe com Rosa foi celebrado e eles viveram felizes para sempre.


Fonte:

Sleeping Beauty. FairyTales.biz. Disponível em: <http://www.fairytales.biz/charles-perrault/sleeping-beauty.html>.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - FINAL

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1, a Parte 2, a Parte 3 e a Parte 4 da história.


            Os sete irmãos estavam alegres na volta para casa: cantarolavam em coro na rua. Ao chegar na porta de casa, notaram a porta entreaberta e logo correram para dentro, onde se depararam com o pior.
            — Não! — gritou Carlos, com certo ar dramático.
            — Beatriz! — Geraldo logo correu e segurou o pulso da menina.
            Em seguida, o mais velho dos irmãos começou a pressionar o peito da menina com as duas mãos, como uma massagem cardíaca. Ele estava desesperado.
            — Vou chamar um médico! — disse Danilo, em meio a espirros.
            — Emerson, André e Carlos, ajudem-me a colocá-la no sofá — pediu Geraldo.
            Com muita dificuldade, os quatro anões conseguiram levar o corpo de Beatriz até o sofá. Enquanto isso, Breno trazia um copo de água, inesperadamente.
            — Breno, o que é isso? — perguntou Felipe, encostado no outro sofá, caindo de sono.
            Breno fez um gesto, indicando Beatriz.
            — Ela está morta, sua besta! — resmungou Emerson, muito bravo.
            Breno fez uma cara triste e afundou o rosto em suas mãos, chorando.
            — Acalme-se, moço — implorou André, tentando manter o ânimo dos irmãos. — Não podemos fazer mais nada!
            — Droga! — gritou Emerson. — Quem fez isso a ela?
            — Será que foi um ladrão? — Carlos fechou as cortinas. — É melhor chamar a polícia, também!
            — Não! Não foi um ladrão — disse Geraldo. O homem vinha da cozinha com uma forma na mão; era a torta de maçã feita por Faustina. — A menina foi encontrada no chão da cozinha. Esta torta estava em cima da mesa, e têm dois pratos lá; um vazio e um com um pedaço de torta mastigada.
            — Ela foi envene... — disse Danilo, antes de espirrar. — Nada!
            — A madrasta dela! — concluiu Emerson. — Ora... Se eu pegar aquela mulher!
            — Não... — interveio Geraldo. — Não podemos mais fazer nada! Infelizmente, ela está morta... Se formos atrás da madrasta da Beatriz, poderemos sofrer as consequências.
            — Não ligo pra isso, Geraldo! — contestou Emerson. — Vamos logo!
            Então, o som de sirene surgiu e ficou ensurdecedor no momento. Geraldo correu para fora e recebeu a equipe médica: um jovem médico e o motorista.
            — O que houve aqui, senhores? — questionou o médico.
            — Doutor, ela foi envenenada! — contou Emerson.
            Geraldo o fulminou com o olhar. Agora teriam que contar sobre a madrasta da menina.
            — Envenenada? Isso é coisa séria! — disse o médico, enquanto examinava a jovem. — Fábio, ajude-me a colocá-la na maca.
            O motorista e o médico remanejaram a jovem e correram com ela para a ambulância.
            — Ei, doutor! — chamou Geraldo. — Para onde vão levar a moça?
            — Para o hospital, oras! — respondeu o médico. — Quem de vocês irá acompanhá-la?
            — Todos nós, doutor — respondeu Emerson.
            Antes que o médico e o motorista pudessem reclamar ou contestar, os sete irmãos entraram e se arrumaram na ambulância. O carro deu partida e correu para o hospital mais próximo.
            Já no hospital, as pessoas se assustaram quando sete anões saíram de uma ambulância ao lado do motorista, do médico e de uma menina desfalecida na maca.
            — UTI! — gritou o médico para a equipe do hospital.
            As portas, então, fecharam-se diante dos sete homens. Apenas o médico e o restante da equipe puderam entrar na área restrita junto ao corpo de Beatriz.
            — E agora? — perguntou Emerson, impaciente.
            — Esperaremos — respondeu Geraldo, sentando-se num banco.
            Cerca de três horas depois, e mais de cem voltas dentro da sala de espera, os anões avistaram o médico passar pela porta:
            — Doutor! — gritou Geraldo.
            — E a Beatriz? — perguntou Danilo, segurando o espirro.
            — Quem são vocês? — perguntou o médico. — Aquela moça é Beatriz Nevada, não é?
            — É ela mesma, doutor — confirmou Geraldo. — Ela apareceu na nossa casa ontem, pedindo ajuda. Deixamos ela ficar... A menina parece ser muito boazinha!
            — E é... — comentou o médico.
            — Hein? — estranhou Emerson.
            — Eu a reconheci — disse o médico. — Estudamos juntos no ensino médio. Quer dizer... Eu estava à frente dela. Mas ficamos amigos. O pai dela faleceu recentemente... Tentei voltar a falar com ela, mas não consegui. Quem a envenenou? Precisamos chamar a polícia.
            — Doutor, não foi a gente — comentou Carlos. — Não queremos problemas.
            — Ela está fugindo de alguém... — revelou Emerson. — E acho que esse alguém descobriu onde ela estava se escondendo e invadiu a nossa casa enquanto estávamos trabalhando. Foi a madrasta dela!
            — Milena di Aba — concluiu o médico. — Como? Ela não colocaria sua carreira em risco...
            — Acredite no que quiser — ameaçou Emerson. — Podemos ver a menina logo?
            — Claro que não! — respondeu. — Olhem... Ela está na UTI. Está em estado grave.
            — Então está viva? — questionou André, sorrindo.
            — Por enquanto — disse o médico. — A substância do envenenamento simulou a morte dela; fez com que a frequência cardíaca e respiratória se reduzisse a ponto de não ser percebida. Com isso, o corpo dela esfriou. Tivemos de colocá-la numa câmara.
            — Ela está encaixotada? — questionou Carlos.
            — Não é bem isso... — explicou o médico. — É uma espécie de “caixa” de acrílico que impede organismos nocivos à saúde de entrarem em contato com ela, e também faz a manutenção da temperatura corporal.
            — Doutor Reis, o paciente 101 entrou em choque — anunciou uma voz mecânica. — Favor, dirija-se à UTI.
            — Preciso ir, gente! — disse o médico. — É a Beatriz!
            — O quê? — Geraldo ficou em choque.
            Derrubando a segurança, os sete homens correram atrás do médico. Enquanto o médico vestia uma roupa esquisita para entrar na UTI, os homens ficaram vendo de fora – a sala tinha paredes de vidro, então era possível ver o seu interior sem problema algum.
            O doutor Reis – como havia sido chamado no anúncio – foi até o leito de Beatriz, que era o único daquela UTI, e começou a fazer manobras de ressuscitação.
            Breno, inquieto, começou a bater no vidro. Os outros começaram a chorar. Até mesmo Emerson, o zangado da turma, deixou as lágrimas caírem.
            Reis suava enquanto tentava trazer Beatriz de volta à vida. Ele não desistiria, não podia desistir. Beatriz era o seu primeiro amor; foi quem mais amou durante a adolescência, mas não puderam namorar porque a madrasta da menina dizia que namoros não “davam em nada”. Agora, por obra do destino, ou do acaso, a jovem estava ali, morrendo em suas mãos.
            O médico viu que não tinha saída; era inútil persistir. Percebendo que não havia seguranças ali, ele permitiu que os sete homens entrassem no leito para se despedirem da moça. Geraldo foi o primeiro, deu um beijo na caixa transparente que envolvia Beatriz; Felipe, sonolento, passou a mão no acrílico e suspirou; Danilo segurou o espirro naquele momento, e inspirou profundamente, tentando segurar o choro; Carlos não tinha o que encenar, não ali, então pegou uma flor na entrada da UTI e deixou-a sobre a câmara de acrílico; Breno quase pronunciou um som ao se aproximar da caixa, mas deixou-se levar pelo choro e saiu dali; André deu seu último sorriso à Beatriz, desejando-lhe paz e tranquilidade; Emerson ficou de longe vendo tudo, ele não queria se despedir porque não aceitava aquilo.
            — Rapazes, preciso que esperem lá fora — pediu Reis. — Vou terminar o procedimento para liberar o corpo. Fiquem lá, que eu já vou até vocês.
            Os sete anões saíram da UTI e seguiram rumo à saída do hospital, quando foram pegos pelos seguranças e levados à delegacia.
            Enquanto isso, o médico admirava Beatriz. Aquela pele negra, macia; o cabelo ondulado; ela era linda. Enquanto abria a câmara de acrílico, Reis fitava a jovem. Foi, então, que ele fez o que não devia fazer: beijou a moça. Foi um selinho, mas o médico beijou a paciente – morta.
            Ele chorou em seguida, mas não queria passar a vida sem ter ao menos tocado os lábios da menina que mais tinha amado. Foi aí que as coisas mudaram. De repente, o monitor cardíaco de Beatriz reagiu. Pequenas ondas começaram a cintilar no LED, até formarem uma bela sinfonia cardíaca. O coração da jovem voltou a bater, e ela voltou a respirar.
            — Enfermeira! — gritou o médico. — Enfermeira!
            Uma equipe entrou no local e auxiliaram o médico com o que ele pediu.
            Seis horas depois, já com os sete anões de volta ao hospital – graças ao doutor Reis, que havia ido até a delegacia e esclarecido a situação ao delegado –, o médico seguiu para o quarto em que estava a jovem Beatriz. Por algum milagre, a menina havia voltado da morte e estava melhor do que antes de ter entrado, como se nunca lhe tivesse  acontecido nada.
            — Bom dia! — Reis entrou no quarto.
            — Bom dia, doutor! — respondeu Beatriz. — Onde estou? O que houve?
            — Você está no hospital — contou o médico. — Você foi envenenada, e seus amigos trouxeram você até aqui. Você quase morreu, ou talvez tenha morrido, mas surpreendeu a todos.
            — Eita... — a menina ficou surpresa. — Sério mesmo?
            — Sério — afirmou o médico. — Posso permitir as visitas?
            — Claro! — disse a jovem, sorrindo.
            Assim, o médico abre novamente a porta e, então, os sete irmãos entram no quarto, todos sorridentes.
            — Beatriz! — disseram em coro, correndo e se amontoando em volta da menina.
            — Obrigada, rapazes! — agradeceu a menina. — Ainda não sei exatamente o que houve, mas obrigada!
            — Foi a sua madrasta... — disse Emerson, cansado de guardar as coisas. — Aquela mulher é o diabo! Como consegue envenenar alguém? Mas eu não desisti de você, mesmo quando o seu amiguinho aí já tinha desistido.
            — Amiguinho? — estranhou Beatriz. — Quem?
            — Não me reconheceu, mesmo? — questionou Reis.
            — Ai, meu Deus! — Beatriz teve uma rápida lembrança. — James! Você virou médico?
            — Sim! — o médico não resistiu e abraçou a jovem. — É bom tê-la viva!
            Ele deu um beijo tão forte na bochecha dela, que ela percebeu algo diferente.
            Depois de muita risada e comemoração, os sete anões foram para casa, onde esperariam pela volta de Beatriz, que receberia alta naquela tarde.
            — James... — chamou Beatriz.
            — Sim? — o médico deixou seu caderno de lado e olhou para a jovem.
            — Não lembro muito bem o que houve depois de acordar... — comentou a menina. — Quero dizer, da primeira vez, quando voltei. Eu apenas não consegui abrir os olhos, mas senti e ouvi tudo.
            — Do que está falando? — ele não quis parecer invasivo.
            — Vem aqui... — pediu Beatriz.
            — O que foi? — perguntou o médico, sentado ao lado da menina.
            Então, Beatriz o agarrou e o beijou; não um selinho, mas um longo beijo.
            — Ei! — disse ele, após se recompor. — Calma aí, donzela! O que foi isso?
            — Algo que eu tinha vontade de fazer desde o ensino médio — revelou. — James, eu senti você me beijando quando eu voltei. Foi você!
            — Beatriz, desculpe se não devia... — suplicou ele. — É que eu sempre fui louco por você, mas...
            — Case comigo! — disse a jovem, direta.
            — Como? — estranhou o médico.
            — James, nós convivemos por quatro anos naquela escola... Éramos namorados sem nunca ter-nos beijado — concluiu ela. — A gente sabe que o sentimento um pelo outro é bem maior do que a gente acha. Por que deixar passar mais uma vez?
            — Mas e sua madrasta? — perguntou, preocupado.
            — Vou dar queixa dela na polícia — respondeu Beatriz. — Da mãe dela, também. Provas e testemunhas não faltam!
            — Eu amo você, Beatriz Nevada! — confessou James.
            — Eu amo você, James Reis! — disse a jovem. — Agora, leve-me embora daqui!
            Assim, os dois saíram do hospital.
            Beatriz e James chegaram à casa dos sete anões e contaram a novidade, que deixou todos atônitos pela festa que viria. Depois disso, todos foram à delegacia com as provas e os relatos da tentativa de assassinato de Beatriz pela madrasta. Pouco menos de três meses depois, os dois se casaram e foram morar na mansão que era do pai de Beatriz.
            Milena di Aba e sua mãe, Faustina, foram condenadas à prisão perpétua e foram enviadas ao mesmo presídio, em uma cidade muito quente. A modelo tentava subornar os agentes carcerários, inutilmente, pois esses não ligavam para o que ela tinha a oferecer: a mãe. Victor Vitral é quem visitava a condenada e levava alimento; o homem acabara ficando com a imagem suja por trabalhar para uma assassina. Arthur, o segurança particular da megera, ainda estava desaparecido; ninguém sabia sobre o seu paradeiro.
            — Senhora Milena di Aba, visita! — anunciou o carcereiro, abrindo a cela para que a mulher saísse. — Sem gracinha, certo?
            Milena mostrou um sorriso sem graça ao agente.
            — Vai, entre aí! — o agente empurrou a mulher para dentro de uma sala.
            — Mas que inferno! Não se faz mais homens como antigamente! — resmungou a mulher, enquanto se sentava. — A quem devo a honra de uma visita?
            — Oi, Milena — a voz masculina, do outro lado da mesa, exibiu o seu dono ao virar a cadeira de frente para a modelo. — Há quanto tempo, não é?
            — Você! — disse Milena, quase sem fôlego. — O que faz aqui?
            — Digamos que agora eu quem estou numa posição alta — disse o homem. — E você vai trabalhar para mim.
            — Jamais! — decretou a mulher.
            — Então vai ficar presa aqui até morrer? — questionou. — Vai deixar os seus ossos de lembrança aos futuros carcereiros? Veja, eu já negociei a sua saída. A sua, e a de sua mãe.
            — Ora, ora... — sorriu Milena. — Eu ficarei honrada em trabalhar para você!
            — Então volte para sua cela e arrume suas malas — disse o homem. — Avise sua mãe que ela será minha esposa. Gosto dela.
            — Que mau gosto! — opinou Milena.
            — Não pedi sua opinião — respondeu ele. — É bom você me respeitar, pois será minha afilhada! Serei como um pai para você.
            — Só uma dúvida... — desejou a megera.
            — Ok — concordou ele. — Diga.
            — Por quê? — perguntou ela, curiosa. — Por que isto?
            — Quero ter o prazer de esmagar você, Milena di Aba — contou o homem. — Quero saber como o gato se sente ao pegar o rato. E eu tenho tudo planejado para você, todo o seu futuro. Adotei Mirella, também; ela será sua irmãzinha.
            — Não acredito nisso! — esbravejou a mulher. — Ela é só uma criada!
            — E você também será — prometeu ele. — Mirella é muito mais bela do que você. Você ainda vai sofrer tudo o que fez as pessoas sofrerem, Milena. Até logo!
            — Não! Ninguém é mais bela do que eu! — gritou Milena, vendo o homem ir embora. — Volte aqui! Arthur, volte aqui!

            Mas ele não voltou. Arthur, o antigo segurança particular de Milena, estava de volta, e estava cheio de planos para a sua querida ex-patroa. Milena mal sabia o que esperava por ela.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 4

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1, a Parte 2 e a Parte 3 da história.


            Milena estava decidida e não desistiria de seu plano. Ela mataria Beatriz, não importava o preço e a forma. Sua última tentativa acabou não dando certo por conta do grupo de anões que aparecera bem no momento em que ela entraria na casa. Mas a modelo já havia arquitetado outro plano e o colocaria em prática.
            — Mãe? — gritou Milena, assim que entrou na mansão.
            — Sim, o que foi? — Faustina desceu a escadaria em direção à sala. — O que você quer?
            — Você vai me fazer um favor — decretou Milena. — Preciso que você vá até a Beatriz. Eu a encontrei, ela está numa pocilga do subúrbio. Você tem que ir até ela toda suja, mal vestida, como se eu tivesse expulsado você daqui.
            — O que planeja? — perguntou a senhora, desconfiada.
            — A morte dela — respondeu Milena.
            — Minha filha! — Faustina ficou sem palavras. — Não posso fazer isso!
            — Então você vai para fora desta casa de verdade — ameaçou a modelo, impaciente. — Vai ser simples, não vai doer. Preciso que você entre na casa e se ofereça para cozinhar alguma coisa... E, então, você vai envenenar a comida.
            — Milena, por que isso? — questionou a mulher. — Você já não tem tudo o que quer?
            — Vai ou não me ajudar? — pressionou Milena. — Não temos muito tempo. Você precisa chegar lá amanhã, depois das nove, e ir embora antes das cinco da tarde. Mas acho que você consegue adiantar o serviço.
            — Tudo bem... — concordou Faustina.
            No dia seguinte, as duas acordaram bem cedo. Milena arranjou algumas roupas rasgadas e fedidas para a mãe.
            — Onde achou estas roupas? — perguntou Faustina, sentindo-se nauseada.
            — Peguei de um morador de rua — disse Milena. — Vista logo.
            Faustina se vestiu com os trapos.
            — Falta uma coisa... — comentou Milena, pegando uma tigela do chão.
            A megera passou o conteúdo da tigela no rosto e na roupa da mãe. Era água suja, da sarjeta.
            — Por que faz isso comigo? — perguntou Faustina.
            — Porque você me deve — explicou Milena. — Vamos, vou deixar você na esquina da rua onde a Beatriz está.
            Do outro lado da cidade, Beatriz e os sete irmãos tomavam café. Tudo estava bem. Emerson já não estava tão zangado quanto no dia anterior, e já até se acostumara com a ideia de uma hóspede.
            — Minha querida, está na hora de irmos — disse Geraldo. — Precisamos trabalhar.
            — Está cheio de vidro para quebrar naquele lugar — comentou Carlos, encenando o ato de quebrar. — O trabalho na vidraçaria é árduo!
            — Tudo bem... — concordou Beatriz. — Bom trabalho a todos. Farei um belo jantar para esta noite!
            Assim, os anões foram saindo da casa rumo ao trabalho.
            No fim da rua, um carro estava parado. Geraldo reconheceu o carro, era o mesmo do dia anterior. Mas não era possível enxergar o interior do veículo, pois os vidros eram escurecidos. Ao lado de dentro, Milena e Faustina estavam caladas, com a respiração baixa.
            Após os anões irem embora, Milena suspirou.
            — Tome — a modelo entregou uma ampola com um líquido verde para a mãe. — Este é o veneno.
            — O que é isto? — questionou Faustina. — Que substância é esta?
            — Você não precisa saber — disse Milena. — Vá logo! Ficarei esperando aqui.
            — Mas vai demorar até fazer alguma comida... — avisou a mulher.
            — Vá! — insistiu Milena.
            Faustina, então, saiu do carro e caminhou até a casa. A mulher estava horrível: sem maquiagem, o seu rosto era cheio de rugas e sulcos; a roupa toda rasgada e suja; o semblante depressivo. Ela bateu palmas.
            — Oi? — Beatriz apareceu na porta, desconfiada. — Posso... Dona Faustina?
            Beatriz ficou perplexa com o que viu.
            — O que houve com a senhora? — perguntou Beatriz. — Entre, por favor!
            A surpresa da menina foi tanta, que ela nem se deu conta de como a mulher havia-lhe encontrado ali.
            — Minha filha... — murmurou a velha. — A Milena me colocou para fora de casa. Desde ontem! Sem direito a nada!
            — Meu Deus! — clamou a jovem. — Que coisa terrível! Descanse um pouco...
            — Estou com fome... — interveio a senhora. — Será que tem algo para comer?
            — Bem, não tem nada — disse Beatriz. — Posso tentar cozinhar alguma coisa.
            — Não se preocupe — pediu Faustina. — Deixe que eu cozinho... Apenas me mostre as coisas.
            — Tudo bem — concordou Beatriz, pegando algumas coisas nos armários.
            — Maçãs? — Faustina viu as frutas num cesto. — Que tal se eu fizer uma torta de maçã?
            — Nossa! — os olhos de Beatriz brilharam. — Eu amo sua torta de maçã!
            — Então será isso — disse Faustina.
            A velha tomou muito cuidado durante o preparo, para que Beatriz não a visse colocar o veneno no meio da massa da torta.
            Cerca de duas horas e meia depois, a torta estava pronta.
            — Não vejo a hora de matar a minha fome! — comentou Faustina.
            — Então pode comer o primeiro pedaço, dona Faustina — ofereceu a jovem.
            — Não, não! — contestou Faustina. — A torta é sua comida favorita... Então experimente!
            A contragosto, Beatriz cortou um pedaço e logo o comeu, saboreando seu prato predileto.
            — Ficou com um gosto diferente — comentou  a moça. — A senhora usou algo diferente?
            — Não tinha canela — mentiu a velha.
            — Ah! — compreendeu Beatriz.
            — Posso ir ao banheiro, querida? — pediu Faustina. — Quero lavar as mãos antes.
            — Sim, venha, é por aqui — Beatriz apontou a porta do banheiro.
            Dez minutos depois, Faustina saiu do banheiro e encontrou a jovem encostada em uma cadeira da cozinha, um pouco largada.
            — Tudo bem, querida? — perguntou Faustina.
            — Acho que a torta não me caiu bem — respondeu Beatriz. — Não estou me sentindo muito bem. Acho que...
            Então, repentinamente, a menina caiu no chão.
            Faustina correu até ela e pressionou os seus pulsos. Não havia pulsação. A velha encostou a orelha no peito da jovem, tentando sentir a respiração, mas não conseguiu. Sem pensar duas vezes, Faustina correu para fora da casa e seguiu até o carro de Milena, entrando disfarçadamente.
            — E então? — questionou Milena.
            — Está feito — respondeu Faustina. — Ela comeu. Está caída no chão da cozinha.
            — Ótimo! — sorriu a modelo. — Agora, quando aqueles anões voltarem, vão encontrá-la assim e achar que está morta. Ela vai ser enterrada viva!
            — Como? — Faustina arregalou os olhos para a filha.
            — Isso mesmo — Milena pisou no acelerador e deu partida. — A substância que você colocou na comida dela fez a frequência cardíaca e a respiração dela diminuir, de modo que pareça que ela está morta.
            — Não! — gritou Faustina.
            — Fique quieta, mãe! — Milena deu uma cotovelada na mulher, que desmaiou.
            A modelo, então, partiu rumo a sua empresa, Kingdom, o seu império.
            Beatriz ficou lá, no chão gelado daquele sobrado, onde permaneceria até que os sete irmãos retornassem e a encontrassem.

Leia aqui o final da história.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 3

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1 e a Parte 2 da história.



           Dirigindo em alta velocidade, Milena chegou à mansão em pouco menos de quinze minutos. Ela largou o carro na rua e correu para dentro da casa – se fosse possível, teria atravessado o corpo de qualquer criatura que cruzasse o seu caminho.
            — Mãe! — gritou Milena.
            Em seguida, uma senhora vestida com terno entrou na sala.
            — O que foi, querida? — era Faustina.
            Faustina, além de ser mãe de Milena, era a governanta da mansão; fora um favor exigido pela filha em troca de moradia.
            — Cadê a Beatriz? — questionou Milena.
            — Não sei — respondeu Faustina. — A menina saiu cedo e não voltou ainda.
            — Voltou, sim! —contestou a modelo. — O Victor esteve aqui há pouco menos de uma hora e a viu aqui.
            — Bom, eu estava supervisionando a Mirella a arrumar os quartos — explicou a velha. — Talvez eu não a tenha visto chegar.
            — Já falei para deixar aquela gata-borralheira fazer o serviço dela — respondeu Milena. — Saia da minha frente!
            Milena deixou a mãe sozinha e foi para o seu quarto.
            O quarto, por sua vez, não era um aposento comum: havia telas, controles e botões por todo o canto. A mulher construíra uma verdadeira central de vigilância ali – a Kingdom fornecia equipamento para a cidade inteira; assim, a modelo conseguiu, com a ajuda de Victor Vitral, conectar-se às câmeras de toda a cidade.
            A mulher inseriu no sistema uma imagem que centralizava o rosto de Beatriz. Com isso, o sistema triangulou a posição da jovem, com um localizador de filme de espionagem.
            — Mas que menina burra! — riu Milena. — Ela achou mesmo que conseguiria fugir de mim?
            Beatriz andava apressada por um bairro periférico da cidade. A jovem entrou numa rua deserta, mas graças ao zoom da câmera, Milena pôde acompanhá-la. A jovem entrou num sobrado velho, no fim da rua sem saída, a única casa do local.
            — Ótimo! — comemorou Milena. — Acho que temos um encontro, Beatriz.
            A megera pegou a sua bolsa, a chave do carro, e revirou uma gaveta de sua cômoda à procura de algo. Ela pegou um revólver e saiu da casa.
            Em um lugar aparentemente inabitado, sozinha, Beatriz bateu à porta da casa:
            — Tem alguém aí?
            Sem obter resposta, a menina entrou no sobrado. Para a sua surpresa, a casa estava mobiliada – estranhamente mobiliada. Os móveis tinham tamanhos menores que os móveis comuns, eram como se fossem adaptados a pessoas pequenas.
            Como estava morrendo de fome, ela abriu a geladeira e procurou alguma coisa para comer. Havia, por sorte, um pedaço de torta de maçã – a sua predileta. Logo depois, o sono bateu, e Beatriz subiu ao primeiro andar para procurar um quarto.
            A menina achava absurda a ideia de invadir uma casa, mas era o lugar mais seguro para esconder-se de sua madrasta. Havia apenas um quarto, mas nele tinham sete camas; eram camas pequeninas. Então, Beatriz empurrou todas até que ficassem uma ao lado da outra, formando uma cama de tamanho adequado para ela. Ela se deitou e caiu num sono pesado.
            Cerca de quarenta minutos depois, ao lado de fora da casa, havia um carro luxuoso estacionado na ponta da rua. Era o carro de Milena di Aba. A mulher havia conseguido localizar a enteada e só estava planejando como faria com a menina; ela tinha apenas uma bala, então teria de ser certeira se não quisesse deixar Beatriz viva para contar a história.
            Quando Milena abriu a porta do carro para sair, um grupo de sete homens baixos passou ao lado pela calçada. No mesmo instante, a mulher voltou para o carro e ficou lá dentro, calada. O carro tinha os vidros escuros, então seria impossível que alguém lhe reconhecesse. Os sete homens caminharam até o sobrado, mas antes de entrar ficaram olhando desconfiados para o carro da modelo.
            — Droga! — Milena esperou os anões entrarem na casa para, então, manobrar o carro e ir embora dali.
            Quando entraram na casa, os homens acharam algo estranho. A bandeja que estava guardada com torta na geladeira estava, naquele momento, em cima da pia. Preocupado, o mais velho dos irmãos decidiu investigar:
            — Acho melhor a gente se separar e ver se alguém invadiu a casa — sugeriu Geraldo. Ele usava óculos, era muito inteligente e ponderado.
            — Separar-nos? — questionou Carlos. Este, era cheio de dengos e teatros. — E se realmente alguém invadiu a casa?
            — Ora! Parem de frescura! Vocês são homens ou anões? — resmungou Emerson. Ele era o mais esquentado e impaciente dos sete, vivia discordando e brigando com todo mundo. — Vamos logo para o quarto que estou com sono.
            Assim, todos subiram ao quarto.
            Emerson foi na frente, seguido por Carlos e Geraldo. Logo depois, vinha Felipe, o mais preguiçoso dos irmãos – ele se arrastava pela escada, de tão sonolento. Danilo e André subiam lado a lado; o primeiro tinha uma séria alergia – vivia espirrando –; o segundo era alegre que só, sempre sorria e era gentil com os outros. Por último, destrambelhado, vinha Breno; ele era o mais tímido de todos e, também, o mais quieto – mas ele era mudo –, o único que não usava barba.
            No andar de cima, perceberam que a porta do quarto estava entreaberta e ficaram assustados. Emerson logo tratou de abrir a porta e berrou de susto com o que viu. Todos correram para o interior do quarto e também gritaram; foi uma gritaria total – Beatriz, assustada, gritou com os homens que ali estavam. A jovem ficou tão amedrontada que acabou batendo a cabeça no teto quando tentou levantar-se da cama.
            — Quem é você, sua intrusa? — questionou Emerson, zangado.
            — Desculpem-me! — implorou a menina. — Eu prometo ir embora, mas não me machuquem...
            — Quem é você? — insistiu Emerson.
            — Calma, Emerson, você está assustando a moça! — repreendeu Geraldo, logo percebendo que a mulher era incapaz de qualquer maldade.
            — Obrigado, meu senhor... — agradeceu Beatriz. — Meu nome é Beatriz.
            — Eu me chamo Geraldo — respondeu ele. — Somos todos irmãos e moramos aqui, como pode ver. Mas o que você faz aqui? Como entrou?
            — Ué... A porta estava encostada apenas — respondeu a menina.
            — Breno! — berrou Emerson, furioso. — Você pegou a chave para trancar a porta e não trancou?
            Breno fez um gesto, que provavelmente significava que ele sentia muito.
            — Você pode jantar com a gente — convidou André, sorrindo para a bela moça.
            — É — tentou concordar Danilo, em meio aos espirros.
            — Não! — interrompeu Emerson. — Nem sabemos quem ela é! Não podemos deixar um estranho entrar em casa... Ainda mais quando ele já entrou sem permissão.
            — Bem, se pensarmos por um lado... — provocou Carlos. — Ela não é estranha, ela já se apresentou!
            — O Carlos tem toda a razão, Emerson. Deixe a moça se explicar — disse Geraldo, limpando as lentes dos óculos enquanto sentava-se na beira de uma das camas.
            — Oh! — Beatriz ficou lisonjeada. — Obrigada pela confiança. Eu estou fugindo...
            — Estão vendo? — Emerson gritou, apontando o dedo para a jovem. — Eu falei!
            Os anões arregalaram os olhos, preocupados.
            — Não, não! — disse Beatriz. — Não é isso... Estou fugindo da minha madrasta. Ela quer me matar!
            — Nossa! — exclamou André. — Que coisa mais triste!
            — Pois é... — concordou a jovem. — Se puderem me ajudar... Mas caso não queiram, eu vou entender.
            — Não queremos — disse Emerson, convicto.
            — Você não quer, Emerson. Nós queremos — corrigiu Geraldo. — Olha, minha querida, eu sou o mais velho de todos e, por direito, decido o que vai acontecer ou não aqui dentro. Nós trabalhamos, temos uma vidraçaria chamada Sete Anões, e não queremos problemas para o nosso lado. Mas não podemos deixar você à mercê de sua madrasta.
            — Muito obrigada, Geraldo — agradeceu Beatriz. — Prometo que não vou desapontá-los. Se quiserem, posso ajudar aqui enquanto vocês estiverem trabalhando. Afinal, não posso sair na rua.
            — Você quem sabe — respondeu Geraldo. — Não estou pedindo nada em troca.
            — Seria o mínimo — comentou Emerson, de costas.
            — Não ligue para ele — recomendou o mais velho. — Ele é zangado assim só no início... Depois, vira um babão!
            — Vai se ferrar, Geraldo! — Emerson saiu do quarto, xingando os irmãos.

            Naquele fim de tarde, Beatriz desceu com os seis anões para a cozinha, e eles fizeram um grande banquete. Um pouco depois, Emerson acabou cedendo e também se juntou aos irmãos e à nova hóspede.


Leia aqui a Parte 4 da história.