sábado, 11 de julho de 2015

MESSOREM: O Aprendiz da Morte (C. 1)



Capítulo 1 – O Chamado

            Felipe, um garoto de 15 anos, residente da zona norte da cidade de São Paulo; por conta do seu aniversário, ele acabara de ganhar um presente dos pais: um ultrabook.
            O menino estava muito ansioso para chegar em casa e começar a usar o novo computador. Assim que saiu da escola, ele mal despediu-se dos colegas e correu para casa – que não era muito próxima, então levou cerca de 40 minutos até chegar.
            Chegando em casa, Felipe foi direto ao seu quarto, desconectou o ultrabook da tomada e ligou o aparelho. Em dez segundos, a área de trabalho já estava disponível; havia alguns programas desconhecidos pelo garoto – um deles estava nomeado Messorem.
            — Que estranho! — pensou Felipe, tentando decifrar o que significava aquilo.
            Numa rápida busca pela internet, o menino descobriu que se tratava duma palavra de origem latina, que significa “ceifadores”; isso deixou Felipe ainda mais instigado a abrir o programa de computador.
            O garoto clicou imediatamente sobre o ícone do programa, uma espécie de foice (ele só percebeu isso após descobrir a relação do nome com o seu significado). Enquanto o programa carregava, Felipe mal conseguia conter a sua curiosidade.
            Enfim, a janela inicial do programa se abriu: o leiaute era todo da cor preta com alguns detalhes vermelhos e acinzentados. A figura dum ceifador era desenhada numa sombra no fundo da janela.
            — Que bizarro! — comentou Felipe, enquanto navegava pela janela do programa.
            Uma aba com as letras piscando em vermelho, no alto da janela, chamava a atenção do garoto com os dizeres “Nunc et in hora mortis nostrae”. Felipe copiou a sentença e colou na página de busca da internet e, para alimentar ainda mais a sua curiosidade, o que encontrou foi um trecho duma oração:
            — Agora e na hora de nossa morte... — repetiu Felipe, em voz alta, enquanto lia a tradução.
            — Amém! — uma voz masculina surgiu na porta do quarto.
            O menino saltou da cama assustado, como se tivesse visto um fantasma. Mas era apenas o seu pai.
            — Ah, pai... — o menino se recompôs. — É só você!
            — eu? — Julio fez uma careta. — Obrigado pela consideração.
            — Não foi isso o que quis dizer, pai — argumentou o garoto. — É que eu estava concentrado aqui e tomei um susto quando você falou...
            — Eu vi — concordou Julio. — Está rezando, é?
            — Não! — Felipe riu. — Estou pesquisando umas coisas em latim, só isso.
            — Entendi — Julio piscou e saiu do quarto do filho.
            Felipe se voltou para a tela do computador: o programa havia sido fechado e, agora, só restava uma imagem de plano de fundo a qual ele não escolhera – um ceifador de almas. O menino, imediatamente, desligou o computador e desceu para ficar com os pais na sala.
            Mais tarde, por volta das nove da noite, Felipe foi até o portão de sua casa para olhar a rua, como sempre fazia, mas ele percebeu algo estranho; havia um corsa sedan preto estacionado ao outro lado da rua. O vidro do carro estava abaixado e um homem fitava o menino com um ar misterioso – o homem tinha um rosto envelhecido e uma feição tristonha.
            O menino ficou tão incomodado que decidiu entrar para a sua casa e ir dormir.

            No dia seguinte, logo que acordou, Felipe olhou pela janela para ver se o sedan preto ainda estava ali; mas não estava. O menino ligou o ultrabook. O programa Messorem não abria; “Este programa está sendo atualizado.”, a mensagem surgia sempre que ele clicava sobre o ícone.
            — Mas que droga! — reclamou.
            O menino foi para o banheiro tomar banho. Enquanto ele escovava os dentes, fixou o olhar no espelho para tentar ver melhor algo que lhe havia intrigado: sua pupila estava dilatada, brilhando como um rubi, e a esclera, o branco dos olhos, estava com alguns filamentos pretos – era como se jogasse tinta preta dentro dum copo de leite.
            — Que merda é essa? — ele gritou.
            Felipe ficou aterrorizado e entrou debaixo do chuveiro, esfregando os olhos freneticamente e chorando. Após isso, voltou a olhar para o espelho e tudo estava normal.
            Aquele dia seria terrível para o menino: não conseguiu tomar o café por conta do que vira no banho, não se concentrara nas explicações dos professores durante o período escolar, nem conseguira voltar para casa de ônibus. A ansiedade era tanta, que o garoto preferiu voltar para casa a pé, assim poderia espairecer.
            No caminho, enquanto caminhava pela calçada, um carro o acompanhava lentamente; era um sedan preto. Imediatamente, Felipe apertou o passo e começou a andar depressa. Mas o carro preto também acelerou e alcançou o menino.
            Rezando e pedindo ajuda mentalmente, Felipe ergueu lentamente o rosto e olhou para o interior do carro; mais uma vez, aquele mesmo homem esquisito – sua feição, agora, era de urgência.
            — Deixa eu falar com você? — disse o homem de dentro do carro.
            Felipe o encarou com pavor e permaneceu em silêncio, andando o mais depressa que podia.
            — Felipe, por favor! — insistiu o homem.
            Nesse instante, ao ouvir o seu nome na boca dum desconhecido, Felipe arregalou os olhos e ficou estático na calçada, tentando olhar nos olhos do homem desconhecido.
            — Até que enfim... — disse o homem. — Preciso muito falar com você!
            — Como sabe o meu nome? Quem é você? — interrogou Felipe. O menino encarava o homem apavorado, pois via nele a mesma coisa que havia visto em si pela manhã: os olhos estavam tomados por um negrume.
            — Entre no carro — pediu o homem. Ele vestia um terno preto, camisa preta e uma gravata vermelho-sangue; adornava, em seu pescoço, uma corrente com um pingente em forma de foice.
            — ‘Tá louco, né? — disse Felipe. — Nem te conheço!
            — Mas eu conheço quem você é e o que você vai ser — revelou o homem.
            O menino olhou à sua volta; não havia absolutamente ninguém na rua além dos dois.
            — Só me diga o seu nome — insistiu Felipe.
            — Não lembro mais o meu nome — respondeu o homem. — Entre logo no carro, não farei mal a você.
            — Caramba, eu sou um imbecil por fazer isso — disse Felipe, enquanto abria a porta do sedan e sentava no banco do passageiro.
            As janelas do carro se fecharam e o homem deu a partida; enquanto dirigia, foi bombardeado pelas perguntas do menino, que estava bem preocupado:
            — Como sabe o meu nome?
            — Eu não conhecia você... — revelou. — Até ontem.
            — Você me conheceu ontem naquela hora em que eu estava vendo a rua? — perguntou Felipe.
            — Não, foi antes — respondeu o homem. — Conheci você quando abriu aquele programa em seu computador.
            — Você é um hacker? — supôs o menino.
            — Não! — o homem tentou rir, mas conseguiu uma tosse seca. — Sou o que você está prestes a ser.
            — Como assim? — Felipe estava impaciente. — Os seus olhos... Por que são assim?
            — Há muito tempo atrás, quando eu havia acabado de sair do exército, ganhei um livro em branco, uma espécie de diário — contou o homem. — Ganhei de uma mulher que eu nunca vi antes.
            O negrume nos olhos do homem parecia estar-se movendo dum lado para o outro.
            — Quando rasguei a embalagem, vi a capa do livro: “Messorem” — lembrou o homem.
            — Ceifadores — comentou o menino, com boquiaberto.
            — Isso mesmo — confirmou o homem. — E, depois, na contracapa, uma frase que você já deve conhecer também... Fiquei bem assustado com isso, mas não me importei muito. Porém, quando comecei a escrever sobre os meus dias de exército naquele diário, as coisas ficaram estranhas.
            — Estranhas? — perguntou Felipe.
            — Os meus olhos; vez ou outra, eu me via com eles assim, escuros — explicou o homem, apontando para os próprios olhos, que estavam negros com a pupila vermelha. — Depois, encontrei este pingente no meio do livro...
            — Desculpe, mas não estou entendendo nada — Felipe preferiu ser franco. — O que tudo isso tem a ver comigo?
            — O que eu sou... — o homem resistiu um pouco a continuar. — O que você está prestes a ser não é algo comum; não é algo humano. Infelizmente, ninguém me ajudou a passar por isso, então sofri muito. Mas eu estou aqui para ajuda-lo.
            — O que você é? — insistiu Felipe, curioso e preocupado.
            — Desde sempre, pessoas foram escolhidas (nunca soube por quem!) para uma função um tanto quanto perturbadora. Essas pessoas acabam tornando-se seres não-humanos capazes de agir como psicopompos.
            — Psico-o-quê? — questionou Felipe, sem entender uma vírgula.
            — Psicompompos — repetiu o homem. — Essas pessoas viram guias das almas que deixam os seus corpos; mostramos a esses espíritos o caminho que eles devem seguir para que não fiquem presos aqui na Terra.
            — Mas que doideira é essa? — Felipe encarou o homem com descrença. — Não acredito em contos de fada!
            — Não é um conto de fada — disse o homem, convicto. — É a realidade. Você está prestes a ser um Ceifador.
            — Para o carro que eu quero descer! — exigiu Felipe.
            — Felipe, por favor... — implorou o homem. — Me deixa ajudar você! Passar por isso sozinho é muito pior!
            — Para o carro! — gritou Felipe.
            Dois segundos depois, o carro parou.
            Felipe abriu a porta e saiu sem olhar para trás. Aquele homem não fazia parte da sua vida e jamais faria. Aquela vida não seria a sua. Aquele destino não seria o seu.

MESSOREM: O Aprendiz da Morte (Apresentação)



            Felipe é um paulistano que acaba de completar os seus 15 anos de idade e, de presente, ganha um ultrabook dos seus pais. Contudo, um estranho software chama a atenção do menino: Messorem; após descobrir a tradução da palavra latina, Felipe é apresentado a um mundo sobrenatural que, até então, desconhecia. Um homem misterioso será o seu guia nesta jornada de tantos descobrimentos – os impulsos da adolescência, o medo do desconhecido, as maravilhas que a morte pode trazer. Tornando-se um aprendiz da Morte, Felipe aprenderá que a sua vida começa quando a vida dos outros acaba.

            A história de Felipe nos levará por um caminho sombrio. Veremos o quão inseguro é um adolescente e do que ele é capaz quando sabe que possui mais poder que os outros. Postarei um capítulo a cada 7 ou 15 dias; espero que vocês os leiam com muito afinco para que, juntos, descubramos o desfecho dessa história tão misteriosa.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Escrever: dom(ínio)



            Ao contrário do que muita gente pensa, escrever bem não é um dom; é um esforço contínuo em aprender e dominar mais e mais a língua, a sua estrutura, as suas regras.
            Qualquer um escreve – qualquer um mesmo! Agora, escrever bem não é pra qualquer um: a ideia pode, até, surgir “do nada”; mas o conteúdo completo, a forma da “coisa” só ficam prontos após muito trabalho.
            O ideal é praticar: a ideia surge em algum momento e, quando surgir, é o momento certo para iniciar a escrita. Atualmente, é difícil ver alguém escrevendo a lápis num papel; mas foi assim que eu comecei: pegava um caderno em branco e escrevia as minhas histórias – hoje, lendo essas histórias, percebo o quanto a minha escrita amadureceu (um vocabulário maior, um cuidado com a coesão e a coerência, com a estrutura das sentenças, com a gramática e, principalmente, com a ortografia – não faltam “escritores” que escrevem mal a ponto de não saber acentuar as palavras ou, mesmo, utilizar um ponto final!).
            Muitos me perguntam o porquê de eu ainda não ter nenhuma obra impressa. Acho que ainda não é o momento; preocupo-me demais com o que escrevo, então, reescrevo várias vezes e, depois, reviso outras tantas. Além disso, ainda estou conquistando o meu público cativo com o meu blogue e a minha página do Facebook, “Abra a sua mente”; quando eu tiver publicado algo impresso, quero ter a certeza de que isso será feito para um público consideravelmente grande. Por enquanto, prefiro utilizar a internet e as redes sociais como forma de “disseminar” os meus pensamentos, as minhas ideias e os meus personagens.
            Acredito que todo escritor que se preze deveria pensar assim: preocupar-se com o que escreve para que o leitor faça uma boa leitura, sem ter de preocupar-se com algo além da própria história (afinal, sei bem como é ler um livro cheio de erros, de incoerências, de incoesões – tudo isso acaba com a história: é impossível focar a leitura no enredo sem olhar para essas questões). Publique um livro assim e você pode detonar toda a sua carreira literária; um escritor com o nome sujo não consegue limpá-lo facilmente e apagar todos os seus erros.
            Para ser escritor, precisa cursar Letras? Não, não precisa; mas quem cursa Letras tem acesso a todo o conteúdo da língua: sintaxe, semântica, morfologia, gramática, linguística e revisão. Mas esse conteúdo também está disponível na internet, então não é desculpa para quem não cursa Letras. Um escritor precisa dominar a língua, e isso não se discute; precisa ter a iniciativa de assumir que não sabe algo e pesquisar a resposta; precisa ampliar o seu vocabulário; precisa estar atento aos seus erros; precisa revisar.

            Vivemos num mundo tecnológico e todo conectado; a única coisa de que precisamos é saber aproveitá-lo e lançarmo-nos como escritores (para aqueles que o são).

terça-feira, 23 de junho de 2015

Tudo o que Jenifer sabia...



            Tudo o que Jenifer sabia era que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria explodindo (não literalmente, é óbvio, mas em relação aos seus sentimentos). Ela sabia o que podia ou não fazer e sabia sobre todas as consequências de cada decisão; talvez fosse exatamente isso que a impedisse de agir: saber.
            Saber das coisas não pode ser considerado, exatamente, um dom; está mais para uma maldição: você tem o conhecimento e isso te vai tornar alguém que pode enxergar as coisas, mas, ao mesmo tempo, isso te vai trazer uma série de angústias e noites em claro.
            Jenifer estava exatamente assim – a angústia lhe tomava conta e fazia-lhe não raciocinar direito; ela imaginava coisas, criava histórias absurdas que justificassem a sua vontade.
            Tudo começara há pouco mais de dez anos: no auge da maioridade, Jenifer havia feito a escolha de iniciar um relacionamento (e cada escolha vem com uma renúncia); mas a menina não imaginava que as renúncias seriam tantas. Após vivenciar vários relacionamentos diferentes e amadurecer com cada vivência, a moça havia chegado a um ponto crucial – percebera que não tinha o controle sobre muito do que lhe rondava; e, para ela, isso acabou sendo algo terrível.

            Mas, afinal, para que ter tudo sob controle?

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pela toca do Coelho


            No dia 4 de julho de 1865, após três anos sendo enriquecida e aprimorada, foi publicada a história duma menina que encantou o público da Literatura Fantástica: As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol – pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson.
            O livro conta a história de Alice, que acaba caindo, literalmente, num mundo fantástico repleto de criaturas antropomórficas, cheio de coisas ilógicas e de características dum sonho. O livro não é só dedicado às crianças, pois foi uma forma que Lewis encontrou para satirizar seus amigos e inimigos, além de ter criado paródias para poemas populares ingleses do século XIX.
            No próximo mês, Alice comemora os seus 150 anos. Para lembrar desse clássico, produzi uma tradução dum trecho do livro, a qual verão a seguir.


CAPÍTULO 1 – Pela toca do coelho

            Alice já dava indícios do seu cansaço por estar sentada naquele banco ao lado da sua irmã sem ter nada para fazer: vez ou outra, ela bisbilhotava o livro que a irmã lia, mas, não havia ilustrações ou diálogos nele.
            — Pra quê serve um livro — pensou Alice — se não tem desenhos e nem conversas?
            Na sua mente, então, ela pensou (o máximo que pôde, já que o dia abafado a deixou muito sonolenta e entorpecida) se a alegria em confeccionar uma pulseira de flores compensaria o problema em ter de levantar-se para colher as tais flores. Daí, de repente, um Coelho Branco com olhos rosados correu muito próximo a ela.
            Não havia nada de tão extraordinário naquilo; e Alice não achou muito incomum ouvir o Coelho falar consigo mesmo:
            — Ó, céus! Poxa! Estou atrasado!
            Depois, quando ela parou para pensar, achou que deveria ter percebido o quão estranho era, mas tudo fora muito natural na hora. Mas, quando o Coelho pegou um relógio no bolso do seu colete, e consultou as horas e, depois, ficou preocupado com a hora, Alice se levantou e, num clarão de ideias, lembrou-se de que nunca havia visto um coelho vestindo um colete com bolsos, e muito menos um relógio para tirar desse bolso. Sem se aguentar de curiosidade, ela correu pela grama atrás do coelho e, com sorte, conseguiu vê-lo saltar dentro duma grande toca de coelho sob a cerca.
            No segundo seguinte, Alice saltou na toca, sem pensar em como conseguiria sair dali depois.
            A toca do coelho era profunda, como um túnel que levava a algum lugar desconhecido, e, de repente, virou um buraco, de modo que Alice nem teve como pensar em parar antes de começar a cair em algo que parecia não ter um fundo.
            Ou aquilo não tinha fundo, ou ela caía muito lentamente, pois ela já havia passado muito tempo olhando ao seu redor para desejar saber o que aconteceria depois daquilo. Primeiro, ela tentou olhar para baixo e descobrir para onde estava caindo, mas estava tudo muito escuro para conseguir enxergar. Depois, ela olhou para os lados do túnel e percebeu que as paredes eram cheias de cristaleiras e estantes de livro. Aqui e ali, havia mapas e quadros pendurados em estacas. Ela pegou uma tigela de uma das estantes enquanto caía – havia uma etiqueta dizendo “Geleia de Laranja” –, mas, para a sua tristeza, estava vazia. Ela não quis largar a tigela por medo de matar alguém, assim, conseguiu guardá-la numa das cristaleiras enquanto caía.
            — Bom... — pensou Alice. — Após cair tanto assim, eu não vou achar ruim se cair das escadas! Em casa, vão me achar muito corajosa! Até porque não falarei nada se eu cair, mesmo se for do telhado de casa! — O que, provavelmente, era verdade.
            Cair, cair e cair. A queda parecia nunca ter um fim!
            — Quantos metros eu já devo ter caído neste tempo? — questionou-se em voz alta. — Já devo estar bem perto do centro da Terra. Vamos ver... Acho que isso seria mais de seis mil metros abaixo da terra. — Como podem ver, Alice não aprendeu muitas coisas desse tipo em suas lições da escola e, pensando bem, aquele não era um momento muito adequado para mostrar os seus conhecimentos, além de não ter ninguém para ouvi-la, mesmo que dizer fosse uma boa prática.
            — Sim! É a distância correta. Mas, aí, fico pensando em qual Latitude ou Longitude estou? — Alice não fazia ideia do que era a Latitude nem a Longitude, mas achava que eram ótimas palavras a serem ditas.
            Logo, ela recomeçou:
            — Será que eu posso cair direto através da Terra? Seria muito engraçado aparecer no meio das pessoas que andam com suas cabeças para baixo. Os Antipáticos, acho que é isso — ela não estava tão triste, agora, por ninguém ouvi-la, pois aquela parecer ser a palavra certa. — Mas tenho que perguntar o nome do país a eles. Com licença, Senhora, aqui é a Nova Zelândia ou a Austrália? — Ela tentava imitar um cumprimento enquanto falava (cumprimentar em queda livre – já pensou nisso?). — Ela vai achar que sou uma garota ignorante por perguntar isso. Não, eu não perguntarei. Talvez eu possa ver o nome escrito em algum lugar.
            Cair, cair e cair. Não havia mais nada a fazer, então Alice voltou a falar:
            — Acho que a Diná vai ficar com muita saudade de mim! — Diná era a gata de estimação. — Tomara que eles se lembrem de dar o leite dela na hora do café. Diná, minha querida, queria que estivesse aqui embaixo comigo! Acredito que não há ratos no ar, mas você poderia capturar um morcego, e isso se parece muito com um ratinho, né? Mas será que gatos comem morcegos?
            E, então, Alice começou a ficar mais sonolenta e continuou falando sozinha de uma maneira sonhadora:
            — Gatos comem morcegos? Morcegos comem gatos? — ela alternava.
            Como podem ver, ela não conseguia responder nenhuma das perguntas e, por isso, não importava a ordem. A menina sentiu que estava cochilando e começou a sonhar que caminhava de mãos dadas com Diná, falando com a gata seriamente:
            — Então, Diná, fale a verdade... Você já comeu um morcego? — de repente, houve um baque e Alice caiu sobre um monte de galhos e folhas secas. A queda havia chegado ao fim.
            Alice não havia se machucado nem um pouco; então, em segundos, ela pôs-se de pé. Ela olhou para cima, mas estava tudo muito escuro; atrás dela havia outro grande túnel e o Coelho Branco passava por ali, todo apressado.
            Não havia tempo a perder, e Alice, parecendo uma ventania, correu atrás do animal a tempo de ouvi-lo falar, assim que ele havia feito uma curva:
            — Ah! Pelas minhas orelhas e pelos meus bigodes! Está ficando tarde!
            Ela estava bem atrás deles quando fez a curva, mas o Coelho já havia desaparecido. Alice se viu num cômodo com o teto baixo e que se estendia vastamente, todo iluminado por uma fileira de lâmpadas que pendiam do teto.
            Havia portas por todo o cômodo, mas elas estavam todas trancadas. Depois de ter percorrido todo o cômodo por um lado e ter voltado pelo outro lado, tentando abrir porta por porta, Alice caminhou com desânimo para o centro da sala, pensando em como ela sairia dali.
            De repente, ela encontrou uma mesinha de três pés, toda feita em vidro; não havia nada sobre o móvel, exceto por uma minúscula chave dourada, e o primeiro pensamento de Alice foi que a chave poderia abrir uma daquelas portas. Mas (para a sua infelicidade!), ou as fechaduras eram grandes demais, ou a chave era pequena demais; mas, de qualquer forma, não seria possível abrir nenhuma das portas.
            Entretanto, na segunda tentativa, Alice encontrou uma cortina que, antes, não havia percebido; e, atrás dela, havia uma portinha que media cerca de 40 centímetros. Ela tentou colocar a pequena chave na fechadura e, para a sua sorte, coube perfeitamente!
            Alice abriu a porta e descobriu que ela levava a um pequeno túnel – não muito maior do que uma toca de ratos. Ela se ajoelhou e olhou através do túnel, enxergando o mais lindo jardim que já havia visto. Ela estava “doida” para sair daquela sala sombria e passear por entre aqueles canteiros de flores luminosas e aquelas fontes de água fresca; mas ela mal podia passar a sua cabeça pela porta.
            — E, mesmo se a minha cabeça coubesse — pensou Alice —, não teria muita serventia sem os meus ombros. Ah! Como eu queria poder ser dobrável como um telescópio! Eu acho, até, que eu poderia se, ao menos, soubesse por onde começar.
            Vejam, como tantas esquisitices aconteceram ultimamente, Alice começava a achar que algumas coisas, aliás, era verdadeiramente impossíveis.
            Não havia porque esperar ao lado da portinha; então, Alice voltou em direção à mesa, esperando, talvez, encontrar outra chave sobre o móvel, ou, também, um manual para dobrar pessoas como telescópios. Foi, aí, que ela encontrou uma garrafinha sobre a mesa:
            — Isso, sem dúvida, não estava aqui — comentou Alice.
            Em volta do gargalo, havia uma etiqueta de papel com as palavras “BEBA-ME” gravadas, de forma graciosa, em letras grandes.
            Tudo bem em dizer “BEBA-ME”, mas a pequenina e sabida Alice não faria aquilo tão depressa.
            — Não... Vou dar uma olhada antes — ela disse — e ver se está ou não marcado “veneno”.
            A menina já havia lido muitas lindas historinhas sobre crianças queimadas e comidas por criaturas selvagens, além de outras coisas desagradáveis, tudo porque não se lembraram das regras simples que os seus amigos haviam-lhes ensinado. Por exemplo: um ferro em brasa pode queimar você caso não o afaste o suficiente; ou, se você fizer um corte bem profundo no dedo com uma faca, vai sangrar. E Alice jamais se esquecera daquilo: se você beber de uma garrafa em que está escrito “veneno”, é quase certeza de que você sofrerá as consequências, mais cedo ou mais tarde.
            Contudo, a garrafa não continha nenhuma marcação de “veneno”; assim, Alice não hesitou em beber, e achou o conteúdo muito bom – na verdade, era um gosto misturado de torta de cereja, musse, abacaxi, peru assado, caramelo e torrada com manteiga derretida; era tão bom, que ela acabou com o líquido rapidinho.
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* * * *
            — Que coisa esquisita! — disse Alice. — Devo estar-me dobrando igual a um telescópio.
            E aquilo não era imaginação; de fato, ela ficara com cerca de 25 centímetros de altura. A feição de Alice se alegrou assim que ela se lembrou de que tinha o tamanho exato para passar pela porta e entrar naquele adorável jardim.
            Antes, contudo, ela esperou por alguns minutos para ver se ainda encolheria mais; ela ficou um pouco assustada com isso.
            — Isso bem pode acabar — comentou Alice, sozinha. — comigo desaparecendo como uma vela. Como eu ficaria? — Ela tentou imaginar como se parece a chama duma vela após apagar-se, mas ela não conseguiu lembrar-se de algo do tipo.
            Após aguardar um tempo e descobrindo que nada mais aconteceria, ela decidiu ir para o jardim de uma vez por todas; mas, para o seu azar, ela percebeu que havia esquecido a chave dourada assim que cruzou a porta e, então, voltou para buscá-la; foi só aí que ela se deu conta de que não alcançava o topo da mesa – ela podia ver o objeto através do vidro e tentou dar o melhor de si para escalar uma das pernas da mesa, mas a superfície era muito escorregadia. Depois de muitas tentativas inúteis e de ser vencida pelo cansaço, a pequenina Alice se sentou e começou a chorar.
            — Ei! Não tem porque chorar assim! — a menina fez um alerta a si própria de uma maneira ríspida. — É melhor parar agora mesmo! — Geralmente, ela sempre se alertava muito bem – embora ela, raramente, seguisse os próprios conselhos. Às vezes, ela se repreendia dum modo tão severo que provocava choro em si própria; uma vez, ela tentara boxear as próprias orelhas por ter trapaceado num jogo de críquete em que jogava sozinha (essa curiosa menina adorava fingir ser duas pessoas).
            — Agora não adianta — pensou a pobre Alice — querer ser duas pessoas! Isso, porque já está difícil o bastante ser uma pessoa digna de respeito!
            Alguns segundos depois, o seu olhar chegou a uma pequena caixa de vidro que estava sob a mesa; Alice abriu a caixa e encontrou um bolo em miniatura, no qual estava escrito “COMA-ME” em lindas letras feitas com groselha.
            — Bom, vou comer — decidiu Alice — e, se isso me fizer crescer, poderei pegar a chave; agora, se isso me fizer diminuir, poderei rastejar sob a porta e chegarei, de qualquer forma, no jardim, não importa o que aconteça.
            A menina mordiscou um pedaço.
            — E aí? E aí? — perguntava a menina, freneticamente, segurando sua mão em cima da cabeça para sentir se estava crescendo; mas ela ficou bem surpresa ao ver que continuava do mesmo tamanho (para ser exato, isso costuma acontecer quando se come bolo, mas Alice já estava acostumada a não esperar nada além de esquisitices acontecendo – porque, parecer normal, parecia-lhe chato!).
            Então, Alice decidiu agir e acabou com o bolo duma vez por todas.


Fonte: https://www.gutenberg.org/files/11/11-h/11-h.htm