quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 3

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Leia a Parte 1 e a Parte 2 da história.



           Dirigindo em alta velocidade, Milena chegou à mansão em pouco menos de quinze minutos. Ela largou o carro na rua e correu para dentro da casa – se fosse possível, teria atravessado o corpo de qualquer criatura que cruzasse o seu caminho.
            — Mãe! — gritou Milena.
            Em seguida, uma senhora vestida com terno entrou na sala.
            — O que foi, querida? — era Faustina.
            Faustina, além de ser mãe de Milena, era a governanta da mansão; fora um favor exigido pela filha em troca de moradia.
            — Cadê a Beatriz? — questionou Milena.
            — Não sei — respondeu Faustina. — A menina saiu cedo e não voltou ainda.
            — Voltou, sim! —contestou a modelo. — O Victor esteve aqui há pouco menos de uma hora e a viu aqui.
            — Bom, eu estava supervisionando a Mirella a arrumar os quartos — explicou a velha. — Talvez eu não a tenha visto chegar.
            — Já falei para deixar aquela gata-borralheira fazer o serviço dela — respondeu Milena. — Saia da minha frente!
            Milena deixou a mãe sozinha e foi para o seu quarto.
            O quarto, por sua vez, não era um aposento comum: havia telas, controles e botões por todo o canto. A mulher construíra uma verdadeira central de vigilância ali – a Kingdom fornecia equipamento para a cidade inteira; assim, a modelo conseguiu, com a ajuda de Victor Vitral, conectar-se às câmeras de toda a cidade.
            A mulher inseriu no sistema uma imagem que centralizava o rosto de Beatriz. Com isso, o sistema triangulou a posição da jovem, com um localizador de filme de espionagem.
            — Mas que menina burra! — riu Milena. — Ela achou mesmo que conseguiria fugir de mim?
            Beatriz andava apressada por um bairro periférico da cidade. A jovem entrou numa rua deserta, mas graças ao zoom da câmera, Milena pôde acompanhá-la. A jovem entrou num sobrado velho, no fim da rua sem saída, a única casa do local.
            — Ótimo! — comemorou Milena. — Acho que temos um encontro, Beatriz.
            A megera pegou a sua bolsa, a chave do carro, e revirou uma gaveta de sua cômoda à procura de algo. Ela pegou um revólver e saiu da casa.
            Em um lugar aparentemente inabitado, sozinha, Beatriz bateu à porta da casa:
            — Tem alguém aí?
            Sem obter resposta, a menina entrou no sobrado. Para a sua surpresa, a casa estava mobiliada – estranhamente mobiliada. Os móveis tinham tamanhos menores que os móveis comuns, eram como se fossem adaptados a pessoas pequenas.
            Como estava morrendo de fome, ela abriu a geladeira e procurou alguma coisa para comer. Havia, por sorte, um pedaço de torta de maçã – a sua predileta. Logo depois, o sono bateu, e Beatriz subiu ao primeiro andar para procurar um quarto.
            A menina achava absurda a ideia de invadir uma casa, mas era o lugar mais seguro para esconder-se de sua madrasta. Havia apenas um quarto, mas nele tinham sete camas; eram camas pequeninas. Então, Beatriz empurrou todas até que ficassem uma ao lado da outra, formando uma cama de tamanho adequado para ela. Ela se deitou e caiu num sono pesado.
            Cerca de quarenta minutos depois, ao lado de fora da casa, havia um carro luxuoso estacionado na ponta da rua. Era o carro de Milena di Aba. A mulher havia conseguido localizar a enteada e só estava planejando como faria com a menina; ela tinha apenas uma bala, então teria de ser certeira se não quisesse deixar Beatriz viva para contar a história.
            Quando Milena abriu a porta do carro para sair, um grupo de sete homens baixos passou ao lado pela calçada. No mesmo instante, a mulher voltou para o carro e ficou lá dentro, calada. O carro tinha os vidros escuros, então seria impossível que alguém lhe reconhecesse. Os sete homens caminharam até o sobrado, mas antes de entrar ficaram olhando desconfiados para o carro da modelo.
            — Droga! — Milena esperou os anões entrarem na casa para, então, manobrar o carro e ir embora dali.
            Quando entraram na casa, os homens acharam algo estranho. A bandeja que estava guardada com torta na geladeira estava, naquele momento, em cima da pia. Preocupado, o mais velho dos irmãos decidiu investigar:
            — Acho melhor a gente se separar e ver se alguém invadiu a casa — sugeriu Geraldo. Ele usava óculos, era muito inteligente e ponderado.
            — Separar-nos? — questionou Carlos. Este, era cheio de dengos e teatros. — E se realmente alguém invadiu a casa?
            — Ora! Parem de frescura! Vocês são homens ou anões? — resmungou Emerson. Ele era o mais esquentado e impaciente dos sete, vivia discordando e brigando com todo mundo. — Vamos logo para o quarto que estou com sono.
            Assim, todos subiram ao quarto.
            Emerson foi na frente, seguido por Carlos e Geraldo. Logo depois, vinha Felipe, o mais preguiçoso dos irmãos – ele se arrastava pela escada, de tão sonolento. Danilo e André subiam lado a lado; o primeiro tinha uma séria alergia – vivia espirrando –; o segundo era alegre que só, sempre sorria e era gentil com os outros. Por último, destrambelhado, vinha Breno; ele era o mais tímido de todos e, também, o mais quieto – mas ele era mudo –, o único que não usava barba.
            No andar de cima, perceberam que a porta do quarto estava entreaberta e ficaram assustados. Emerson logo tratou de abrir a porta e berrou de susto com o que viu. Todos correram para o interior do quarto e também gritaram; foi uma gritaria total – Beatriz, assustada, gritou com os homens que ali estavam. A jovem ficou tão amedrontada que acabou batendo a cabeça no teto quando tentou levantar-se da cama.
            — Quem é você, sua intrusa? — questionou Emerson, zangado.
            — Desculpem-me! — implorou a menina. — Eu prometo ir embora, mas não me machuquem...
            — Quem é você? — insistiu Emerson.
            — Calma, Emerson, você está assustando a moça! — repreendeu Geraldo, logo percebendo que a mulher era incapaz de qualquer maldade.
            — Obrigado, meu senhor... — agradeceu Beatriz. — Meu nome é Beatriz.
            — Eu me chamo Geraldo — respondeu ele. — Somos todos irmãos e moramos aqui, como pode ver. Mas o que você faz aqui? Como entrou?
            — Ué... A porta estava encostada apenas — respondeu a menina.
            — Breno! — berrou Emerson, furioso. — Você pegou a chave para trancar a porta e não trancou?
            Breno fez um gesto, que provavelmente significava que ele sentia muito.
            — Você pode jantar com a gente — convidou André, sorrindo para a bela moça.
            — É — tentou concordar Danilo, em meio aos espirros.
            — Não! — interrompeu Emerson. — Nem sabemos quem ela é! Não podemos deixar um estranho entrar em casa... Ainda mais quando ele já entrou sem permissão.
            — Bem, se pensarmos por um lado... — provocou Carlos. — Ela não é estranha, ela já se apresentou!
            — O Carlos tem toda a razão, Emerson. Deixe a moça se explicar — disse Geraldo, limpando as lentes dos óculos enquanto sentava-se na beira de uma das camas.
            — Oh! — Beatriz ficou lisonjeada. — Obrigada pela confiança. Eu estou fugindo...
            — Estão vendo? — Emerson gritou, apontando o dedo para a jovem. — Eu falei!
            Os anões arregalaram os olhos, preocupados.
            — Não, não! — disse Beatriz. — Não é isso... Estou fugindo da minha madrasta. Ela quer me matar!
            — Nossa! — exclamou André. — Que coisa mais triste!
            — Pois é... — concordou a jovem. — Se puderem me ajudar... Mas caso não queiram, eu vou entender.
            — Não queremos — disse Emerson, convicto.
            — Você não quer, Emerson. Nós queremos — corrigiu Geraldo. — Olha, minha querida, eu sou o mais velho de todos e, por direito, decido o que vai acontecer ou não aqui dentro. Nós trabalhamos, temos uma vidraçaria chamada Sete Anões, e não queremos problemas para o nosso lado. Mas não podemos deixar você à mercê de sua madrasta.
            — Muito obrigada, Geraldo — agradeceu Beatriz. — Prometo que não vou desapontá-los. Se quiserem, posso ajudar aqui enquanto vocês estiverem trabalhando. Afinal, não posso sair na rua.
            — Você quem sabe — respondeu Geraldo. — Não estou pedindo nada em troca.
            — Seria o mínimo — comentou Emerson, de costas.
            — Não ligue para ele — recomendou o mais velho. — Ele é zangado assim só no início... Depois, vira um babão!
            — Vai se ferrar, Geraldo! — Emerson saiu do quarto, xingando os irmãos.

            Naquele fim de tarde, Beatriz desceu com os seis anões para a cozinha, e eles fizeram um grande banquete. Um pouco depois, Emerson acabou cedendo e também se juntou aos irmãos e à nova hóspede.


Leia aqui a Parte 4 da história.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 2

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Se você ainda não leu a Parte 1 da história, clique aqui.

Mais bela do que eu?


            Logo que chegou à Kingdom, Beatriz foi recepcionada por Arthur:
            — Bom dia, senhora Nevada — disse o segurança.
            — Bom dia, Arthur — respondeu a jovem. — A Milena está aí? Marquei uma visita com ela.
            — A senhora di Aba teve de sair para resolver alguns problemas, mas pediu que você esperasse.
            Beatriz riu; e, logo depois, abafou o riso, constrangida.
            — Algo errado? — questionou Arthur.
            — Não... Não foi nada — disse a herdeira da empresa. — É que o sobrenome dela é tão incomum, exótico.
            — Vamos? — sugeriu ele.
            — Aonde? — questionou a jovem.
            — Siga-me. A senhora di Aba pediu que eu deixasse você à vontade — explicou o homem.
            Beatriz, então, seguiu-o. Eles desceram pelo elevador até o segundo subsolo, e depois entraram em um corredor estreito e pouco iluminado.
            — Arthur, aonde estamos indo? — perguntou a jovem, desconfiada.
            Quando se virou para o segurança, o choque de Beatriz foi tremendo. O homem apontava uma arma em sua direção.
            — Desculpe-me, criança, mas só estou cumprindo ordens — lamentou.
            — Ordens? — mesmo apavorada, Beatriz tentou manter a calma. — Olha, você não tem que fazer isso. Posso conversar com a Milena, e podemos aumentar o seu salário, bonificar você...
            — A senhora Milena? — ele gargalhou. — Criança, é ela quem quer ver você morta!
            — A Milena? — a garota se surpreendeu. Por mais que sentisse certa antipatia vinda de sua madrasta, jamais imaginava que ela chegaria àquilo. — Mas por quê? O que eu fiz de errado?
            — Repito — enfatizou Arthur. — Apenas cumpro ordens. Este é o meu código: atender àqueles que estão em posições acima da minha.
            Beatriz fitou o homem por um momento, e então sorriu.
            — Ora, se for assim... A empresa também é minha! — ela argumentou. — E eu tenho ligação consanguínea com o fundador da Kingdom, ao contrário da Milena. Portanto, estou numa posição acima da posição dela.
            Arthur encarou a jovem, confuso. Ela estava certa.
            — Olha, eu preciso provar à sua madrasta que eu dei cabo da sua vida — explicou o segurança.
            — Sem problemas! — concordou ela, ainda tremendo. — Dê um soco em meu olho.
            — Hein? — estranhou Arthur.
            — Vamos! — insistiu a jovem. — Bata em mim.
            Sem questionar outra vez, ele deu um soco no rosto da menina, que caiu no chão. Quando ela se recompôs, após cerca de dez minutos, ele a ajudou a se levantar. Beatriz limpou a sua boca do sangue que escorria e, em seguida, pegou um canivete que estava num armário do corredor. Ela cortou suas tranças, deixando o seu cabelo bem curto.
            — Agora, tome — ela entregou as tranças a ele. — Vou-me deitar e você vai pegar o seu celular e tirar fotos. Vai parecer que estou morta.
            Arthur fez tudo o que ela pediu.
            — Leve as tranças para a Milena — pediu Beatriz. — Será outra prova.
            — Prometa que vai fugir! — exigiu o homem. — Você tem que ir o mais longe que puder... Saia da cidade. Se possível, saia do país! Se a sua madrasta descobrir que você ainda está viva, ela mesma vai querer concluir o serviço.
            — Obrigado, Arthur — agradeceu a jovem. — Espero que dê tudo certo para você, também.
            — Vai logo! — gritou o homem.
            Enquanto Arthur voltava para o elevador, Beatriz continuou seguindo pelo corredor mal iluminado. A menina conhecia cada pedaço daquela empresa, cada sala – afinal, sua infância fora toda ali.
            Após abrir algumas portas e subir algumas escadas, Beatriz saiu por uma saída de emergência na parte traseira do prédio. A jovem correu o máximo que pôde; pegou um ônibus e seguiu para a mansão de seu pai, pois precisava fazer as malas.
            Enquanto isso, Milena tomava um cappuccino em sua mesa, na sala da presidência. Sobre a sua mesa, estava uma das revistas das quais fora capa; mas aquela era a mais popular de todas, pois Milena di Aba estava vestida como uma verdadeira rainha da moda: um vestido longo roxo, que combinava com suas luvas – que acabavam um pouco acima dos cotovelos –, uma espécie de cinto de ouro com uma grande pedra de rubi, uma linda e comprida capa preta de gola alta – com o revestimento interior da cor vermelha e, por fim, uma brilhante coroa de ouro. Aquela capa de revista havia sido eleita como a melhor fotografia do mundo da moda por cinco anos seguidos.
            De repente, alguém bateu à porta freneticamente.
            — Calma! — gritou a mulher, assustada. — Mas que droga é essa? Cadê o Arthur para impedir essas pessoas?
            — Senhora, sou eu — Arthur não esperou que ela abrisse a porta, ele próprio entrou na sala.
            — Perdeu o respeito? — perguntou Milena, furiosa.
            — Perdoe-me — pediu o segurança. — Fiz o que me pediu, senhora...
            — Quer dizer... — os olhos de Milena brilharam em contentamento e esperança. — Quer dizer que aquela moleca está morta?
            — Aqui está — disse Arthur, mostrando as fotos no aparelho celular. — E tem isso, também.
            O segurança retirou do bolso as tranças de Beatriz e entregou nas mãos de Milena.
            — Meu Deus! — clamou a mulher. — Você é muito pior do que eu pensava... Quer dizer, neste caso, você foi melhor do que imaginei!
            Milena acariciava as tranças, como se estivesse segurando algo muito precioso.
            — Estas tranças são lindas... — confessou a modelo. — Não tinha nada melhor que você me presentear com elas!
            — Senhora, posso pedir algo? — perguntou o homem.
            — Sim? — ela se virou para ele. — Contanto que não seja um aumento.
            — Não, não é — Arthur, naquele instante, sentiu vontade de esganar a patroa. — Pode me liberar por hoje? Depois desse serviço, fiquei meio cansado.
            — Bem... — ponderou Milena. — Vá! Deixe-me aqui.
            Arthur se retirou da sala, enquanto Milena observava – ou melhor, admirava – as tranças de sua enteada morta.
            Do outro lado da cidade, na parte rica da cidade, Beatriz chegava à mansão de seu pai. A jovem torcia para que nenhum dos empregados de confiança de Milena estivesse ali, pois isso poderia ser fatal.
            Beatriz entrou na casa e correu para o seu quarto. Estava prestes a pegar uma mala, quando decidiu que não teria tempo o suficiente para isso, e decidiu levar apenas uma mochila. Colocou seu telefone, duas mudas de roupa e seus cartões do banco. Quando estava saindo do quarto, viu a governanta passar pelo corredor, e então permaneceu calada. Assim que a mulher entrou em um cômodo, Beatriz saiu e correu até o jardim.
            Mas, assim que colocou os pés na rua, a jovem trombou com a única pessoa que jamais deveria ter trombado naquele dia: Victor Vitral.
            — Victor? — Beatriz ficou atordoada.
            — Oi, minha querida — respondeu o secretário particular de Milena. — Aonde vai com tanta pressa?
            — Tenho um encontro com a Milena... — respondeu de imediato. — Fiquei de visitar a empresa hoje, quero ver como estão as coisas por lá.
            — Bem, estou voltando para lá neste exato momento — revelou Victor. — Vamos comigo, posso dar uma carona a você.
            — Não, obrigada — respondeu Beatriz. — Já chamei um táxi e ele deve estar para chegar.
            — Bem, então ‘tá — Victor entrou em seu carro e seguiu o seu caminho.
            Beatriz inspirou profundamente e soltou a respiração, em alívio. Mas ela sabia que agora teria de se esconder muito bem, pois, com certeza, a sua madrasta saberia que ela ainda estava viva.
            Cerca de trinta minutos depois, Victor entrou sorridente na sala da presidência da Kingdom.
            — Hum... — Milena soltou um risinho. — Por que tanta felicidade, Victor? Até parece que encontrou o seu príncipe encantado!
            — Ah, senhora di Aba! — exclamou Victor, envergonhado. — Sabe muito bem que não tenho tempo para isso... Dedico a minha vida à senhora.
            — Pois deveria dedicar-se a encontrar o seu príncipe — recomendou a mulher. — Assim, eu teria dois secretários confidentes.
            — E a senhora? — questionou Victor. — Por que tanta felicidade? Encontrou o seu príncipe encantado?
            — Claro que não, Victor! — respondeu Milena, prontamente. — Sabe que não ligo para isso... Um homem apenas me impediria de crescer na vida e ser alguém de renome. O motivo do meu sorriso é outro.
            — E que motivo é esse? — Victor ficou curioso.
            — Se a Beatriz não existisse... — supôs a modelo. — Ou, não sei, se ela morresse... Eu seria a mulher mais bela, certo?
            — Creio que sim, senhora — afirmou o assessor. — Mas sabemos que isso não vai acontecer tão cedo... Ela é muito nova, está começando a vida agora! Há pouco, mesmo, eu a vi e admirei a sua jovialidade.
            — O que foi que disse? — as bochechas de Milena ficaram vermelhas e ardiam.
            — Que acabei de vê-la... — repetiu Victor. — Por quê?
            — Onde? Que horas foi isso? — interrogou a mulher.
            — Eu estava saindo da mansão — contou ele. — Ela estava saindo de lá na correria e trombou comigo na rua. Inclusive, ela disse que está vindo para cá. Ofereci uma carona, mas ela disse que já havia chamado um táxi.
            — Mas que inferno! — berrou Milena.
            Victor ficou assustado. Ele não entendeu o motivo da irritação da patroa.
            — Eu não acredito nisso! — gritava Milena. — Aquele traidor do Arthur vai me pagar!
            — Senhora, não estou entendendo...  — lamentou Victor.
            — Saia da minha frente, Victor — Milena empurrou o secretário e saiu impaciente da sala.
            A modelo desceu pelo elevador até a garagem e pegou o seu carro. Ela precisava encontrar Beatriz e, com as suas próprias mãos, por um fim nessa história.


Leia aqui a Parte 3 da história.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Conto: Mais bela do que eu? - PARTE 1

O conto a seguir é uma adaptação que fiz para o conto "Branca de Neve e os Sete Anões".

Beatriz é uma jovem de dezoito anos que perdeu o pai recentemente. Com isso, a Kingdom - grande empresa do ramo de segurança - foi deixada para ela e sua madrasta, Milena di Aba. Milena é uma modelo conhecida internacionalmente por sua beleza exuberante, mas está prestes a travar um embate com sua enteada, que está ganhando o título de mulher mais bela do mundo.

Mais bela do que eu?


            Beatriz era uma bela menina. Aos doze anos de idade, já era dona de corpo e mente maduros. A menina vivia com o pai, Raul, dono de uma empresa multinacional muito influente no mercado de segurança – oferecia sistemas de vigilância e equipamentos de segurança ao mundo inteiro – e, por isso, era considerado um grande homem.
            Na época, o homem (que era viúvo) casara-se com uma famosa modelo das passarelas internacionais, Milena di Aba. A mulher era linda, da cabeça aos pés, vestia-se sempre com as roupas mais glamourosas, mas possuía um gênio forte e um ar arrogante. A pequena Beatriz aceitava muito bem o matrimônio, pois sabia que aquilo devolveria a alegria de seu pai.
            Mas, mesmo assim, Milena não gostava da menina; isso, porque a criança tinha muitas semelhanças de sua progenitora, a primeira esposa de Raul. Beatriz tinha a pele cor de ébano, os olhos pretos como jabuticaba, e vivia com o cabelo lindamente trançado. Por causa disso, a mulher evitava o contato com a enteada.
            Pouco depois do aniversário de dezoito anos de Beatriz, Raul sofreu um infarto e faleceu, deixando a Kingdom, a sua grande empresa, aos cuidados das duas mulheres de sua vida. Milena adorou a ideia de comandar aquele império, e se instalou na sala da presidência, no último andar do prédio. Ela contratou dois funcionários particulares: Arthur, seu segurança particular, e Victor Vitral, seu assessor e secretário há mais de vinte anos.
            Certo dia, enquanto estava mergulhada na papelada da empresa, Milena encontrou uma fotografia da falecida mãe de Beatriz. No mesmo instante, ela rasgou a fotografia e chamou Victor.
            — Sim, senhora? — prontificou-se o assessor.
            — Victor, você que já convive comigo há muito tempo, que já viu todo tipo de mulher nas passarelas ao redor do mundo... — comentou Milena. — Você já achou que alguma delas fosse mais bela do que eu?
            — Ora... — respondeu Victor, convicto. — Nas passarelas? Claro que não!
            — Que bom — o sorriso dela foi maquiavélico.
            — Mas a sua enteada... — interviu ele. — Ela é linda demais! Estonteante. Jamais vi algo assim!
            — Como? — Milena saltou de sua poltrona, surpresa.
            — É, senhora — reafirmou o secretário. — Acho que a Beatriz passou na fila da beleza mais de uma vez.
            — Victor, deixe-me só — ordenou a mulher.
            — Como quiser, senhora — disse Victor, saindo da sala.
            Milena ficou louca com aquilo. Como poderia ser verdade? Victor Vitral era o homem mais honesto que ela conhecia. Mas ela reinava sobre as passarelas internacionais; chegou a ser coroada Miss Universo. Saber que a sua enteada era tida como a mais bela deixava-lhe angustiada.
            A mulher pressionou um botão na mesa e, logo em seguida, um homem entrou na sala. Era Arthur, o segurança particular de Milena. O homem media quase dois metros de altura e sempre estava vestido com um terno preto.
            — Em que posso ajudá-la, senhora? — perguntou ele.
            — Arthur, preciso de um grande favor seu — respondeu Milena, oferecendo uma poltrona ao funcionário. — Como bem sabe, tenho alguns problemas com a minha enteada. Aquela menina está prestes a afundar a Kingdom, e eu não vou permitir isso.
            — E o que eu devo fazer? — Arthur já esperava pelo pior. Antes de trabalhar para Milena di Aba, o homem era um assassino de aluguel.
            — Bem, preciso que dê um sumiço na menina — sugeriu ela. — A Beatriz disse que virá aqui hoje. Ela quer ver como está a empresa de seu pai. Então, é a sua chance.
            — Tudo bem, senhora — concordou Arthur.
            — Mas você precisa fazer algo — alertou ela. — Eu quero uma fotografia, uma prova de que você terá acabado com a beatriz. Faça isso e terá a minha eterna gratidão.
            — Não vou querer apenas a sua gratidão — avisou o segurança.
            — Vá! — exigiu Milena.
            Assim, Arthur desceu até o piso térreo, onde esperaria pela chegada da menina. Enquanto isso, Milena entrou numa sala secreta, que ficava escondida atrás da estante de livros, e desapareceu na escuridão.


Leia aqui a Parte 2 da história; e, aqui, a Parte 3.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Conto: Rumpelstiltskin

Um conto de fadas do folclore alemão traduzido por Júnior Gonçalves


Rumpelstiltskin e a filha do moleiro.
            Era uma vez, um dono de moinho, um pobre moleiro. E ele tinha uma filha muito bonita. Mas ele precisou, um dia, ir falar com o rei e, tentando parecer alguém importante, ele disse:
            — Eu tenho uma filha que pode fiar palha de ouro.
            — Ora, essa é uma arte que me fascina — disse o rei para o moleiro. — Se a sua filha é tão habilidosa quanto você diz, traga ela ao meu palácio amanhã, e eu farei um teste.
            E quando a garota foi trazida até o rei, ele a colocou em uma sala cheia de palha, deu-lhe uma roca e um carretel, então lhe disse:
            — Agora, comece o seu trabalho, e se não tiver fiado toda esta palha até amanhã de manhã, você vai morrer.
            Depois disso, ele mesmo trancou a menina na sala, deixando-a sozinha ali. Assim, ali ficou a pobre filha do moleiro, e por mais que não soubesse o que fazer, ela não tinha ideia de como poderia fiar palha de ouro. Ela ficou assustada a cada vez que pensava sobre aquilo, até que as lágrimas começaram a cair de seus olhos.
            De repente, a porta se abriu, e um homenzinho entrou dizendo:
            — Boa noite, senhora filha do moleiro! Por que tanto berreiro?
            — Ai... — lamentou a menina. — Eu preciso fiar palha de ouro, e não tenho ideia de como fazer isso.
            — Se eu te ajudar... — sugeriu o duende. — O que é que você vai me dar?
            — O meu colar — respondeu a garota.
            O homenzinho pegou o colar, sentou-se diante da roca, que girou, girou e girou, três vezes, e o carretel estava completo. Então, ele colocou outro carretel, e girou, girou, girou, mais três vezes, e o segundo também ficou cheio. Ele prosseguiu assim até a manhã, quando toda a palha havia sido fiada, e todos os carretéis estavam cheios de fios de ouro.
            Com a chegada da aurora, o rei já estava em pé diante da sala, e quando ele viu o ouro, ficou surpreso e satisfeito, mas o seu coração ficou apenas mais ganancioso. Ele colocou a filha do moleiro em outra sala cheia de palha, uma sala bem maior, e ordenou que ela fiasse tudo aquilo também em uma noite, caso ela gostasse de sua vida.
            A garota não sabia como faria para se salvar, e chorou. Até que a porta se abriu novamente e o homenzinho surgiu.
            — Se eu, a palha, em ouro tornar — disse ele —, o que é que você vai me dar?
            — O meu anel... — respondeu a menina.
            O homenzinho pegou o anel, e novamente girou a roca. Pela manhã, ele já havia fiado toda a palha em outro brilhante.
            O rei se encheu de alegria com o que viu, mas ele ainda não tinha ouro o suficiente. Então, ele colocou a menina em uma sala ainda maior, forrada de palha.
            — Você deve fiar esta palha toda, também, durante esta noite — decretou o rei. — Mas se você conseguir, você casará comigo.
            — Mesmo ela sendo a filha de um moleiro — pensou o rei —, eu nunca encontrarei uma esposa tão rica no mundo todo.
            O duende voltou assim que a menina ficou sozinha, pela terceira vez.
            — Se mais uma vez eu te ajudar — disse o homenzinho —, o que é que você vai me dar?
            — Não me restou mais nada para te dar — disse a garota.
            — Prometa-me, então, que quando for uma rainha — exigiu o duende —, a sua primeira criança deve ser minha!
            — Talvez isso nunca aconteça — pensou a filha do moleiro e, sem saber de que outra forma poderia se salvar, fez o trato com o duende.
            Assim, mais uma vez, ele fiou a palha em ouro.
            Quando o rei voltou pela manhã e encontrou tudo o que desejava, ele se casou com a garota. Foi quando a bela filha do moleiro se tornou uma rainha.
            Um ano depois, ela deu à luz a uma linda criança. E a rainha havia se esquecido do duende, mas ele apareceu repentinamente em seu quarto.
            — Dê-me agora o que prometeu — exigiu.
            A rainha ficou espantada, e ofereceu todas as riquezas do reino ao homenzinho para que ele deixasse a criança.
            — Não! — contestou o duende. — Uma criança recém-nascida vale mais que qualquer coisa nesta vida.
            A rainha começou a chorar e lamentar, então o duende sentiu pena dela.
            — Três dias eu vou te dar — disse ele. — E, durante este tempo, se quiser sua criança, vai ter de me nomear!
            Então, durante toda a noite, a rainha pensou em todos os nomes que já havia ouvido em sua vida. Ela mandou uma mensagem para todo o país a fim de saber qualquer outro nome que poderia existir. Quando o duende voltou no dia seguinte, ela começou com Gaspar, Melquior, Baltazar; disse todos os nomes que conhecia, um depois do outro, mas para cada um ele respondia:
            — Não me chamo assim.
             No dia seguinte, ela havia coletado suas investigações feitas na vizinhança sobre os nomes das pessoas dali, e repetiu os mais diferentes e curiosos ao duende.
            — Talvez o seu nome seja Costelinha? Catatau? Rendoso?
            — Não me chamo assim — era o que ele sempre respondia.
            No terceiro dia, quando o mensageiro voltou, a resposta foi a seguinte:
            — Não consegui encontrar nenhum novo nome sequer — disse ele. — Mas enquanto eu vinha por uma grande montanha no fim da floresta, onde a raposa e a lebre atentam uma a outra, eu vi uma casinha. E na frente da casa havia uma fogueira, e ao redor do fogo, um homenzinho bem esquisito estava saltitando; ele pulava com uma perna só, e gritava “Um dia de comer, o outro de beber; no outro, o bebê da rainha vai ser meu; como estou feliz que ninguém vai saber; meu nome é Rumpelstiltskin, este aqui sou eu!
            A rainha ficou tão feliz ao ouvir o nome – e você deve bem imaginar. E logo que o homenzinho apareceu, ele perguntou:
            — E então, senhorita de renome... Qual é o meu nome?
            — Você se chama Conrado? — ela perguntou.
            — Não! — ele disse.
            — Você se chama Ari?
            — Não...
            — Então, talvez... — ela sugeriu. — Você se chama Rumpelstiltskin?
            — Quem, diabos, disse isso? Quem? — o duende vociferava tão raivoso, que afundou o pé direito na terra, junto com toda a perna. Furioso, ele puxou sua perna esquerda com tanta força, com as duas mãos, que ele se partiu em dois, tal qual um livro se rasga.


Fonte:

Rumpelstiltskin. East of the Web. Disponível em: <http://www.eastoftheweb.com/short-stories/UBooks/Rum.shtml>

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Opinião: Santa Casa, cadê tua Misericórdia?

Opinião | Júnior Gonçalves
04/12/2014 – 21h33

Comunicado divulgado pela Santa Casa de Misericódia aos funcionários (Foto: G1)

            Após ficar com o seu pronto-socorro fechado por mais de vinte e quatro horas no mês de julho, a Santa Casa de São Paulo chamou a atenção de toda a sociedade e da mídia.
            A instituição filantrópica fechou as portas da emergência em seu hospital central, na Santa Cecília, por falta de dinheiro – não podiam comprar materiais com os fornecedores. Com a explosão da notícia e a crescente indignação da população, o governo do estado liberou uma verba emergencial de R$ 3 milhões – que, segundo ele, seria suficiente para a aquisição de medicamentos e materiais necessários para a instituição se manter por um mês. Em época de eleição, a crise causou grande alvoroço entre os governos federal e estadual, que se acusaram pelo repasse de verba.
            Um relatório divulgado em setembro mostrou que a dívida estava em R$ 433,5 milhões até o mês de dezembro de 2013. Atualmente, o governo do estado repassa, mensalmente, R$ 14 milhões, e o Ministério da Saúde repassa, em acréscimo, R$ 20 milhões.
            Em outubro, houve recusa da instituição em receber pacientes que chegaram de ambulância. Restringiram o atendimento apenas aos pacientes que chegaram à emergência pela porta da frente, o restante (trazidos por ambulâncias), era encaminhado para outros hospitais. E para deixar, também, os funcionários insatisfeitos, houve atraso no pagamento do salário. Ainda, houve relatos da falta de sedativos, de sonda para aspiração de pacientes entubados, falta de leitos etc. Uma equipe de reportagem do iG chegou a ir até o hospital e se passar por paciente para ter acesso ao local, e constatou que os corredores da internação estavam congestionados, cheios de idosos deitados em macas.
            O problema financeiro acabou atrapalhando, também, a realização dos exames. Em novembro, constatou-se a falta de material para fazer exames de sangue. Com isso, a Santa Casa, em sua reestruturação, diariamente avalia quais procedimentos serão suspensos e quais deverão ter prioridade – como se a saúde, em geral, não fosse uma prioridade. Segundo funcionários, faltam kits para análises de urina, e o hospital tem priorizado os exames de emergência e dos pacientes que já estão internados.
            Para completar sua saga e fechar o ano com “chave de ouro”, na última sexta-feira (28/11), a data limite para que os funcionários recebessem a primeira parcela do 13º salário, foi emitido um comunicado pela Santa Casa a todo o corpo de trabalhadores.

Como é de conhecimento de todos, estamos passando por inúmeras dificuldades, as quais serão superadas em breve. Porém, para superarmos as barreiras precisamos do apoio de cada um dos colaboradores [...] a primeira parcela do 13º salário não será creditada [...] realizaremos o pagamento parcial aos colaboradores com remuneração até R$ 3.000,00 [...]

            Os funcionários receberam R$ 300. Trabalharam o ano inteiro, tiveram de trabalhar doentes, sob condições precárias, sem os materiais básicos, tudo isso para, ao fim do ano, receber como a primeira parcela do 13ª salário apenas R$ 300.
            Além da unidade central, a Santa Casa mantém contratos de gestão em unidades de atendimento de saúde com o estado e o município de São Paulo, então há empregados de todo o estado vivenciando esta crise. Segundo Péricles Cristiano Batista, um dos diretores do Sindicato dos Enfermeiros, a Prefeitura honrou com os repasses, enquanto o governo do estado não. Ou seja, apenas os trabalhadores que atuam em unidades que possuem contratos com o governo estadual é que foram afetados pelo não pagamento.
            Há médicos que, em entrevistas nas quais pediram para não serem identificados, disseram que não é a primeira vez que o pagamento atrasa, e que o Sindicato dos Enfermeiros está prejudicando a população com a possibilidade de uma greve. Mas, convenhamos, quando o funcionário se atrasa ou falta, não há atrasos no desconto em sua folha de pagamento.
            O que acontece na Santa Casa de São Paulo é uma falta de respeito com os trabalhadores – as pessoas contam com os seus pagamentos, e não porque é uma “bonificação”, mas porque é seu direito. Ninguém trabalha parceladamente, e ninguém está pedindo algo que não seja seu por direito.

            Santa Casa, que a sua misericórdia, o respeito e o 13º salário compareçam e deem o que é de direito aos seus funcionários.