terça-feira, 23 de junho de 2015

Tudo o que Jenifer sabia...



            Tudo o que Jenifer sabia era que, mais cedo ou mais tarde, ela acabaria explodindo (não literalmente, é óbvio, mas em relação aos seus sentimentos). Ela sabia o que podia ou não fazer e sabia sobre todas as consequências de cada decisão; talvez fosse exatamente isso que a impedisse de agir: saber.
            Saber das coisas não pode ser considerado, exatamente, um dom; está mais para uma maldição: você tem o conhecimento e isso te vai tornar alguém que pode enxergar as coisas, mas, ao mesmo tempo, isso te vai trazer uma série de angústias e noites em claro.
            Jenifer estava exatamente assim – a angústia lhe tomava conta e fazia-lhe não raciocinar direito; ela imaginava coisas, criava histórias absurdas que justificassem a sua vontade.
            Tudo começara há pouco mais de dez anos: no auge da maioridade, Jenifer havia feito a escolha de iniciar um relacionamento (e cada escolha vem com uma renúncia); mas a menina não imaginava que as renúncias seriam tantas. Após vivenciar vários relacionamentos diferentes e amadurecer com cada vivência, a moça havia chegado a um ponto crucial – percebera que não tinha o controle sobre muito do que lhe rondava; e, para ela, isso acabou sendo algo terrível.

            Mas, afinal, para que ter tudo sob controle?

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Pela toca do Coelho


            No dia 4 de julho de 1865, após três anos sendo enriquecida e aprimorada, foi publicada a história duma menina que encantou o público da Literatura Fantástica: As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol – pseudônimo de Charles Lutwidge Dogson.
            O livro conta a história de Alice, que acaba caindo, literalmente, num mundo fantástico repleto de criaturas antropomórficas, cheio de coisas ilógicas e de características dum sonho. O livro não é só dedicado às crianças, pois foi uma forma que Lewis encontrou para satirizar seus amigos e inimigos, além de ter criado paródias para poemas populares ingleses do século XIX.
            No próximo mês, Alice comemora os seus 150 anos. Para lembrar desse clássico, produzi uma tradução dum trecho do livro, a qual verão a seguir.


CAPÍTULO 1 – Pela toca do coelho

            Alice já dava indícios do seu cansaço por estar sentada naquele banco ao lado da sua irmã sem ter nada para fazer: vez ou outra, ela bisbilhotava o livro que a irmã lia, mas, não havia ilustrações ou diálogos nele.
            — Pra quê serve um livro — pensou Alice — se não tem desenhos e nem conversas?
            Na sua mente, então, ela pensou (o máximo que pôde, já que o dia abafado a deixou muito sonolenta e entorpecida) se a alegria em confeccionar uma pulseira de flores compensaria o problema em ter de levantar-se para colher as tais flores. Daí, de repente, um Coelho Branco com olhos rosados correu muito próximo a ela.
            Não havia nada de tão extraordinário naquilo; e Alice não achou muito incomum ouvir o Coelho falar consigo mesmo:
            — Ó, céus! Poxa! Estou atrasado!
            Depois, quando ela parou para pensar, achou que deveria ter percebido o quão estranho era, mas tudo fora muito natural na hora. Mas, quando o Coelho pegou um relógio no bolso do seu colete, e consultou as horas e, depois, ficou preocupado com a hora, Alice se levantou e, num clarão de ideias, lembrou-se de que nunca havia visto um coelho vestindo um colete com bolsos, e muito menos um relógio para tirar desse bolso. Sem se aguentar de curiosidade, ela correu pela grama atrás do coelho e, com sorte, conseguiu vê-lo saltar dentro duma grande toca de coelho sob a cerca.
            No segundo seguinte, Alice saltou na toca, sem pensar em como conseguiria sair dali depois.
            A toca do coelho era profunda, como um túnel que levava a algum lugar desconhecido, e, de repente, virou um buraco, de modo que Alice nem teve como pensar em parar antes de começar a cair em algo que parecia não ter um fundo.
            Ou aquilo não tinha fundo, ou ela caía muito lentamente, pois ela já havia passado muito tempo olhando ao seu redor para desejar saber o que aconteceria depois daquilo. Primeiro, ela tentou olhar para baixo e descobrir para onde estava caindo, mas estava tudo muito escuro para conseguir enxergar. Depois, ela olhou para os lados do túnel e percebeu que as paredes eram cheias de cristaleiras e estantes de livro. Aqui e ali, havia mapas e quadros pendurados em estacas. Ela pegou uma tigela de uma das estantes enquanto caía – havia uma etiqueta dizendo “Geleia de Laranja” –, mas, para a sua tristeza, estava vazia. Ela não quis largar a tigela por medo de matar alguém, assim, conseguiu guardá-la numa das cristaleiras enquanto caía.
            — Bom... — pensou Alice. — Após cair tanto assim, eu não vou achar ruim se cair das escadas! Em casa, vão me achar muito corajosa! Até porque não falarei nada se eu cair, mesmo se for do telhado de casa! — O que, provavelmente, era verdade.
            Cair, cair e cair. A queda parecia nunca ter um fim!
            — Quantos metros eu já devo ter caído neste tempo? — questionou-se em voz alta. — Já devo estar bem perto do centro da Terra. Vamos ver... Acho que isso seria mais de seis mil metros abaixo da terra. — Como podem ver, Alice não aprendeu muitas coisas desse tipo em suas lições da escola e, pensando bem, aquele não era um momento muito adequado para mostrar os seus conhecimentos, além de não ter ninguém para ouvi-la, mesmo que dizer fosse uma boa prática.
            — Sim! É a distância correta. Mas, aí, fico pensando em qual Latitude ou Longitude estou? — Alice não fazia ideia do que era a Latitude nem a Longitude, mas achava que eram ótimas palavras a serem ditas.
            Logo, ela recomeçou:
            — Será que eu posso cair direto através da Terra? Seria muito engraçado aparecer no meio das pessoas que andam com suas cabeças para baixo. Os Antipáticos, acho que é isso — ela não estava tão triste, agora, por ninguém ouvi-la, pois aquela parecer ser a palavra certa. — Mas tenho que perguntar o nome do país a eles. Com licença, Senhora, aqui é a Nova Zelândia ou a Austrália? — Ela tentava imitar um cumprimento enquanto falava (cumprimentar em queda livre – já pensou nisso?). — Ela vai achar que sou uma garota ignorante por perguntar isso. Não, eu não perguntarei. Talvez eu possa ver o nome escrito em algum lugar.
            Cair, cair e cair. Não havia mais nada a fazer, então Alice voltou a falar:
            — Acho que a Diná vai ficar com muita saudade de mim! — Diná era a gata de estimação. — Tomara que eles se lembrem de dar o leite dela na hora do café. Diná, minha querida, queria que estivesse aqui embaixo comigo! Acredito que não há ratos no ar, mas você poderia capturar um morcego, e isso se parece muito com um ratinho, né? Mas será que gatos comem morcegos?
            E, então, Alice começou a ficar mais sonolenta e continuou falando sozinha de uma maneira sonhadora:
            — Gatos comem morcegos? Morcegos comem gatos? — ela alternava.
            Como podem ver, ela não conseguia responder nenhuma das perguntas e, por isso, não importava a ordem. A menina sentiu que estava cochilando e começou a sonhar que caminhava de mãos dadas com Diná, falando com a gata seriamente:
            — Então, Diná, fale a verdade... Você já comeu um morcego? — de repente, houve um baque e Alice caiu sobre um monte de galhos e folhas secas. A queda havia chegado ao fim.
            Alice não havia se machucado nem um pouco; então, em segundos, ela pôs-se de pé. Ela olhou para cima, mas estava tudo muito escuro; atrás dela havia outro grande túnel e o Coelho Branco passava por ali, todo apressado.
            Não havia tempo a perder, e Alice, parecendo uma ventania, correu atrás do animal a tempo de ouvi-lo falar, assim que ele havia feito uma curva:
            — Ah! Pelas minhas orelhas e pelos meus bigodes! Está ficando tarde!
            Ela estava bem atrás deles quando fez a curva, mas o Coelho já havia desaparecido. Alice se viu num cômodo com o teto baixo e que se estendia vastamente, todo iluminado por uma fileira de lâmpadas que pendiam do teto.
            Havia portas por todo o cômodo, mas elas estavam todas trancadas. Depois de ter percorrido todo o cômodo por um lado e ter voltado pelo outro lado, tentando abrir porta por porta, Alice caminhou com desânimo para o centro da sala, pensando em como ela sairia dali.
            De repente, ela encontrou uma mesinha de três pés, toda feita em vidro; não havia nada sobre o móvel, exceto por uma minúscula chave dourada, e o primeiro pensamento de Alice foi que a chave poderia abrir uma daquelas portas. Mas (para a sua infelicidade!), ou as fechaduras eram grandes demais, ou a chave era pequena demais; mas, de qualquer forma, não seria possível abrir nenhuma das portas.
            Entretanto, na segunda tentativa, Alice encontrou uma cortina que, antes, não havia percebido; e, atrás dela, havia uma portinha que media cerca de 40 centímetros. Ela tentou colocar a pequena chave na fechadura e, para a sua sorte, coube perfeitamente!
            Alice abriu a porta e descobriu que ela levava a um pequeno túnel – não muito maior do que uma toca de ratos. Ela se ajoelhou e olhou através do túnel, enxergando o mais lindo jardim que já havia visto. Ela estava “doida” para sair daquela sala sombria e passear por entre aqueles canteiros de flores luminosas e aquelas fontes de água fresca; mas ela mal podia passar a sua cabeça pela porta.
            — E, mesmo se a minha cabeça coubesse — pensou Alice —, não teria muita serventia sem os meus ombros. Ah! Como eu queria poder ser dobrável como um telescópio! Eu acho, até, que eu poderia se, ao menos, soubesse por onde começar.
            Vejam, como tantas esquisitices aconteceram ultimamente, Alice começava a achar que algumas coisas, aliás, era verdadeiramente impossíveis.
            Não havia porque esperar ao lado da portinha; então, Alice voltou em direção à mesa, esperando, talvez, encontrar outra chave sobre o móvel, ou, também, um manual para dobrar pessoas como telescópios. Foi, aí, que ela encontrou uma garrafinha sobre a mesa:
            — Isso, sem dúvida, não estava aqui — comentou Alice.
            Em volta do gargalo, havia uma etiqueta de papel com as palavras “BEBA-ME” gravadas, de forma graciosa, em letras grandes.
            Tudo bem em dizer “BEBA-ME”, mas a pequenina e sabida Alice não faria aquilo tão depressa.
            — Não... Vou dar uma olhada antes — ela disse — e ver se está ou não marcado “veneno”.
            A menina já havia lido muitas lindas historinhas sobre crianças queimadas e comidas por criaturas selvagens, além de outras coisas desagradáveis, tudo porque não se lembraram das regras simples que os seus amigos haviam-lhes ensinado. Por exemplo: um ferro em brasa pode queimar você caso não o afaste o suficiente; ou, se você fizer um corte bem profundo no dedo com uma faca, vai sangrar. E Alice jamais se esquecera daquilo: se você beber de uma garrafa em que está escrito “veneno”, é quase certeza de que você sofrerá as consequências, mais cedo ou mais tarde.
            Contudo, a garrafa não continha nenhuma marcação de “veneno”; assim, Alice não hesitou em beber, e achou o conteúdo muito bom – na verdade, era um gosto misturado de torta de cereja, musse, abacaxi, peru assado, caramelo e torrada com manteiga derretida; era tão bom, que ela acabou com o líquido rapidinho.
* * * *
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            — Que coisa esquisita! — disse Alice. — Devo estar-me dobrando igual a um telescópio.
            E aquilo não era imaginação; de fato, ela ficara com cerca de 25 centímetros de altura. A feição de Alice se alegrou assim que ela se lembrou de que tinha o tamanho exato para passar pela porta e entrar naquele adorável jardim.
            Antes, contudo, ela esperou por alguns minutos para ver se ainda encolheria mais; ela ficou um pouco assustada com isso.
            — Isso bem pode acabar — comentou Alice, sozinha. — comigo desaparecendo como uma vela. Como eu ficaria? — Ela tentou imaginar como se parece a chama duma vela após apagar-se, mas ela não conseguiu lembrar-se de algo do tipo.
            Após aguardar um tempo e descobrindo que nada mais aconteceria, ela decidiu ir para o jardim de uma vez por todas; mas, para o seu azar, ela percebeu que havia esquecido a chave dourada assim que cruzou a porta e, então, voltou para buscá-la; foi só aí que ela se deu conta de que não alcançava o topo da mesa – ela podia ver o objeto através do vidro e tentou dar o melhor de si para escalar uma das pernas da mesa, mas a superfície era muito escorregadia. Depois de muitas tentativas inúteis e de ser vencida pelo cansaço, a pequenina Alice se sentou e começou a chorar.
            — Ei! Não tem porque chorar assim! — a menina fez um alerta a si própria de uma maneira ríspida. — É melhor parar agora mesmo! — Geralmente, ela sempre se alertava muito bem – embora ela, raramente, seguisse os próprios conselhos. Às vezes, ela se repreendia dum modo tão severo que provocava choro em si própria; uma vez, ela tentara boxear as próprias orelhas por ter trapaceado num jogo de críquete em que jogava sozinha (essa curiosa menina adorava fingir ser duas pessoas).
            — Agora não adianta — pensou a pobre Alice — querer ser duas pessoas! Isso, porque já está difícil o bastante ser uma pessoa digna de respeito!
            Alguns segundos depois, o seu olhar chegou a uma pequena caixa de vidro que estava sob a mesa; Alice abriu a caixa e encontrou um bolo em miniatura, no qual estava escrito “COMA-ME” em lindas letras feitas com groselha.
            — Bom, vou comer — decidiu Alice — e, se isso me fizer crescer, poderei pegar a chave; agora, se isso me fizer diminuir, poderei rastejar sob a porta e chegarei, de qualquer forma, no jardim, não importa o que aconteça.
            A menina mordiscou um pedaço.
            — E aí? E aí? — perguntava a menina, freneticamente, segurando sua mão em cima da cabeça para sentir se estava crescendo; mas ela ficou bem surpresa ao ver que continuava do mesmo tamanho (para ser exato, isso costuma acontecer quando se come bolo, mas Alice já estava acostumada a não esperar nada além de esquisitices acontecendo – porque, parecer normal, parecia-lhe chato!).
            Então, Alice decidiu agir e acabou com o bolo duma vez por todas.


Fonte: https://www.gutenberg.org/files/11/11-h/11-h.htm

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conto: Toda pessoa tem sentimento?


            — Toda pessoa tem sentimento? — foi o que Felipe questionou naquele momento.
* * *
            Felipe tem apenas dez anos de idade; o seu comportamento não é o melhor exemplo às outras crianças da escola – embora, em casa, suas atitudes sejam muito calmas e respeitosas.
            Silvio, o pai de Felipe, é um ex-presidiário e faz pouco tempo que saiu da prisão. Desde então, tem-se dedicado a perturbar a vida da esposa e dos filhos:
            — Fábio, onde você estava? — questiona Silvio ao filho mais velho, de 15 anos. — Como você sai de casa pela manhã e chega apenas agora, à meia-noite?
            Fábio, cansado das perturbações do pai, havia saído escondido após a escola e ficara ausente pelo resto do dia. O garoto tem andando com uma turma nada confiável: adolescentes usuários de drogas. Fabiana, a mãe, tentou, por diversas vezes, conversar com o filho sobre tal questão citando, até mesmo, o caso do esposo.
            — Eu saí com uns amigos — respondeu Fábio, sem mudar a sua feição (inexpressiva). O menino tem o mesmo jeito do pai: introvertido e que não expressa os sentimentos.
            — Sua mãe me contou quem são seus amigos... — revelou Silvio, avançando para perto do garoto. — Se eu “sonhar” que você está mexendo com drogas, eu mato você!
            Provando que é o “macho dominante”, Silvio dá um tapa no braço do filho.
            Felipe, que está no quarto (os três filhos dormem no mesmo cômodo), acha melhor tentar ajudar ao irmão:
            — Pai, ele ‘tá falando a verdade — comentou Felipe. — Eu vi ele saindo da escola com uns amigos; eram os mesmos que ele sempre traz aqui.
            — Cala a sua boca! — Silvio bate na perna de Felipe, que corre para deitar em sua cama. — Já falei para não se meter no que não te interessa.
            — Silvio! — Fabiana fica exaltada com a situação e avança para cima do marido. — Como você se atreve?
            A mulher move a mão para dar um tapa na cara do esposo, mas Silvio a segura e a prensa na parede do quarto:
            — Não ouse bater em mim — avisou o homem, que olhava profundamente nos olhos da esposa. — Eles são os meus filhos e eu faço o que eu quiser!
            — Não faz, não! — gritou Fabiana. — Você nunca cuidou deles... Eu cuidei deles a vida toda; sozinha! Você não pode chegar e fazer o que quer com eles!
            Silvio, cheio de raiva, encara a mulher. Fabiana, por sua vez, sai do quarto e vai para o banheiro lavar o rosto. Felipe e Fábio dormem sem comentar o que aconteceu e sem trocar olhares. Enquanto isso, Roberta, a caçula, chora escondida em sua cama.
            Dois dias se passam e Felipe, na tentativa de chamar a atenção da mãe, provoca Fabiana para que ela fale com ele:
            — Duvido você olhar pra mim — provoca Felipe por repetidas vezes.
            — Chega! — sem pensar, Fabiana dá um tapa no filho.
            Logo em seguida, a mulher começa a chorar e pede perdão ao filho:
            — Felipe, me perdoa! — implora Fabiana. — Eu estou nervosa e você está me provocando, não fiz isso por querer... Me desculpa!
            O menino consente com a cabeça e vai para o seu quarto.
            No fim da tarde, quando o pai chega em casa, o homem vai direto ao quarto dos filhos:
            — Felipe? — Silvio chega cheio de raiva no quarto do menino. — O que foi que você fez com sua irmã?
            — Eu não fiz nada, pai! — responde o menino, preocupado.
            — Ela está chorando e dizendo que caiu da cama... Você a empurrou? — de tão alterado, Silvio acaba cuspindo algumas gotas de saliva no rosto do filho.
            — Eu nem falei com ela hoje, pai — insiste Felipe, quase chorando.
            — ‘Tá chorando por quê? — questiona Silvio, retirando o cinto de sua calça. — Eu nem bati em você ainda!
            — Pai, não me bate, por favor! — suplica Felipe, deixando suas lágrimas escorrerem. — Eu não fiz nada, eu juro!
            Silvio joga o cinto no chão e sai do quarto. Em instantes, o homem volta com um facão na mão:
            — Pai, o que você vai fazer? — Felipe começa a tremer e a chorar desesperadamente. — Eu não fiz nada!
            De fato, Felipe não havia feito nada. Roberta, num sono pesado, acabara rolando da cama e caindo sozinha; mas Silvio não queria saber, ele não se importava em saber se os filhos falavam a verdade ou não; ele nem se importava, na verdade, com os filhos.
            — Cala a boca! — num ímpeto, o homem move a mão com a faca na direção do braço esquerdo do filho, mas, por alguma razão, ele vira a lâmina e encosta apenas a lateral do facão na pele do menino.
            Felipe, chorando, sai correndo para fora de casa.
* * *
            Com medo de voltar para casa, Felipe não se preocupa em trocar a roupa para ir à escola; vai da forma que está.
            Na sala de aula, o professor conversa sobre a questão do bem e do mal – comenta o fato de que o bem e o mal existem dentro de todo o mundo; explicou que as motivações é que fazem as pessoas escolherem se agirão com bondade ou com maldade.
            O professor percebe certa ansiedade na feição de Felipe e decide “provocar” o aluno:
            — Felipe... — comenta o professor. — Você quer perguntar algo?
            Diante daquilo, o menino só consegue pensar na família – para ele, a família não lhe dá atenção alguma; para ele, o pai lhe odeia; para ele, a mãe até gosta dele, mas não pode fazer muito por ele. Um turbilhão de pensamentos toma a sua mente.
            Felipe acha que, talvez, as pessoas não consigam sentir nada por ele. Então, ele solta a pergunta:
            — Professor... — sua voz demonstra certa apreensão.
            — Pode-me perguntar, Felipe — o professor incentiva.

            — Toda pessoa tem sentimento? — é o que Felipe questiona naquele momento.

sábado, 14 de março de 2015

Queda: uma nova luz

O poema abaixo não segue e nem se encaixa em nenhum "padrão poético". Foi mais uma forma de contar uma história que me surgiu. Espero que gostem!



Queda

No princípio, quando só havia Deus,
o Pai Maior decidiu criar os Seus.
Antes, tinha o Universo ao seu esbanjo;
agora, dividia tudo com cada Arcanjo.

Miguel foi o primeiro;
Gabriel, o mensageiro;
Rafael, curandeiro;
Lúcifer, faroleiro.

E esta história é sobre o Iluminado;
a Estrela da Manhã, como foi nomeado.

O anjo, embora sério,
era o preferido de Deus naquele império.
Belo, alto e sagaz,
não deixava a humanidade para trás.

Egoísmo, destruição e matança:
para os homens, era uma dança.
Embora, de Deus, fosse um reflexo,
para o Pai, aquilo Lhe deixava perplexo.

Tentando ensinar uma lição,
Deus, somente, agiu com punição:
Egoísmo, destruição e matança.
era apenas Deus entrando na dança.

Achando aqueles atos tão brutais,
Lúcifer tremeu em aversão.
Ele agiu com as próprias mãos,
pois não queria, aquilo, mais.

Pediu auxílio ao Mensageiro,
mas o anjo, num devaneio,
disse-lhe que aquilo não estava previsto,
e que, sua missão, era avisar sobre o Cristo.

Apelou ao Anjo da Cura;
a resposta, com ternura,
resultou em negação.
Ele, então, tomou uma decisão.

O último apelo foi ao Principado:
— Ó, meu irmão, fique ao meu lado!
O anjo, com sua espada, então, respondeu:
— O Paraíso é meu lar; e, não mais, o teu!

Como Deus, ali, dormia,
Miguel agiu com tirania:
— Não agirás por trás do Pai!
De seu trono, o Príncipe sai.

Caindo, então, numa emboscada,
a Estrela da Manhã é atingida por uma espada;
Miguel cortou, do irmão, cada artelho,
manchando o Céu com sangue vermelho.

O Iluminado, assim, urrou de dor,
enquanto, na Terra, abria-se um abismo assustador.
Miguel procedeu sem piedade
e arremessou o irmão com crueldade.

— Teu brilho, agora, será ofuscado pelo escuro,
pois, nas entranhas da Terra, eu te enclausuro!
Enquanto caía, o anjo prometeu:
— Farei o meu reino nas trevas que me deu!
Junto a ele, outros anjos caíram:
tudo, porquê, um líder viram.

Contudo, assim que chegou ao Porão,
seu corpo sofreu uma grave alteração:
onde, antes, haviam dedos mutilados,
agora, haviam cascos afiados;
as asas, antes emplumadas,
agora estavam bem encouraçadas.

Chifres, em sua fronte, brotaram pontudos;
e os outros anjos viraram demônios cabeçudos.
Ali, em meio a toda aquela quentura,
fizeram um reino tomado por amargura.

Vivendo uma eterna impiedade,
o Diabo foi condenado à bestialidade.
Mas não viveria implorando por perdão,
pois aquela era a chance de ascensão.

Nascido Estrela da Manhã,
Lúcifer era, agora, o Satã.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Conto - Terror na Rodovia

            A noite estava abafada. Não havia uma nuvem no céu; em contrapartida, as estrelas revestiam toda aquela imensidão de cor azul escuro. A rodovia, por sorte, estava livre – quase não se via carros passando pela pista contrária, nem atrás, nem à frente. Eram apenas Rodolfo e Luís, dentro daquele carro.
            — Caramba! — reclamou Luís. — Que calor horrível! Já é quase meia noite e o tempo ainda está assim...
            — Esta região aqui de Araçatuba é assim mesmo — comentou Rodolfo. — Mas estamos quase lá; só mais umas duas horas e chegaremos em Ilha Solteira.
            O casal estava dirigindo rumo à cidade de Ilha Solteira, última cidade do estado de São Paulo antes da divisa com Mato Grosso do Sul. A família de Rodolfo era do interior, e o jovem estava levando o namorado para apresentá-lo aos seus pais.
            — Se à noite é assim, imagine durante o dia! — pensou Luís, incomodado com o clima. — Mais duas horas e estaremos carbonizados...
            — Pare de ser exagerado, Luís! — pediu Rodolfo. — Lá tem um rio enorme pra você se refrescar durante o dia. Relaxa!
            — “Nhandeara” — comentou Luís. — Que nome esquisito, o dessa cidade!
            — É um nome de origem tupi — explicou Rodolfo.
            O carro estava com as janelas da frente abertas, para refrescar um pouco a viagem do casal. Alguns insetos acabavam entrando no carro e perturbando Luís, mas aquilo não era nada comparado àquele calor insuportável que o rapaz sentia.
            De repente, o carro começou a perder a velocidade. As luzes do painel frontal piscaram três vezes e se apagaram; depois, foi a vez dos faróis do carro. Estava um breu.
            — O que aconteceu? — questionou Luís, olhando ao redor. Estava tudo muito escuro, não havia sinal algum de uma cidade próxima. Nenhum carro passava na rodovia.
            — Caramba... Não sei! — respondeu Rodolfo. — A bateria deve ter arriado, ou algo do tipo. Não sei!
            — Como assim? — Luís ficou espantado. — Você não checou o carro antes da gente sair? Não podemos ficar parados aqui no meio do nada!
            — Espera um pouco... — Rodolfo tentou ligar o carro, mas não conseguiu. — Não sei o que houve. Vou precisar sair e procurar ajuda.
            — O quê? — Luís não acreditou no que ouvira. — Ficou louco, Rodolfo? Olha a escuridão que está lá fora! Por que não usa o celular?
            — Celular, neste meio do nada? — interrogou o jovem. — Não tem sinal aqui, Luís. Se eu não sair e procurar ajuda, ficaremos aqui, sabe-se lá até quando!
            — Rodolfo, não tem onde buscar ajuda! — insistiu Luís.
            Rodolfo saiu do carro e caminhou em volta do veículo. O rapaz esticava o pescoço para o lado direito da pista, tentando ver se encontrava alguma moradia no meio daquele campo sem fim.
            — Acho que tem uma casa ali — Rodolfo apontou no meio do nada.
            — Onde? — estranhou Luís. — Não vejo nada!
            — Olhe bem ali... — pediu Rodolfo. — Está vendo um pontinho iluminado? É uma janela! Tem uma casa ali!
            — Então vamos lá! — disse Luís.
            — Não! — respondeu o motorista, prontamente. — Se o carro ficar sozinho, pode ser roubado ou algo do tipo. Você fica; eu volto rápido!
            — Sozinho? — perguntou Luís, soltando um leve gemido de medo.
            — Eu volto logo! Prometo — Rodolfo deu um selinho no namorado, pegou duas lanternas no porta-luvas, uma para ele e outra para Luís. — Espere no carro.
            Assim, Rodolfo se embrenhou no meio do mato e desapareceu na escuridão.
            Enquanto isso, Luís ficou sentado no banco do passageiro, mexendo no celular. A lanterna iluminava o interior do carro, proporcionando um pouco mais de segurança ao rapaz.
            Pouco tempo depois, Luís ouviu um barulho; pelo retrovisor, o rapaz pôde ver os faróis de um carro se aproximando. Ele apagou a lanterna imediatamente e ficou em silêncio, tentando não chamar atenção.


            O carro passou ao lado, na pista, e estacionou no acostamento logo à frente.
            Luís começou a suar frio; achou que seria roubado, sequestrado ou, até mesmo, morto. O jovem começou a rezar em voz baixa e tremia.
            — Oi! — uma voz masculina ecoou dentro do carro. — ‘Tá tudo bem aí?
            — Oi — Luís abriu os olhos e encarou o homem na janela do carro. — Acho que a bateria do carro arriou. Meu nam... Meu amigo foi procurar ajuda.
            Ele preferiu não comentar que tinha um namorado. Se o homem desconhecido fosse homofóbico, mataria ele ali mesmo.
            — Ajuda? — estranhou o homem misterioso. Ele usava uma barba rala e seus olhos carregavam um ar sombrio. — A cidade mais próxima daqui está a uns trinta quilômetros. E se ele voltou, vai ter que andar, pelo menos, cinquenta quilômetros. Quer uma carona?
            — Não! — respondeu de imediato. — O Rodolfo não voltou... Ele acha que viu uma casa no meio do pasto, e foi até lá tentar pedir ajuda. Obrigado.
            — Tem certeza? Não há ninguém morando num raio de vinte quilômetros — comentou o homem. — Meu nome é Fernando. Moro em Pereira Barreto, é perto daqui. Se quiser, posso te dar uma carona até um posto policial.
            — Obrigado, mesmo... — agradeceu Luís, desconfiado. — Mas prefiro esperar pelo Rodolfo.
            — Esse Rodolfo é seu namorado, né? — questionou Fernando, intrometido.
            — Hein? — Luís começou a ficar mais apreensivo e demonstrou sua tensão.
            — Você tem uma aliança... — Fernando apontou para o dedo do rapaz. — Você não deixaria sua namorada para viajar com um amigo em plenas vésperas do Natal.
            — Cara, desculpe... — Luís estava incomodado. — Será que você pode ir?
            — Tudo bem! — disse Fernando, mostrando um belo sorriso. — Vou deixá-lo em paz. Espero que seu namorado não te deixe aqui plantado a noite inteira, pois você não merece. Boa sorte!
            Assim, Fernando volta para o seu carro e some na escuridão da rodovia.
            Luís reacende a lanterna e tenta ligar para o celular de Rodolfo, mas não consegue. O rapaz sai do carro e anda para o campo à sua direita – havia um pequeno morro, onde, talvez, o sinal do celular tivesse uma maior intensidade.
            Sobre o morro, Luís enxerga melhor a luz vista por Rodolfo; mas também se dá conta de que, com certeza, aquela não era a luz da janela de uma casa. O que Luís via era uma espécie de fogueira, bem longe dali, como uma festa. Havia algumas pessoas em volta do fogo, caminhando em círculo. Também havia quatro tochas, formando um quadrado em volta do círculo.
            Preocupado com o que pudesse ter acontecido ao seu namorado, Luís desceu do morro e caminhou rumo ao local. Já próximo da fogueira, o rapaz pôde distinguir nitidamente todo o evento: oito pessoas faziam uma espécie de ciranda em volta das chamas, cantando em um idioma desconhecido para Luís – pareciam estar num transe, numa hipnose.
            No meio do círculo, Luís conseguiu enxergar Rodolfo. Ele estava deitado sobre uma tábua de pedra, com um punhal ensanguentado ao lado de seu corpo. Então, Luís percebeu uma mancha vermelha na mão do namorado – sangue.
            — Rodolfo! — gritou Luís, saindo do meio do matagal em direção ao corpo do namorado.
            Nesse instante, as oito pessoas se calaram. Dois homens seguiram exatamente na direção de Luís e o agarraram pelos braços.
            — Me soltem! — gritou o jovem. — Socorro!
            Mas Luís desmaio enquanto era carregado para a tábua de pedra e via seu namorado se levantar como se nada tivesse acontecido.
            Cinco minutos depois, Luís foi acordado por Rodolfo, que mostrava um sorriso largo. Rodolfo passou a mão sobre o rosto de Luís e removeu o pano que impedia o jovem de gritar.
            — O que você está fazendo? — perguntou Luís, consternado. — Que droga é essa?
            — Fique calmo, não vai demorar — pediu Rodolfo, com calma total. — Colabore com a gente e tudo ficará bem.
            — Rodolfo, o que é isso? — insistiu Luís. — Me solta! Me deixa ir embora daqui... O que você ‘tá fazendo?
            — Silêncio! — o garoto deu um tapa para calar o namorado.
            Em seguida, os dois homens voltaram, junto com as outras seis pessoas. Todos fitavam Luís seriamente.
            — Quem são vocês? — questionou Luís, choramingando.
            — Minha família — respondeu Rodolfo. — Eu não disse que você os conheceria? Pois, então!
            — O Rodolfo é um garoto e tanto — comentou uma mulher, no círculo. Ela tinha feições semelhantes às de Rodolfo. — Como mãe, tenho orgulho de vivenciar a passagem de meu filho à vida adulta.
            — Do que ela está falando? — perguntou Luís, irritado e, ao mesmo tempo, desesperado, tentando se livrar das cordas que o amarravam.
            — Somos de uma linhagem secreta — revelou Rodolfo. — Sempre que um de nós completa os vinte e um anos, participamos do ritual de passagem à vida adulta. E você é meu convidado especial!
            — Não quero participar desta merda! — reclamou o menino, sem mais lágrimas para chorar. — Me tira daqui! Você me enganou o tempo todo... Como fui imbecil!
            — Não te enganei! — respondeu Rodolfo, ofendido. — Eu amo você, de verdade! Mas o ritual exige isso... Sacrificar o primeiro amor em troca das benções dos deuses por toda a sua vida.
            — Que deuses, seu louco? — vociferou Luís, sem paciência. — Eu quero ir embora!
            — Chega de conversa, Rodolfo — disse um senhor no círculo. — É chegada a hora do ritual!
            — Não! — contestou Luís.
            — Certo, pai — concordou Rodolfo.
            O garoto segurou o punhal que estava ao lado de seu corpo e ergueu o instrumento, alinhando-o com o peito de Luís.
            — Eu vos ofereço o sangue do meu primeiro e verdadeiro amor — proferiu Rodolfo, de olhos fechados. Lágrimas escorriam por seu rosto. — Recebam este sacrifício como prova de minha devoção e lealdade. Espero por suas benções em minha vida e, em troca, serei eternamente fiel a vocês.
            A chama da fogueira se intensificou e ficou mais alta. O ar ficava mais seco e caloroso. Luís fechou os olhos para não ver aquilo. Mas, para sua surpresa, Rodolfo baixou o punhal nos pulsos do garoto, libertando-o das cordas.
            — Fuja daqui — ordenou Rodolfo, com os olhos marejados. — Corra o mais rápido que puder!
            — E você? — mas, assim que concluiu a pergunta, a mãe e o pai de Rodolfo o esfaquearam pelas costas. E o jovem caiu morto numa poça de seu próprio sangue.
            — O ritual chegou ao fim — comentou o pai de Rodolfo. —, mas você não vai embora!
            Luís correu o máximo que conseguiu, mas foi encurralado por um dos homens que o aprisionara no início. O brutamonte fez um movimento rápido com um punhal e cortou o pescoço de Luís.
            Quase se afogando em seu sangue, que gorgolejava na garganta, Luís continuou correndo em direção à rodovia. Sua força se esvaía pouco a pouco. Suas esperanças reviveram quando enxergou, ao longe, um foco de luz vindo da rodovia; alguém mexia no carro do seu namorado. À medida que se aproximava, conseguia enxergar com mais nitidez – era Fernando, o homem que oferecera ajuda e que Luís, por medo e desconfiança, não havia aceitado; mas o garoto estava amargamente arrependido por não ter aceitado a ajuda do desconhecido, pois poderia estar bem melhor que naquele instante.
            Sem pestanejar, Luís continuou caminhando, dando passos falsos, rumo à rodovia. Mas sua visão começou a embaçar, seus lábios ficaram secos, um gosto de ferro se apropriou de sua boca, um zumbido agudo começou a irritar seus ouvidos. Aquele era o fim. Ele precisava correr para que Fernando pudesse vê-lo e correr com ele para um hospital.
            Luís estava a cinco metros de distância de Fernando, mas não podia gritar porque estava com a boca cheia de sangue. Inesperadamente, uma escuridão tomou conta de toda sua visão.

            O garoto, infelizmente, havia caído num buraco escondido no meio do mato. A última coisa que conseguiu ver, ainda de dentro do buraco, foram os dois brutamontes da família de Rodolfo, jogando terra dentro do buraco. Luís foi enterrado vivo, sem esperanças, e sem uma segunda chance.